simão simões // TOUCHY FEELY

[TEXTO] Francisco Couto 

Simão Simões faz parte da nova geração de músicos que tem, progressivamente, ganho espaço e reconhecimento no campo da música electrónica. Esta geração, que recorre mais à exploração do computador enquanto instrumento musical, mostra-se capaz de dar um passo em frente na música experimental em Portugal, com projectos a serem lançados regularmente desde o início da segunda metade desta década, o que demonstra a força que o DIY tem ganho nos últimos tempos, sem previsão para que pare de crescer.

Para além da música solta “hd”, em 2019, o último lançamento do artista tinha sido o seu álbum de estreia, Strel, que completa já dois anos em maio. Desde aí, Simão focou-se em vários projectos, desde a colaboração com Keith Fullerton Whitman, André Gonçalves e Clothilde no festival OUT.FEST, ao lançamento de zines e outros trabalhos gráficos ou a criação da editora independente Marca Branca e colaboração nos espectáculos ao vivo de Maria Reis enquanto baixista. Numa altura em que o COVID-19 nos obrigou a ficar em casa, surgiu Touchy Feely, um EP de cerca de 20 minutos, que consiste em cinco músicas, que vão desde os dois aos sete minutos de duração.

A técnica de recorte de samples continua a ser a figura preponderante das composições do músico. Em “SAFETY” e “AND MORE”, vemos Simão Simões explorar os limites do que pode ser considerado footwork, desconstruindo as várias texturas que usa mas mantendo a identidade do estilo com as vozes chopped e o baixo (elemento raro neste álbum) em triplets. “☆ WALK” resume-se praticamente a um sintetizador e à viagem rítmica que o acompanha e que é composta por uma batida solta que cria o ambiente entre o vaporwave, o synth pop, o glitch, os videojogos clássicos e o cyberpunk, sem que pertença a algum destes estilos, mas partilhando, no entanto, a ideia de música pós-Internet que é influenciada pela dimensão virtual que se tornou uma parte crucial das nossas vidas e, ao mesmo tempo, pelo revivalismo de sonoridades épicas de videojogos da nossa infância e de música dos anos 80. “WINGS” passa por nós de forma etérea, como se de um happening casual se tratasse, com ritmos que, apesar de presentes, não deixam uma mossa forte na música, não se atrevendo a entrar pelas frequências graves. “DONE” começa à volta de uma melodia criada a partir de vários fragmentos diferentes que é explorada ao mínimo detalhe e, apesar dessa frase ser a única existente durante três minutos, os nossos ouvidos tentam absorver toda a informação que nos dá, não nos deixando cair na sensação de monotonia. Na segunda parte da música, os triplets voltam a entrar em acção e seguem o sintetizador de textura virtual até ao fim do disco.

O caos sonoro glitchy que nos apresentara em Strel acalmou, remetendo-se a muito menos elementos por música, dando espaço ao vazio nas suas composições, à repetição de ideias com pequenas variações, e à exploração mais densa de cada um dos sons que utiliza. Simão cria melodias complexas seja através de vozes, sintetizadores, ou recortes de vários sons que cola, e desenvolve as suas nuances ao longo de cada música, seja através de pequenas alterações nos reverbs, delays e pequenos detalhes das frases musicais ou através dos ritmos leves que moldam a narrativa de cada música. Isto permite que a sua música, apesar da estética ultra-sintetizada, funcione como um organismo vivo que, apesar de parecer parado à primeira vista, tem milhões de células e procedimentos a acontecer a toda a hora. É nesse limbo, entre reparar nas pequenas mudanças sem que elas assumam o total controlo da faixa, que Touchy Feely se encontra.

A coesão no universo e ambiência cria uma sólida viagem entre as diferentes faixas, coesão essa que ganha relevância quando se ouve o EP enquanto faixa única no YouTube do produtor, sobressaindo as influências footwork misturadas com a estética virtual, que vão e voltam ao longo dos 20 minutos do álbum, e a leviandade de cada uma das cinco faixas, que começam e terminam sem grandes aparatos e fluem entre elas sem nunca se tocarem. Simão Simões continua a cimentar o seu lugar na electrónica experimental em Portugal, com desenvolvimentos reconhecíveis na apuração de cada som que usa para construir as suas músicas, e na dualidade entre o seu já conhecido “glitch” e o minimalismo que paira sobre Touchy Feel.


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