Sam The Kid: o pequeno gigante, 10 anos depois

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Ricardo Miguel Vieira

TV Chelas é o novo projecto de Sam The Kid que tem virado a Internet do avesso – Ricardo Farinha explicou na perfeição o porquê neste ensaio – e a actualização de conteúdos tem sido constante: novo single e entrevista com Boss AC e imagens de arquivo de GQ. As pérolas vão saindo de forma rápida, tal como a era digital exige, e é certo que existem muitos nerds do rap nacional a fazer um constante refresh no site do projecto. 

O ReB foi ao arquivo e recuperou uma entrevista de Rui Miguel Abreu a Sam The Kid aquando do lançamento de Pratica(mente), um álbum que se elevaria como um dos melhores álbuns de sempre do hip hop português e o seu último trabalho a solo. Já conta 10 anos e continua a aguardar sucessor. Esta entrevista foi publicada originalmente na revista Blitz, em 2006.

 


[O PEQUENO GIGANTE]

Quatro anos depois do aclamado Beats Vol. 1: Amor, o opus de instrumentais que esteve na base de um generalizado aplauso, Sam The Kid regressa com Pratica(mente), o seu quarto álbum e de certeza o mais ambicioso disco de uma carreira que já gerou uma longa e complexa história que agora se conta aqui.

“Sou um bocado inseguro”, explica Sam The Kid. Esta frase faria sentido se proferida por qualquer outro artista, mas não parece encaixar-se no perfil público de Samuel Mira, o miúdo de Chelas que há quatro anos obrigou todas as atenções a voltarem-se para dentro do então ainda imberbe mundo do hip hop tuga. Sam The Kid hoje já não é um miúdo, mas um homem de convicções profundas que se prepara para editar o quarto álbum de uma carreira que só tem conhecido sentido ascendente. Estreou-se aos 20 anos, em 1999, com o disco de produção caseira Entre(tanto), elevou a fasquia do rap nacional com Sobre(tudo), tocou fundo no sentido musical nacional com a banda sonora para o romance entre os seus pais – Beats Vol. 1: Amor – e agora prepara-se para nos dar a conhecer “Pratica(mente)”. A pausa foi longa – quatro anos – mas serviu para burilar o estilo, as palavras e a música. Serviu também para tratar um problema de garganta (ver caixa) e solidificar amizades. Serviu para manter os pés assentes na terra e para se concentrar. O resultado está à vista.

A insegurança que Sam The Kid refere tantas vezes pode na verdade ser encarada como perfeccionismo. E mais do que o episódio da operação à garganta, é esse carácter perfeccionista que deverá ser responsabilizado pela longa pausa na carreira de Sam The Kid. “Eu comecei a trabalhar neste disco logo a seguir ao meu álbum anterior”, explica. “Eu envolvo-me é muito com as coisas, custa-me deixar os temas e achar que estão terminados. Os engenheiros de som com quem tenho trabalhado quase que nem acreditam que o álbum vai sair, porque sempre que eu chegava ao estúdio levava um novo sample, ou um beat completamente diferente para experimentar num tema já gravado.” E a verdade é que a dois dias de entregar o master na editora, Samuel ainda estava imerso em trabalho no estúdio: “e se tivesse mais tempo ainda haveria de acrescentar mais detalhes, mais elementos de ligação entre os temas, mais uns samples de voz,” assume ele, de forma perfeitamente desarmante. Sam é brutalmente honesto a todos os níveis. Quer quando fala da sua veia apolítica – como retratada no tema “Abstenção” – quer quando explica os seus sentimentos em relação a outros músicos nacionais. “Eu adoro pesquisar música portuguesa antiga e isso ensinou-me a respeitar todos os músicos. Até o Marco Paulo. É preciso haver todos os sabores de música”, sublinha. É provavelmente esta franqueza que lhe tem valido amizades improváveis que se adivinham quando o seu discurso vai sendo polvilhado com nomes como Carlos do Carmo, Paulo de Carvalho, Zé Pedro ou Rui Veloso. “Tenho tido a sorte de ir conhecendo artistas que admiro e dar-me bem com eles,” confessa Sam. “Aqui há uns tempos ligou-me o Fernando Girão. Tenho coisas dele a solo e nos Very Nice que são fantásticas. Quando ele me ligou pensei que fosse para me convidar para alguma cena, mas foi mesmo só para estarmos lá em casa a conversar e a ouvir música um do outro.” Mas há “cromos” que ainda faltam na caderneta de troféus de Sam The Kid: “Conheci o filho do Fernando Tordo no Bairro Alto e pedi-lhe para ele dizer ao pai que eu o admiro muito. Também ainda não conheci o Carlos Mendes… ou o Sérgio Godinho. Faltam-me ainda alguns…”

 


 

[CABEÇA NO LUGAR]

A notoriedade alcançada por mérito próprio já proporcionou a Sam The Kid oportunidades com que muitos podem apenas sonhar. Hoje sabe-se que ter um single na banda sonora de uma novela juvenil é um passaporte seguro para o sucesso, mas Sam recusou já muito mais do que isso – nomeadamente a possibilidade de ingressar como actor no elenco de uma dessas séries. E os convites não têm parado de surgir: “Uma das coisas que mais me custou”, revela o MC, “foi ter que dizer que não ao Rui Veloso. Eu e o Boss AC fomos a casa dele e ele apresentou-nos uma música com uma cadência que não nos servia muito. Estava lá o Luís Jardim que até nos tratou como se fôssemos burros e não percebêssemos de música. Acabou por não dar na primeira música pensada e foi-nos sugerida uma alternativa só que o Carlos Tê não achou boa ideia…E eu também acho que não se deve forçar nada – se é para estragar a música não vale a pena.”

Houve ideias ainda mais incríveis. Depois de ter usado a voz de Carlos do Carmo no tema “Viva!” com que contribuiu para a compilação de homenagem a Carlos Paredes, “Movimentos Perpétuos”, chegou a colocar-se a hipótese de Sam The Kid produzir um álbum inteiro para Carlos do Carmo: “Ele adorou o tema e houve um encontro com a Paula Homem em que se chegou a falar da hipótese de eu fazer um álbum para o Carlos do Carmo. E todos incentivaram, até ele, mas eu tive mesmo que lhe dizer: ‘o senhor tem que compreender que eu não sei onde me vou meter.’ Eu não sou de me atirar de cabeça.” E não é mesmo. Tino Navarro, por exemplo, propôs a Sam The Kid – depois de visionar algumas das cassetes de vídeo que o rapper criava em Chelas – nada mais, nada menos do que um filme. Não como actor, não como argumentista, mas mesmo como realizador! E claro, incontáveis foram igualmente as propostas que chegaram do mundo da publicidade. “Eu fico lisonjeado com estas coisas, como é óbvio, mas gosto de ir com calma: telefonaram-me da Casa da Música a propor-me um concerto inteiro de homenagem ao Zeca Afonso. Achei boa ideia, mas acho que é coisa para acontecer em torno de uma compilação, por exemplo.” A arte de Sam precisa de tempo: “Não gostei muito do resultado do meu trabalho no filme O Crime do Padre Amaro. Gostava de ter feito as coisas mais sincronizadas, com mais calma. O resultado final foi bom, mas com tempo é que as coisas ficam mesmo boas.”

No centro de todas estas propostas encontrou-se sempre o talento de Sam The Kid e o seu potencial como trunfo na indústria discográfica. Praticamente todas as editoras com departamento nacional colocaram a dada altura a hipótese de ter Sam The Kid no seu catálogo. E o namoro mais intenso veio do lado das líderes de mercado. “É verdade que a dada altura estive tentado a assinar por uma major, mas o Peter da Edel foi sincero e disse-me que não queria ser colocado de fora das possibilidades,” revela o MC. “Eu fui-lhe dizendo o que queria para este álbum e ele correspondeu com tudo. Eu queria ser mimado e ele encaixou todas as minhas exigências.” No entanto, Samuel não atribui a barragem de propostas que recebeu exclusivamente ao seu talento, mas ao “timing”: “Felizmente as editoras já perceberam que andam aí outros MCs e hoje uma EMI já está aberta a assinar o Xeg ou o Tekilla ou o NBC.” O presente momento da cultura hip hop é por isso mesmo descrito por Sam como “bonito”: “está mesmo fixe agora – SP & Wilson estão a ter algum sucesso, faz-se outro tipo de hip hop e até os media estão acordados para novas possibilidades.”

 


[POSTERIDADE]

O universo musical de Sam The Kid – aquele em que ele se move para angariar ideias, referências e até samples – é muito particular e algo atípico, tendo em conta a geração em que se insere. E nesse campo as suas ideias estão muito definidas: “falávamos há pouco no Zeca Afonso. Para dizer a verdade, o Zeca nem sequer é o meu ‘nigga’. Claro que já o samplei, tenho muitos discos dele, mas não é muito variado em termos da sonoridade dos instrumentos.” Mas, afinal, quem é mesmo o ‘nigga’ de Sam the Kid? “Na vertente orquestrada, o Carlos do Carmo é um dos meus ‘niggas’. Muito mais do que no fado. Esses sons orquestrados e cheios de drama é que me matam. Adoro o Paulo de Carvalho… O Blackground dos Duo Ouro Negro, adoro.” E em termos poéticos? “Ary dos Santos. Esse é mesmo o meu ‘nigga’,” revela Sam The Kid, visivelmente entusiasmado. “Ele escrevia e recitava de uma forma muito própria. Uma das coisas que sempre me fascinou na poesia são as intrigas, as tramas que andam lá pelo meio e que não são só A-B, A-B. E ele tem essas cenas, isso está tudo lá.” No entanto, nem quando explica porque sente Ary dos Santos como um dos seus heróis – um dos seus ‘niggas’ – Sam finge ser o que não é: “no outro dia na rádio o Valete falava sobre os hábitos de leitura. Eu tenho que confessar que não leio livros, talvez por dificuldade de concentração, não leio. É verdade que leio revistas – e alguns trabalhos de jornalismo também têm a sua arte – mas muitas dessas revistas são revistas de merda.”

Fernando Pessoa disse que o poeta é um fingidor, mas de facto Sam The Kid não sabe fingir e por isso mesmo insere-se noutra categoria de artista para quem a realidade é um valor superior. Só isso explica que para um dos clips que preparou de promoção a Pratica(mente) tenha levado toda a sua mobília para um estúdio para recriar o seu quarto: “Podíamos lá ter metido outra mobília qualquer, afinal são poucas as pessoas que sabem mesmo como é o meu quarto, mas isso para mim não iria bater certo.” Nem nos pequenos interlúdios do seu novo álbum Sam facilita: “A dada altura senti necessidade de usar a voz de um vizinho, que era o Marco, só que ele foi para fora e eu andei meses à espera dele – tive que gravar com um sobrinho dele, que é a coisa mais próxima.” E depois há os pormenores – de primeira grandeza para o próprio Sam: “pronto, há certas incorrecções no disco – digo por exemplo numa música que não tenho computador, mas o meu pai ofereceu-me um aqui há uns dias… mas pronto, não está ligado à net ainda.”

Esta honestidade afastou Sam dos palcos durante imenso tempo – “não tinha nada de novo para mostrar” – e agora volta a vir ao de cima no momento de planear o futuro: “eu sei que tenho que ter um bom espectáculo se quiser vir a ser respeitado. Quero ser criativo em cima do palco. Não quero simplesmente mandar as pessoas colocarem os braços no ar… quero dar mesmo um espectáculo que deixe as pessoas a dizerem ‘é pá, o Samuel está com um concerto do cara***!’”

Para Sam The Kid, o futuro do hip hop em Portugal depende de uma série de factores, como a criatividade nos concertos e, muito importante, “depende também da capacidade de se fazer música pelas razões certas – é preciso respirar hip hop a todas as horas. Isto não é uma arte que precise de ti só às sextas-feiras.” E no mesmo momento em que o MC e produtor reconhece a boa forma do hip hop que se produz dentro de portas, não hesita em apontar o dedo a uma certa estagnação vinda da cena americana: “acho que foi nos prémios MTV que vi o Lou Reed a pedir para se passar mais rock. Neste momento o rock é o underdog, mas vai dominar. Nova Iorque não está a bater e está desesperadamente a tentar recuperar a aura – é só hinos agora a dizerem ‘New York, New York’.” Quem é que afinal vai salvar o hip hop: “eu acho que vai ser o Dr Dre, ele é que tem capacidade para mudar sonicamente as cenas.” Quanto a Portugal, Pratica(mente) não restam dúvidas…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu
1 Discussion on “Sam The Kid: o pequeno gigante, 10 anos depois”