Rodrigo Brandão na Crew Hassan: a liberdade que a palavra pode ter

[TEXTO] Inês Abreu [FOTOS] Pedro Ivo Carvalho

Depois da sua noite de estreia em Lisboa na Fábrica do Braço de Prata no dia 6 de Novembro, Rodrigo Brandão apresentou-se no passado sábado na Crew Hassan para um espectáculo dramático, sombrio, espiritual e político.

O artista brasileiro veio mostrar o seu primeiro álbum a solo, feito no final de 2018, Outros Barato – isto é, uma outra coisa que não o rap que, até agora, tinha sido a sua principal forma de expressão –, assente no free jazz e no spoken word, essa “palavra falada” que concedeu a Brandão a autonomia criativa que procurava. A improvisação e a liberdade de que falava foram dois dos princípios que regeram a construção do disco de estreia a solo e que foram trazidos por Rodrigo Brandão para o palco do espaço lisboeta.

Diante de uma multidão curiosa e ansiosa para o início do espectáculo, os músicos começam a subir ao palco, cada um ocupando os seus respectivos lugares: Thiago França na percussão e saxofone, Gilherme Granado na percussão e sintetizador e Marcos Gerez no sampler. A música inicia-se ruidosa e Brandão senta-se à mesa, transformando-se de imediato: tira o chapéu de palha e aproxima-se do microfone, debaixo de um candeeiro que lhe ilumina o rosto, pormenor importante porque a emoção também molda as palavras que debita.

Entre as músicas do novo álbum e os poemas declamados, a atmosfera sombria que a própria sala, a banda e a voz grave de Brandão emanavam encontravam-se vários elementos que nos remetiam para uma espécie de Tom Waits tropical. Rodrigo deixou bem claro que há uma mensagem – ou várias – que é urgente transmitir àquela multidão que, como ele bem afirmou enquanto a banda o secundava, nunca cessando a música mesmo durante as interrupções aos poemas e às letras dos temas interpretados do álbum, estava presente, “aqui e agora”. E Rodrigo nunca escondeu o quão importante é esse “aqui e agora que é brincadeira de criança”.

 Brandão passou sempre lições e mensagens — “vocês hoje vieram cá”, “estamos todos aqui juntos” –, sublinhando a importância dessa troca entre o público e o artista, mas também entre todos nós, num dia tão importante como o de 9 de Novembro. O dizeur notou, sabiamente, que “os dias têm personalidade” e que já se repetiram inúmeras vezes: o dia 9 de Novembro foi o mesmo dia em que o muro de Berlim foi derrubado, em que foi lançado o primeiro álbum dos Wu-Tang Clan e o terceiro dos A Tribe Called Quest – nunca esquecendo Brandão a importância do hip hop, a escola de onde veio, e dos  “ancestrais, a quem temos de pedir licença”, usando as deidades do candomblé como algumas das suas principais referências – mas também o dia em que o ex-presidente brasileiro Lula foi libertado. A Lula, Brandão fez uma tocante homenagem durante o concerto, dedicando-lhe um dos temas do seu álbum, “Bebo Tempestade”, e gritando ao microfone “Lula Livre!, Lula Livre!”.

Como um pregador a dar um sermão, Brandão converteu o concerto numa experiência espiritual e performativa, nunca deixando o público fazer o seu papel tradicional de espectador passivo. “Quem é que daqui bebe tempestade?”, perguntou, pedindo à plateia que repetisse depois dele, “Eu sou melhor que ontem, sou pior do que amanhã”. No fim desta interacção, quando todos estavam de pé e de braços levantados, assemelhando-se a energia da sala a uma missa de gospel numa igreja baptista, Rodrigo pediu um último favor ao público: que cumprimentassem aqueles que estavam à sua volta com abraços e beijos.

É difícil descrever o que aconteceu no passado sábado na Crew Hassan: se um transe espiritual, se uma intervenção política, se uma performance ou concerto de free jazz e spoken word, ou todas as anteriores, juntas. Mas uma coisa é certa: foi a palavra – essa poderosa e misteriosa arma — que imperou.


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