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Fotografia: Direitos Reservados

Sentados à mesa (digital) com a artista espanhola.

Rosalía: “Sou contra álbuns que são apenas colecções de singles

Fotografia: Direitos Reservados

“É difícil conseguir ter todo o tempo de que preciso. Ser música requer muitas horas de estúdio. Mas, por vezes, tenho que fazer isto que estamos a fazer agora… conversar convosco.”

Vindos de toda a Europa, os jornalistas reunidos com Rosalía numa chamada de Zoom esperavam uma conferência de imprensa, onde o Rimas e Batidas marcou presença. Podem ter saído com a ideia de que são, afinal, sanguessugas do tempo da superestrela catalã – uma sugestão sem sombra de maldade, até porque faz parte do trabalho. Afinal, se lidar com os media é uma competência exigida ao artista mais noviço, que esperar da cantaora que voltou a agigantar o flamenco à escala mundial, como pilar numa pop inflamada, proclamada em espanhol, e de elevado conceito?

Após El Mal Querer, um dos álbuns mais ambiciosos dos últimos anos, Rosalía – que se encontra agora na cidade norte-americana de Miami – carrila desde 2019 uma série de êxitos que arrancou com a canção do verão passado, “Con Altura” (dueto com J Balvin). Culmina, para já, em “TKN”, uma colaboração com Travis Scott – por quem, curiosamente, a conversa não passou. Como é natural para quem vislumbra uma estrela cadente, todo o interesse está nos movimentos iminentes do astro.

Assim o fez o Rimas e Batidas, com honras de primeira pergunta: a polinização cruzada com o hip hop é para continuar? “Adoraria trabalhar com o Kanye West, o Frank Ocean, o Kendrick Lamar e o Playboy Carti”, diz, fulgurante, mas com alguma reticência no enquadramento. “Ao mesmo tempo, gostaria de fazer algo com o [sic] Bon Iver, o Brian Eno, o [intérprete cigano de flamenco] Diego El Cigala ou o Caetano Veloso, que é um dos meus favoritos de sempre”. O Brasil há-de voltar em menções à bossa nova de Tom Jobim ou Gilberto Gil, movimento que lhe ensinou, em tempos de faculdade, “muito sobre harmonias e acordes”.

Também o sueco Yung Lean, que afirma tê-la “chocado” com as suas canções, é uma pedra-de-toque para a voz de “Malamente”. Ou ainda Lil’ Kim, Tupac Shakur, Lorna, Daddy Yankee, Bach ou Chopin, um leque aberto em resposta à nossa última questão: consegue ela identificar uma nova geração de artistas espanhóis inspirados por si – tal como em Portugal, Filipe Sambado ou Pedro Mafama assumem a influência de Rosalía? “Aprendi muito com outros músicos e será uma bênção se a minha obra inspirar alguém. Não há [um estilo de] música melhor que outro”. Naturalmente, ao flamenco, Rosalía endereça uma carta de amor. “Eu e a minha música devemos[-lhe] tudo. Qualquer pessoa se pode apaixonar pelo flamenco”, um estilo em que, diz, a idade é valorizada, ao contrário da pop opressivamente jovem.



Outro tópico impreterível: o seu terceiro longa-duração, ainda sem lançamento previsto (“Espero poder lançar algo este ano”). Fã de “discos que têm uma paleta de cores e um tema”, Rosalía regressa a Kanye West, cantando louvores ao novo clássico 808s and Heartbreak (2008), quando um jornalista levanta a hipótese de o seu próximo LP ser uma simples colecção de singles. “Não. Nunca, nunca, nunca! Sou contra essa ideia!”, gargalha. Bastava relembrar Los Ángeles, o áspero disco de estreia, vidrado na morte,  ou a ópera pop medieval de El Mal Querer. Rosalía não trabalha sem densidade conceptual – só brinca fora de serviço.

Aconteceu há pouco tempo. “Costumo imergir na produção e em tudo o que concerne à minha música, mas este era o trabalho da minha amiga Alejandra”. A catalã refere-se a Arca, embaixadora da pop mais experimental e contundente, e ao seu recém-editado disco KiCk i. Depois de chapinhar nas águas rasas do reggaeton, a participação de Rosalía – gravada por Whatsapp – na faixa “KLK” é um mergulho sem máscara. “É o mundo dela. Quis – como se dice, dejar-me ir? – deixar-me levar pelo imaginário dela”. Fala em inglês, tentando algumas vezes uma tradução livre, antes de pedir ajuda a uma presumível assistente. Não há vergonha em aprender – e saúda os fãs que começam a manjar de espanhol graças às suas canções –, um instinto que admite mantê-la humilde. 

“Ser músico é uma profissão como qualquer outra no mundo”, aclara a intérprete de “Aute Cuture”. “Tento acordar cedo, estudar, ficar pelo estúdio tanto quanto possível, continuar a aprender – tal como comecei”. É sempre necessário um objectivo mínimo, como aprender a tocar uma nova canção, “para manter os pés assentes na terra”. No foco da virtuosa Rosalía, não sobra margem para o mercado da auto-ajuda, mas o seu tempo expandiu subitamente. O confinamento permitiu-lhe redescobrir o processo de fazer música como “artesanía”: um artesanato moroso, indulgente, em que o seu toque se combina com o de outros. El Guincho tem sido uma companhia fidedigna, tal como já foram Raül Refree, Frank Dukes ou até Pharrell Williams – quem está a seu lado agora, se é que está alguém, fica no provisório segredo dos deuses pop.

Preocupa-a esticar demasiado a corda da experimentação, pergunta um jornalista, tendo em conta as expectativas dos fãs? Rosalía ri-se docemente ao ler a questão: “Hmmmmm…” – parece procurar as palavras certas para o não. “Um bocadinho, suponho, mas não muito. Tenho que fazer o que tenho que fazer, até às últimas consequências. Não conheço outra forma. Preciso de experimentar. Se não me divertir no estúdio, está morto. Se sentir que estou a conceber algo que não está vivo, não tem cabimento”. E só terá se respeitar a matriz globalista, onde o espanhol se torna cada vez mais língua franca, que também ajudou a revitalizar. “É impressionante pensar que as pessoas estão a ouvir música cantada em coreano”, em menção ao poderio do K-pop. “Há tantas portas abertas para tantos pequenos mundos e nós estamos – como se dice, mas receptivos? – mais receptivos. Celebro isso, de coração.”

Após meia hora de dissecação de um meteoro chamado Rosalía, o debate acomoda as questões de verdadeira fractura. “Não há uma única coisa que não consiga fazer [com as minhas unhas compridas], juro. Só tens que ter cuidado para não te magoares. Não consigo jogar basquetebol devidamente, mas não o faço muito de qualquer maneira. Prefiro futebol.”


* Artigo escrito a partir de declarações de Rosalía durante uma conferência Zoom em que o ReB se fez representar por RMA

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