ZigurFest’18 – Dia 4: a ousadia e o inconformismo de um festival que não facilita

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Vera Marmelo

Depois de três dias de permanente descoberta, o último suspiro da edição deste ano do ZigurFest foi dado com a ajuda de nomes mais próximos do universo Rimas e Batidas. As descidas e subidas pelas ruas de Lamego não poderiam ter encaixado melhor nos desvarios sónicos criados pelos músicos que acederam ao convite do festival e trouxeram as peças mais fascinantes da música portuguesa para o festival.

Os Paisiel foram o aquecimento necessário para um dia que se prolongaria até altas horas da noite. Reza a lenda (que pode ter sido inventada de propósito para encaixar neste texto) que o cosmos conspirou para juntar estes dois viajantes do tempo e do espaço e armou-os com uma bateria e um saxofone (que veio acompanhado da electrónica necessária para alterar o som orgânico do instrumento). Nesta altura do campeonato, já estávamos mais que habituados a um público de mente aberta, que, na Rua da Olaria, ia bamboleando o corpo entre os ritmos mecânicos de João Pais Filipe e os devaneios transcendentais  de Julius Gabriel. A excepção foi o casal que vive mesmo ao lado do Palco Olaria e que parecia meio aborrecido com todo aquele aparato. Não se pode agradar a gregos e troianos ou pelo menos a todos os habitantes de Lamego. Cá em baixo, a dupla vociferou o inexplicável e mostrou-nos que a música é a força-motriz que continua a unir passado, presente e futuro.

 



Antes de voltarmos ao Palco Alameda para a estocada final, Bardino e O Carro de Fogo de Sei Miguel protagonizaram duas prestações distintas, mas igualmente recompensadoras no Teatro Ribeiro Conceição. A jogar em “casa” — lançou um EP pela ZigurArtists –, o colectivo nortenho apresentou a sua sonoridade musculada com rock progressivo, jazz e funk metidos à mistura. Nuno Fulgêncio, baterista e porta-voz da banda, revelou, numa das paragens entre músicas, que o quarteto tinha marcado presença na edição de 2017 e que, na altura, expressara o desejo de actuar naquela sala, um dos pontos-fortes do roteiro ZigurFest. Desejo cumprido e missão concluída.

Altamente comprometido com a sua visão do que é a música, Sei Miguel, figura que aparenta uma enganadora fragilidade, guiou sete músicos com o trompete de bolso como batuta. Com o decorrer do tempo, a sala foi-se esvaziando — o 2º balcão começou (quase) cheio e acabou praticamente desabitado –, mas nada disso maculou a actuação do octeto composto por Bruno Silva, Pedro Lourenço, André Gonçalves, Raphael Soares, Nuno Torres, Fala Mariam, Luís Desirat e o seu “condutor”. Como é costume neste tipo de eventos — gratuitos –, existe sempre a possibilidade da vontade do público não ir ao encontro do que é mais desafiante e que exige tempo e paciência. Ver para crer é a melhor solução, mas, à falta de melhores palavras, recorremos às de Vítor Rua:

“Escutar a música de Sei Miguel é como observarmos as nuvens no céu: viramos a cabeça para o céu, olhamos as nuvens e baixamos a cabeça e quando depois olhamos de novo, passados uns tempos, parece-nos tudo igual: as nuvens parecem não se ter movido. Mas a realidade é outra. Embora nos pareçam  iguais,  as  nuvens  são  diferentes. O mesmo se passa com a música de Sei Miguel: se ouvirmos ‘desatentamente’ a sua música, parece-nos — muitas das vezes –, que os seus intérpretes se limitam a ‘repetir’ as mesmas frases, eternamente, mas se escutarmos atentamente, observamos que, tal como as nuvens, as frases musicais são ‘repetidas’ de forma ‘irregular’ e  ‘caótica’, com ‘rugosidades’ e ‘assimetrias’.”

Não subíamos até ao Parque Isidoro Guedes desde quinta-feira e o regresso fez-se com Allen Halloween e a sua crew. Nome incontornável da música nacional, o nome do rapper e produtor levou uma quantidade considerável de gente para a frente do palco na sua primeira vez em Lamego. Na plateia, dB e membros dos Vaiapraia e as Rainhas do Baile, d’O Carro de Fogo de Sei Miguel e de Sereias assistiam atentamente ao que se passava no palco, muitos deles a tentar perceber o que move um fenómeno tão particular que, desta vez, juntou gunas, hipsters e até betos no mesmo sítio.

“Drunfos”, “Zé Maluco”, “Mary Bu” ou “Youth” foram pontos altos de um alinhamento curto e grosso. Numa das suas intervenções entre canções, o autor de Híbrido gozou com os “exercícios aeróbicos” que fazem parte do concerto standard de rap. “Cada um com o seu circo”, rematou. Entre gritos à Kurt Cobain, uma entrega idiossincrática e solos invulgares de “guitarra” com uma MPD, Halloween, o nome mais sonante do cartaz, deixou claro que é o ex-libris do rap mais punk que existe em Portugal.

 



Confortavelmente sentados para ver Scúru Fitchádu, a ideia, mais do que perceber o que acontecia em cima do palco — não foi a primeira nem a segunda vez que o vimos –, foi entender o que passava pela cabeça dos “treinadores de bancada”. Durante toda a tareia sónica, ouvimos e vimos de tudo, tornando-se óbvio que a estranheza da sonoridade leva a que muitos rejeitem inicialmente, mas, minutos depois, são esses que dançam como se não houvesse amanhã e que vaticinam que existe ali algo que merece ser valorizado. Existe, sim senhor.

Junto ao palco é que não existiram dúvidas: a loucura instalou-se no que terá sido um dos concertos mais enérgicos do ZigurFest 2018, tendo até direito a crowdsurfing de vários membros da audiência e do próprio músico. No fim, todos pareciam rendidos a esta cacofonia infernal que utiliza elementos do funaná, metal, punk e rap. E aquela t-shirt dos Mão Morta caiu ali tão bem…

Agradado com o que estava a acontecer à sua frente, Marcus Veiga, a mente que engendrou este projecto inovador, disse, a certa altura, aquilo que todos estavam a pensar desde quarta-feira: “Vocês têm um p*** de festival aqui”. Não há como negá-lo.