Esta semana foi mais calminha em termos de lançamentos, mas isso não significa que deva passar despercebida. Antes pelo contrário. Afinal de contas, fomos agraciados com regressos aos discos por parte de três nomes grandes de ambos os lados do Atlântico, e surpreendidos por um newcomer com claras ambições de também se querer posicionar entre os mais ilustres. Um americano e três portugueses, todos eles que, de uma forma ou de outra, têm na sua música uma forte ligação com a cultura hip hop. Sigam os parágrafos que se seguem para se sintonizarem na mesma frequência que nós.
Se se sentirem especialmente aventureiros por estes dias, não se esqueçam que também há por aí edições fresquinhas de Irina Barros (CICLOS), Tha God Fahim (Tha Dark Shogunn Saga Vol. 3), Elaquent (This Little Game of Ours), Mandy, Indiana (URGH), Joshua Chuquimia Crampton (Anata), The Musalini (Don Dada), Joji (Piss In The Wind), KAVARI (PLAGUE MUSIC), Daphni (Butterfly), RAAHiiM (PRAY FOR ME), Chini Tacchini (el santo que del cielo quiere bajar), Nick Schofield & No Cosmos (Blue Hour), Ella Mai (Do You Still Love Me?), Jaymin (Sweet Nothings), Charlotte Day Wilson (Patchwork), Puma Blue (Croak Dream), TeeZandos (STILL ODD), Alice Costelloe (Move On With The Year), Ulrika Spacek (EXPO) e Voka Gentle (Domestic Bliss).
[J. Cole] The Fall-Off
Aos 41 anos, J. Cole alcança aquele que é já, provavelmente, o melhor álbum de toda a sua carreira. The Fall-Off esteve 10 anos a ser “cozinhado” e foi feito com o intuito de ser o derradeiro disco do rapper. Tendo isso em consideração, Jermaine Lamarr Cole deu o litro para presentear a cultura hip hop com uma verdadeira masterpiece — em todos os sentidos. O poder de The Fall-Off começa logo pelo lado conceptual, já que é um LP duplo em que cada parte retrata uma década diferente da sua vida. A escolha dos beats é certeira — The Alchemist, Boi-1da, Vinylz ou Powers Pleasant são alguns dos arquitectos sonoros convocados — e a escrita parece mais aprimorada do que nunca, usada para narrar uma série de confidências e reflexões que marcam uma vida dedicada ao game. Depois de uma estreia em 2007 intitulada de The Come Up, chega a hora do The Fall-Off. Se for mesmo uma despedida, J. Cole pode gabar-se de ter conseguido sair pela porta grande.
[Mike El Nite] Existencisensual
Existencisensual marca mais uma (das muitas) mudanças de pele de Mike El Nite — ou Simplesmente Miguel, como agora tem usado para se apresentar. Oito anos após o seu último registo a solo — tendo pelo meio dividido louros com David Bruno em Palavras Cruzadas (2021) e formado o Agrupamento Musical “Os Tais” com João Não e Lil Noon para o LP Dance, Romance! (2025) —, o artista volta a conectar-se de forma mais íntima com o seu público com uma obra que navega no limbo entre a profundidade da reflexão existencial e a calorosa sensualidade da música romântica, embalado por uma estética tão cosmopolita quanto nostálgica que encontra referências no italo-disco, na city pop e até no jazz de fusão. xtinto e João Chaves são os únicos dois convidados do sucessor de Inter-Missão (2018), que foi produzido pelo próprio Mike El Nite em colaboração com Baco.
[Dengaz] O Que Não Se Vê É Eterno
A entrada na casa dos 40 trouxe a Dengaz não apenas mais maturidade, mas também uma vontade imensa de começar a preocupar-se mais consigo do que com os outros. “Estou na fase de fazer a música que me apetece ouvir. Estou mais livre.” Foi esta a headline da sua recente entrevista ao Notícias ao Minuto, frases que espelham bem esse sentimento de fazer as coisas por amor ao que gosta e não para garantir o amor daqueles que o seguem desde as primeiras rimas. Na verdade, o ADN da sua escrita pouco ou nada mudou, mas a musicalidade flui como nunca fluiu em discos anteriores e é essa a principal arma de O Que Não Se Vê É Eterno, um trabalho esculpido com muita minúcia e com a participação de alguns convidados cirúrgicos, como Agir, Plutonio, Yang ou MALLINA.
[SUAV] OURO
OURO (Oração ao Universo de Regresso à Origem) é o segundo álbum de SUAV e constitui uma carta de amor e saudade concebida a partir da diáspora portuguesa na Austrália através de 17 faixas. O sucessor de Sujooo (2025) é ainda mais auto-biográfico e transpira a Portugal, através de letras tingidas de café, cigarros e suor e uma musicalidade que procura estabelecer pontos com as linguagens do R&B contemporâneo, da neo-soul e do rap tuga, apostando em swings que facilmente convidam o corpo ao movimento.