Digital

Sickonce & Subtil

A Real Rap Hero

Kimahera / 2020

Texto de Paulo Pena

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Novo cruzamento entre duas gerações de representantes do hip hop algarvio, e desta vez o encontro resultou em compromisso. Sickonce, na produção, e Subtil, no microfone, juntaram-se para criar A Real Rap Hero, um EP composto por cinco faixas bem medidas e lançadas sob a alçada da Kimahera.

Rafael Correia já acumula uns bons quilómetros nestas andanças, seja a produzir, seja a actuar enquanto DJ, actividade que costuma assinar como gijoe. Quanto ao rapper, não é propriamente uma cara nova nos cadernos do rap, sobretudo depois da sua estreia, de cara chapada, em travessias mais longas por volta de 2018, com Aquém-Mar. Porém, há ainda muita expectativa sobre os próximos passos do MC, que progressivamente se vai revelando como um artista com muito a dizer e mostrar. 

Assim, A Real Rap Hero é mais uma etapa conquistada na consagração heróica deste pretendente, auxiliado por um veterano destes filmes. E nestes voos de maior altitude, “cada bafo é como uma aula de aviação” – começa desta forma o projecto que nos trouxe aqui. “Cada Bafo” serve o propósito de primeira faixa ao abrir as portas ao EP. Dá espaço a uns quantos desabafos e esclarecimentos, mas não se adianta em demasia: ainda temos quatro temas pela frente. 

“Quando Escrevo” estas linhas sintonizado com as primeiras notas da segunda faixa, o instrumental suscita dúvidas acerca da ocorrência do recorrente fenómeno do “modo aleatório”, susceptível de apanhar desprevenido quem navega pelas plataformas digitais, e faz acreditar que o algoritmo disparou para os ouvidos uma qualquer faixa de Kota The Friend. Falso alarme, no entanto. É Subtil que ainda está ligado, e desta vez num registo que lhe assenta perfeitamente. Quando escreve, quando se abre, Subtil apura a rima e desce às profundezas daquilo que tem guardado para dar; por outras palavras, é como nos confessa no refrão: “Quando eu escrevo, eu dou a volta ao mundo/ Um querer voar mais alto sem saber bater as asas/ Quando escrevo, eu dou relevo a tudo/ Como se o tudo fosse suficiente/ P’ra matar o tempo nas horas vagas”. 

Chegados a meio caminho, voltamos às raízes, “Onde Crescemos”, e Subtil, com uma batida digna de ser ouvida nos melhores sistemas de som, deixa mensagens subentendidas mas clarividentes: “Muitos rezam para que os meus dias se esgotem/ P’ra que muitos dos que foram nunca voltem/ Conheço muitos que nem têm atitude de homem/ Suficiente p’ra correr pelo que comem”, ou “Ya, lucros, não se escondem, dividem-se/ Muitos também não são e dizem-se/ Porra, entornei o vinho na toalha nova/ Rasguei o contrato, parti os copos/ Sozinho em palco apaguei os contactos/ Vou continuar a meter a vida nos blocos”.  

Parece seguir, agora, sozinho, ou com poucos mas bons. Porque a “Dança” pede sempre um par, e até ver Sickonce tem cumprido à risca esse papel. Nesta, “o João cresceu”, e mostra-se seguro do seu valor, do seu lugar, e das suas perspectivas. E dança, de facto, à volta do instrumental enquanto encaixa rimas umas atrás de outras, num jogo de versos paralelo a um jogo de pés de um bailarino. 

O fim aproxima-se, e o disco acaba como começou: a acelerar. “Ontem, Hoje e Amanhã” reflecte sobre os dias de máscara, que para alguns tiveram início muito antes da pandemia – “Eu nunca lavei tanto as mãos/ Mas tu sempre tiveste máscara na cara”. No fim de contas, e como já nos vem habituando, Subtil, quando joga, revela todas as cartas em cima da mesa, sem máscaras ou capas a cobrir a sua identidade (ou o seu jogo). Nem todos os heróis usam capa. E talvez a frontalidade seja o super-poder deste “real rap hero”.


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