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Fotografia: Pedro Tavares

Na primeira metade de 2020, o músico lisboeta editou dois projectos (um a solo e outro com Pedro Sousa).

simão simões: “Já não vejo quase ninguém a falar mal de música por ser feita no computador”

Fotografia: Pedro Tavares

Os últimos cinco anos mudaram muito a criação de música electrónica. O computador enquanto instrumento único transformou mais facilmente qualquer quarto de qualquer jovem num estúdio onde pode lançar os seus projectos através de um par de cliques, democratizando não só a criação como também o consumo de música. Foi nesta meia década que vários jovens artistas apareceram com os seus laptops debaixo do braço para subirem a palcos e darem concertos inteiros com uma quantidade e diversidade de sons incontável vindos todos da mesma caixa. Entre eles, o nome simão simões fez-se ouvir e ganhou uma voz cada vez maior, apesar da sua curta pegada discográfica.

O músico lisboeta, que lançou strel em 2018 e umas faixas soltas, já coleccionou diversos trabalhos e performances, estando entre elas o concerto no OUT.FEST no qual “representou” esta nova geração computadorizada num quarteto improvisado com o músico americano Keith Fullerton Whitman, e os portugueses André Gonçalves e Clothilde. Este ano, o artista já lançou o seu mais recente EP a solo, TOUCHY FEELY, e uma colaboração com Pedro Sousa, Tiro e Queda, dois projectos com bases bastante distintas. O Rimas e Batidas falou com o produtor numa pequena tasca no Bairro Alto sobre tudo isto e ainda mais algumas coisas.



Tens o teu projecto a solo, Maria Reis, uma editora e ainda arranjas espaço para collabs e projectos mais espontâneos. Como é que consegues gerir isso tudo?

Não é assim tão complicado, é só tentar utilizar o meu tempo de uma maneira eficiente.

Mas a questão de produzir tanta música é que desgasta muito o cérebro e a tua criatividade.

Sim, sinto isso especialmente para fazer as minhas coisas, ou para tocar com o [Pedro] Sousa. Quando estou a tocar com a Maria ou com outras bandas, em que estamos a fazer uma coisa muito mais em conjunto, é mais fácil, não sinto que tenho de puxar tanto esforço.

E sentes que há muitas diferenças no processo criativo para os teus diferentes projectos, ou sentes que no teu cérebro funciona tudo um pouco da mesma forma?

É bastante diferente, no geral. Acho que vai depender do que estou a tocar: se estou a tocar baixo, vou ser instrumentista; se estou a tocar laptop, o processo vai ser diferente. Basicamente o que eu faço no projecto a solo é destilar um bocado todas as cenas que eu faço no computador e tentar fazer isso com uma organização mais compacta, em vez de ser só experimental no sentido “a sério” da palavra, tentar encontrar sons fixes e tentar tocar com aquilo, é mais destilar isso e fazer canções.

Trabalhaste recentemente com Keith Whitman, juntamente com o André Gonçalves e a Clothilde. Como foi relacionares-te e colaborares com uma lenda viva e dois dos nomes mais respeitados na electrónica nacional?

Foi completamente breezy, super fácil. Aquela malta é super aproximável, tanto a Sofia como o André ou o Keith, e não houve de todo problemas com a barreira de linguagem, falávamos todos inglês. O André já conhecia bem o Keith há algum tempo, eu e a Sofia não. Foi muito fácil desde o início, acho que nos demos todos bem, e por causa disso foi mais fácil trabalhar.

Sentes que essa experiência influenciou o teu novo disco?

Não tanto este disco, na verdade, porque este disco foi buscar influências que não tinham tanto a ver com as referências que estava a usar para esse projecto. Para as coisas que estou a fazer agora tem muito mais a ver.

Então que músicas, artistas e projectos usaste como influência para TOUCHY FEELY?

Malta do footwork especialmente, RP Boo, [DJ] Rashad, [DJ] Diamond…

Apesar da influência do footwork, nota-se uma ausência de graves ao longo do álbum. Tomaste esta decisão porquê?

No footwork há muita malta que segue essa cena, no início, a sair do ghetto house, e especialmente juke, onde os 808s não eram uma coisa tão importante no projecto final da música, como vês no post-Rashad, postHyperdub, Planet Mu, quando se encapsulou o footwork. Em bastantes cenas que o RP Boo faz agora, o gajo muito raramente usa baixos ou subs e, quando usa, nota-se completamente e acho esse contraste super interessante. O som em si, só de bateria sem baixo, é uma coisa que me apela bastante. É um tema bastante refrescante porque a maioria da electrónica, especialmente a mais virada para a dança, é bué focada aí, e acabas a explorar imenso o que podes fazer com essa existência, de que maneira podes manipular os baixos para fazerem coisas diferentes. É só tirar o baixo em algumas situações e funciona bastante bem, tiras isso da equação e tens muito mais espaço aberto para explorar tantas coisas.

Fazes parte de um movimento que cada vez vê mais o computador como um instrumento em vez de apenas um meio, conseguindo construir peças inteiras sem recorrer a outros hardwares. Prevês que o computador comece a ficar cada vez mais importante e que se calhar os instrumentos comecem a cair em desuso?

A primeira parte sim, a segunda parte não, porque nunca vais conseguir tirar o apelo dos instrumentos físicos, a maneira como tocas é imediato e o som é imediato. No computador é muito complicado replicar isso, mesmo em termos de timbre e da exploração dos instrumentos, que é completamente diferente. Acho que, por muito que o computador ganhe relevância na música no geral, os instrumentos nunca a vão perder.

Acho que acima de tudo serve também para tornar o processo criativo mais democrático.

Sim, exactamente. Essa é uma das partes que é super interessante [na integração] do computador na música, desde o início. O primeiro gajo que vi a fazer música completamente no computador foi o Oval, que também é das minhas maiores influências, e a ideia do projecto, quando não era só o [Markus] Popp, era retirar o autor da música em si, democratizar completamente.

Este movimento tem dado cartas em Portugal, encontrando cada vez mais o seu espaço em circuitos. Sentes um Portugal aberto a este tipo de projectos?

Completamente, pelo menos da parte dos músicos. Já não vejo quase ninguém a falar mal de música por ser feita no computador, o que é uma coisa bastante refrescante porque mesmo há cinco anos via isso a acontecer. Apareceu imensa malta nova que usa maioritariamente isso. Vem também dos programas para música terem ficado muito mais acessíveis e nestes últimos cinco anos parece que predominou completamente por causa disso.

Fala-nos do teu processo criativo. TOUCHY FEELY foi pensado enquanto álbum ou mais como uma selecção de músicas que foste fazendo?

Foi feito enquanto álbum. Primeiro queria lançar alguma coisa, não lançava nada há imenso tempo e estive durante estes dois anos [com] uma dificuldade enorme em acabar coisas. E senti a necessidade de fazer um EP, uma colecção de músicas agora, e acabei a fazer o álbum numa semana, acho eu. Pensei: “Quero mesmo começar isto, acabar isto e está feito”. Por um lado foi fixe por estar a precisar de lançar alguma coisa, e estou a conseguir trabalhar muito melhor a música desde que fiz isso, por outro lado não fiquei tão feliz com algumas coisas no disco. Mas acho que é natural e continuo a gostar do todo.

É um álbum que está menos all over the place que o Strel, usas menos elementos em cada música e acabas por dar um espaço maior ao silêncio e ao potencial de cada som.

Tentei minimizar um bocadinho as coisas neste álbum, sim.

E sentes que isso faz parte um pouco da tua maturação enquanto produtor?

Não essencialmente. A maneira de eu ver e fazer música é bastante diferente desde o primeiro disco, mas ao mesmo tempo não acho que tenha mudado assim tanto. Estou só a explorar coisas que já achava interessantes mas que não conseguia ou não me apetecia explorar na altura.

Lançaste recentemente Tiro e Queda com o Pedro Sousa pela Favela Discos. Como surgiu a ideia desse projecto e a ligação à Favela?

O Tiro e Queda é a gravação do segundo concerto que eu e o Sousa demos. Originalmente, quando tocámos pela primeira vez, ele convidou-me do nada, tocámos no Irreal. Depois convidaram-nos para tocar no Lounge, e gostámos do que tocámos, estava gravado, decidimos fazer daquilo uma cena, e acabámos por ficar felizes com o resultado. Há um trabalho de edição, mistura, etc, mas no geral foi só “bora editar isto que fizemos que foi fixe”. Falámos com a malta da Favela, eles foram completamente receptivos e acabou por correr tudo bem. Foi tudo bastante rápido.

É um projecto mais ligado ao free jazz, é super interessante ver como este estilo se conecta tão naturalmente à electrónica.

São coisas que ligam bem, no geral, que já vês a acontecer há imenso tempo, inclusive em Portugal. Os músicos que estavam a fazer glitch e microsound no início do século, 2000/2001, também se juntaram a malta do jazz. Tens por exemplo o Bruno Silva, que, apesar de tocar mais guitarra quando está em projectos mais ditos free jazz, também inclui bastantes vezes electrónica; o Pedro Lopes, que não está cá agora, mas que inseria também muito esse meio sonoro no género; mesmo o Sousa usa há imenso tempo essa estética mais electrónica na música jazz dele. Acho que são estilos que funcionam bem e faz todo o sentido juntá-los.

O jazz é algo muito à base do orgânico, da expressão na hora, da entrega total na performance e de sentires a pessoa, e a electrónica não vai bem por aí e quebra um pouco isso, são sons que estás a moldar mas não parece tão físico.

A electrónica consegue quebrar isso, mas também consegue reproduzi-lo de uma maneira interessante, da mesma maneira que consegues reproduzir esses sons mecânicos com instrumentos orgânicos. Tens as peças minimalistas do Steve Reich, que são completamente isso, algo completamente mecânico a ser tocado por clarinetes, coros, etc. Nesse projecto com o Sousa especificamente, apesar de estar a usar sons bastante digitais por natureza, o meu objectivo é tentar manipulá-los dessa mais forma mais orgânica, mais imediata, e até fiquei bastante feliz como o consegui fazer neste disco, e agora estou muito melhor nisso que o que esperava antes de tocar com ele. Não conseguia fazer isso de todo.

E coisas preparadas para o futuro?

Devo ter um disco acabado em muito pouco tempo, está bastante encaminhado. Não sei como é que o vou lançar, não sei se vou sequer falar com alguém ou fazer isso por mim, logo se vê. Mas não deve ser muito tempo até lançar mais alguma coisa com o meu nome, mesmo que não seja esse disco, alguma coisa. Estou a sentir-me muito mais produtivo.


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