Scúru Fitchádu sobre “Simentera d’homis”: “Significa a urgência em encontrar e dar enfoque a homens e mulheres que realmente sirvam de modelos para o próximo”

[FOTO] Vera Marmelo

“Simentera d’homis” é o segundo single do próximo álbum de Scúru Fitchádu. O tema sucede a “Sorrizu Margôs“, o primeiro avanço de Un Kuza Runhu, o seu primeiro longa-duração.

Este Verão, a agenda preenchida de Scúru Fitchádu levou-o a festivais como Milhões de Festa, ZigurFest, Avante, Iminente, FMM Sines ou Soundville. Com uma abordagem singular que o torna caso único no universo português, Marcus Veiga mistura funaná, metal, drum’n’bass ou punk e choca de frente com todas as pré-concepções. Após a estranheza inicial, a sua música tem conquistado muitos fãs. “É muito gratificante ter esse amor e essencialmente perceber que se causa um efeito a quem assiste de perto a esta coisa”, revelou em conversa com o Rimas e Batidas.

O vídeo, que foi realizado por João Garrinhas, “um irmão de luta”, complementa a canção através de imagens sombrias e misteriosas que alimentam a “sujidade” sónica de Scúru. Carreguem no play, mas com cautela.

 



Fala-nos um pouco sobre o título da faixa: o que é esta “Simentera d’homis”?

“Simentera d’homis” significa literalmente “sementeira de homens” em crioulo cabo-verdiano. Significa a urgência em encontrar e dar enfoque a homens e mulheres que realmente sirvam de modelos para o próximo e para as gerações perante toda a conjuntura “fast food” de mentalidades que existem de momento. Dar sim enfoque ao trabalho árduo, ao faz tu mesmo, à luta diária por um bem maior e que transcende o dinheiro ou as atenções ego centradas de exemplos “Dumbing down”.

O populismo ignorante que estamos a viver é muito preocupante. Temos que valorizar exemplos de cidadãos que ainda trazem alguma esperança e é neste conceito base que assento este tema: “Simentera d’homis ki n-tra nha tchapé” [“Sementeira de homens a quem eu tiro o meu chapéu”].

Há que valorizar, apoiar e tirar o chapéu aos irmãos e irmãs na luta, que têm os tomates no sítio! Como o sério caso do LBC Souljah e o Kromo di Ghetto, que, mesmo sabendo que estão marcados para sempre e serão obrigados a ter olhos constantes na retaguarda quando caminharem na rua por denunciarem a selvajaria policial de agressão gratuita e abuso de autoridade a que foram sujeitos na esquadra de Alfragide, lutam diariamente num penoso e moroso processo judicial contra um sistema racista e que dá logo numa primeira instância primazia à versão da vara de 18 polícias envolvidos. É termos lutadores e lutadoras na frente como a Plataforma Guetto, a SOS Racismo, a Femafro ou a Inmune. Que esta luta seja um exemplo de que não deveremos ficar simplesmente sentados a fazer likes em publicações. A luta tem de ser feita em todas as frentes, garantidamente! Este mundo não caminha para melhor mas resignarmos-nos à inércia é um fail de todo o tamanho. Temos de incutir às próximas gerações que existe mais do que nos mostram ou impõem. Cool e real é andar informado. Vamos substituir esses termos da moda e de pertença ignorante “vida loka” ou o estúpido “é noiz” por “trabalho árduo” .”Faz tu mesmo”, “levanta-te e corre atrás”…
“Pa du abri odju… pa djobê caminhu” [Para abrirmos os olhos e seguirmos em frente/caminho].

Mais drum’n’bass neste segundo single do disco: como é que este género musical aparece na equação?

O primeiro single tinha contornos mais “metal”. Venho aqui lançar este novo single com esta sonoridade quase como um statement. Drum’n’bass, ou a bass music em geral, na verdade, é uma das fontes que mais bebo no processo de criação, querendo com isto deixar passar a sublinhado que a paleta de Scúru Fitchádu é mais que o que têm apontado. “Aquilo é tipo funaná com metal e com não sei o quê”… Na verdade, isto não tem uma gaveta, adoro não saber bem o que isto é, adoro ouvir as teorias de que isto possa ser. É ter esta facilidade e liberdade para não ser nada e ser tudo. É subir a palco e ter as várias tribos urbanas a rockarem comigo esta merda como se não houvesse amanhã. É música de combate e de purga.

O vídeo complementa a canção na perfeição. Como é que chegaram a este resultado?

Tenho um irmão de luta (Garras da Outros Ângulos) cuja visão e atitude activista encaixa na perfeição no que quero sempre transmitir com cada música de Scúru Fitchádu. Já trabalhou comigo no single anterior e é quase um elemento não visível disto, cujo input faz-se em transformar as temáticas dos meus temas em imagem. O gajo compreende a minha visão e direcção na perfeição e propõe ideias, pormenores que só alguém que está inteirado das actuais lutas e urgentes prioridades sociais a avançar. Não poderia dar isto simplesmente a alguém que apenas fosse um “gajo muita bom e hipster do vídeo” aí da praça, há que haver uma concordância, sintonia de ideias e acima de tudo militância! Recuso-me a trabalhar com mercenários e money driven… tem de haver um pacto um brother in arms. A destacar a presença do meu outro grande irmão Lulas (Cachupa Psicadélica) que se prontificou com o meu convite para figurar neste vídeo.

Sempre tive um sentido mais apurado para o sombrio e mistério, para o agridoce, para o estranho. Aquela típica imagem cinematográfica das ruas de Nova Iorque no Inverno, com figuras/mendigos a aquecerem-se à volta de um barril aceso, a cantarem o blues, a chorarem as mágoas, a contarem histórias sempre me intrigou. O que cantam eles? Sobre o que cantam eles? O que transmitem uns aos outros quando tudo nos seus passados e vivências falhou? Foi esta a questão que tentei emular neste vídeo. Falhei na minha vida, mas sei onde falhei e porque falhei…

Andaste bastante na estrada durante estes últimos meses. As reacções das pessoas têm-te surpreendido?

É verdade, tenho tido essa “sorte” de espalhar este veneno com alguma regularidade este ano pelo país. Sinto que a cada concerto há pessoas que descobrem isto, mas ainda há muito a ser feito! Por norma, 90% das plateias e de alguns promotores desconhece por completo Scúru Fitchádu. É a minha primordial função “pisar rijo no meu chão” para que os mesmos cheguem a casa, sabendo o que isto é, quem sou e que acima de tudo percebam o que estou a fazer.

É maravilhoso estares inserido em grandes cartazes de festivais de musica indie e teres pessoas que te confessam que fizeram muitos quilómetros de A a B só para ver Scúru nesse festival. É muito gratificante ter esse amor e essencialmente perceber que se causa um efeito a quem assiste de perto a esta coisa. Estou a colher esses frutos, seja na aceitação por parte de uns, à mudança de opinião e conquista por parte de outros, ao reconhecimento de artistas e colegas de profissão nos diversos hemisférios e degradé sonoro com muitos anos de estrada.

 


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