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SALEM de regresso ao activo

A revista Fact noticiou, citando um post no Instagram, o eminente regresso dos norte-americanos SALEM, expoentes do micro-género Witch House que em 2010 editaram o influente álbum King Night, solitário registo de longa duração na sua discografia.

 


SALEM’s John Holland and Jack Donoghue just sent through ‘Make It Up As You Go Along (SALEM Remix)’ The first piece of music they release in over five years. – They did the remix in Montegut, Louisiana this month, where they lived for the last year and where I took this photograph in May when visiting them. As expected the mix is super dense, highly abstracted from the original, and has an irresistible magic and pull. John and Jack were working on a new album there, and are completing it in Los Angeles, where they live now. Salem are back. Full Louisiana pictures when album comes out. Label tbc. – ‘Make It Up As You Go Along (SALEM Remix)’ will be on Wolfgang Tillmans ‘Device Control EP’ together with more tracks and remixes tbc soon. Release date September 16. Fragile003 distributed through www.wordandsound.net The original mix is on Spotify, Traxsource, Beatport, iTunes, and others as well as 12” vinyl out now. Video is on Youtube and Vimeo. #salem #jackdonoghue #johnholland #fragile #makeitupasyougoalong #wordandsound #wolfgangtillmans #devicecontrol

A photo posted by Wolfgang Tillmans (@wolfgang_tillmans) on


 

A novidade foi avançada por Wolfgang Tillmans, fotógrafo e músico alemão que editou recentemente o EP 2016 / 1986 onde se inclui a faixa “Make It Up as You Go Along” que agora foi alvo de uma remistura de Jack Donoghue e John Holland, o duo de produtores que, juntamente com Heather Marlatt, compõe os SALEM. A notícia é digna de relevo porque essa remistura corresponde ao primeiro trabalho que o duo assina como SALEM desde a edição de I’m Still In The Night, ep de 2011 onde se incluía a extraordinária versão de “Better Off Alone”, o clássico “euro dance” de Alice Deejay.

 



A dupla Donoghue / Holland foi ainda creditada como parte da equipa de produção de “Black Skinhead” de Kanye West, em 2013, e desde então total silêncio. Mas de acordo com o post de Tillmans, o duo tem estado em reclusão no Louisiana a trabalhar num sucessor para King Night: “Tal como esperado”, escreve Tillmans, “a mix é super densa e bastante mais abstracta do que o original e tem uma atracção mágica”. Tillmans prossegue: “O John e O Jack têm estado a trabalhar num novo álbum e vão completá-lo em Los Angeles, onde vivem agora. Os SALEM estão de volta”. Tillmans dá ainda a aentender que as suas fotos farão parte do artwork do futuro trabalho dos SALEM. A remistura do duo para “Make It Up As You Go Along”, entretanto, será editada em Setembro próximo no EP de Wolfgang Tillmans Device Control, a ser editado pela Fragile.

 



Excerto de um artigo de Rui Miguel Abreu sobre Witch House e os Master Suspiria Vision onde se mencionam igualmente os Salem de King Nightpublicado originalmente em 2011 na revista digital Arte Capital)

Sob a designação de Witch House – ou Drag – agruparam-se uma série de projectos que pareciam sobretudo interessados em explorar essa dimensão emocional e psíquica da música, reorganizando algumas coordenadas subterrâneas do hip hop de recente memória, sobretudo a escola de DJ Screw, mestre da cena screwed & chopped. Screw morreu em 2000, vítima do abuso de xarope para a tosse. Os opiáceos presentes nessa substância ajudam, provavelmente, a justificar a técnica de produção que Screw aprimorou no Texas, criando uma cena particular: beats lentos e arrastados, vozes com o pitch desacelerado, atmosfera alucinatória…

Uma década depois do desaparecimento de Screw, uma nova geração adopta essa mesma vertigem pelos beats de progressão lenta, encharcando a música que cria em autênticos oceanos de reverb e eco, forçando a descolagem da realidade através de um total desrespeito pelas regras da fidelidade sonora – esta música é suja, carregada de ruído, distorcida. Não é nada fácil encontrar esta música cujos métodos de distribuição desafiam as ortodoxias da indústria, mesmo a mais alternativa: vídeos estranhos no YouTube com colagens efectuadas a partir de títulos obscuros da dimensão já esquecida do VHS, cassetes de circulação absurdamente limitada, nomes impossíveis de googlar – alguns recorrendo a símbolos impronunciáveis. Como um culto, parece que esta «cena» se quer manter secreta.

Os Salem de King Night são a mais óbvia referência desta cena que na idade da internet não possui um foco geográfico definido. O álbum de estreia deste projecto, lançado na recta final de 2010, condensava as pistas do som screwed & chopped, um certo fascínio pelo R&B de brilho mais digital e acrescentava-lhes oceanos de sintetizadores sempre à beira da distorção, criando, em câmara lenta, sequências de poderosíssima carga emocional. O som de pesadelos saturados com milhões de frames retirados ao assalto constante de que somos alvo – na rua, na tv, nos ecrãs dos nossos computadores e smartphones.

Na verdade, a «cena» Witch House surge num momento particular da história e liga-se a uma série de outros subgéneros e artistas e editoras – como a hauntologia ou as incríveis e densas viagens nas margens do dubstep e do techno conduzidas pelos Demdike Stare ou pelos Raime da Blackest Ever Black ou ainda pelo mergulho nos drones conduzido por projectos assombrados como Black Mountain Transmitter. Se juntarmos ainda a este quadro a influência mais visível do que nunca das marcas aurais exploradas por John Carpenter nas bandas sonoras dos seus filmes ou pelos italianos Goblin nos «slash flicks» de Dario Argento – influência essa reclamada por gente como Steve Moore dos Zombi (cujo projecto paralelo Gianni Rossi cria bandas sonoras para filmes imaginários) ou pelos Ensemble Economique da Not Not Fun (editora cuja visão particular de psicadelismo é também informada pelas experiências de desaceleração da realidade enunciadas por DJ Screw) – começa-se a obter uma imagem da electrónica contemporânea carregada de negro.

Será esta a banda sonora de um planeta à beira do colapso político, económico, ecológico, religioso e moral? A cena Witch House e as edições podem funcionar numa escala microscópica, mas a verdade é que toda esta música parece traduzir um momento menos luminoso da história da humanidade. E talvez em nenhum desses projectos, a negritude e as sombras sejam tão densas como nos misteriosos Mater Suspiria Vision. A Wire de Janeiro descrevia-os como um colectivo norte-americano com «uma predilecção especial pelo cinemático»: «Enquanto as faixas arrastadas e desaceleradas dos MSV trincam no queijo bolorento das últimas três décadas, os seus vídeos colocados no VIMEO rebolam nos arrepios decadentes do horror dos anos 60 e 70», escrevia Joseph Stannard num artigo em que a Wire reconhecia o horror como uma das forças criativas da música em 2010.

 


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