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Fotografia: Vera Marmelo

O grupo nortenho apresentou o seu mais recente disco em Lisboa.

Sensible Soccers na Culturgest: uma nova vida para uma banda em expansão

Fotografia: Vera Marmelo

A apresentação de Aurora, o mais recente álbum dos Sensible Soccers, aconteceu ontem, dia 3 de Abril, no Grande Auditório da Culturgest. Felizmente, o derby lisboeta não chegou para retirar ao grupo aquilo que merecia: uma sala cheia. Manuel Justo bem perguntou antes do encore, visivelmente grato pela quantidade de gente que via: “vocês são todos primos?”

Embora o novo disco seja bastante mais dançável, a sala “obrigava” a que assistíssemos sentados ao concerto. No entanto, a escolha foi a acertada: o auditório da Culturgest é dotado de um vistoso palco, que se torna ainda mais apelativo através dos jogos de luzes, do ecrã, e de um afinadíssimo sistema de som, que elevou a experiência de ouvir ao vivo Aurora, principalmente para os que, tal como nós, imaginavam como soaria este álbum fora dos auscultadores, em alto e bom som.

A ausência de Filipe Azevedo merece menção, tendo em conta que as suas guitarras marcavam, em certa medida, a estética Sensible Soccers. Porém, esta nova formação não deve nada ao passado do grupo. O aumento do número de instrumentistas aponta para uma sonoridade mais exigente, mais complexa e com mais camadas. Mais que isso, a presença de Jorge Carvalho na percussão acentuou o lado mais exótico do universo sónico da banda, sobressaindo dessa forma as síncopas que diferenciam o último projecto de SS do resto da sua obra.

Para terminar este assunto – que o passado já está arrumadíssimo – esta estrutura permite que o baixo de André Simão ganhe novos e interessantíssimos papéis na dianteira melódica das músicas. A partir de um pedal de loop, o músico salta de dar a base dos graves para segurar toda a estrutura instrumental, criando texturas etéreas e melódicas e assumindo-se com uma incrível (e multifacetada) abordagem ao seu instrumento.

Sérgio Freitas vem ajudar à complexificação da parte electrónica do grupo, com teclados e sintetizadores, juntando-se a Manuel Justo e a Hugo Gomes na composição das camas harmónicas que marcam os vários momentos da discografia de Sensible Soccers. Foram até às Fornelo Tapes, Vol.1 para tocar a lenta “Eurobonds” – uma das poucas faixas com voz – e passaram ainda por Villa Soledade, além de, como é óbvio, o já mencionado Aurora. Em entrevista com Pedro Santos, programador da Culturgest, os Sensible Soccers admitiram a ambição de se tornarem cada vez mais “numa banda live, espontânea”.

Envoltos numa paisagem enevoada e ambient, o quinteto surgiu em palco com “Import export”. A introdução harmónica ganhou dimensão com a entrada dos graves nos sintetizadores, e expandiu-se por completo com a percussão e o baixo a darem vida a esta esplêndida aurora. Depois da quase dub “Eurobonds”, “Como Quem Pinta” regressou ao novo trabalho. Ao longo do concerto, os músicos foram trazendo algumas adaptações das faixas, remodelando alguns pormenores estruturais. Foi mais notório em “Elias katana”: a faixa mereceu uma longa e adaptada introdução. “Villa Soledade” ainda se ouviu, e foi muito bem-vinda, diga-se.

O disco funciona bem ao vivo, sendo constituido por momentos mais cantáveis e animados como “Chavitas” e “Luziamar”, que habitam harmoniosamente o mesmo espaço que outras mais exploratórias como “Um casal amigo” ou “Fenómeno de refracção”.

A exploração tímbrica e o progressivo adicionar e retirar das camadas destas músicas são grande parte da desenvoltura emocional e sensível destes Soccers. Ontem, a banda percorreu diferentes universos, sempre com um desenvolvimento progressivo, encadeando temas, melodias e sons, compasso a compasso. A exploração, uma parte imprescindível do ADN dos nortenhos, continua a acentuar a expansão (interna e externa) de um dos grupos mais dotados da nossa praça.


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