Rodrigo Brandão: “Tem gente que sai de casa para fazer música como um comerciante, eu saio como um samurai”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Ivan Shupikov

Rodrigo Brandão chegou à loja da Groovie Records discreto, ficou olhando os discos longamente, antes de se apresentar, com crachá de Angela Davis no peito a deixar claro qual o clube a que pertence: o das mentes livres que lutam por ideais humanos, que acreditam no progresso e na evolução, que não têm dúvidas, como diz ele numa das canções do extraordinário Outros Barato, seu álbum de estreia a solo, que “o futuro é fêmea”.

Rodrigo apresentou-se ao vivo na passada quarta-feira na Fábrica de Braço de Prata e amanhã, sábado, repetirá a dose com concerto na Crew Hassan, em Lisboa (seguido de DJ set do frequente colaborador do Rimas e Batidas Eduardo Morais). Para o palco levará as palavras de espírito livre que enchem o disco que marcou então a sua estreia, resultado de um convite que lhe foi dirigido por Thiago França, um dos maiores agitadores da cena mais inconformada e libertária de São Paulo, membro de, entre outros projectos, Metá Metá.

Produzido por França e Daniel Bozio, Outros Barato conjuga a energia espontânea de uma série de artistas recrutados por Rodrigo, entre eles Tulipa Ruiz ou Maurício Takara, membro do São Paulo Underground, colectivo dirigido pelo trompetista de Chicago Rob Mazurek. E o resultado, misturado em Nova Iorque pelo enorme Scotty Hard, é uma extraordinária viagem, entre a palavra e o improviso livre, entre o jazz e um indefinível balanço que tem tanto de exploratório quanto de profundamente orgânico. Uma mini-utopia de um mundo novo feito de som e de ideias que nos querem impulsionar na direcção de um futuro melhor.

Acabado de chegar a Lisboa, Rodrigo Brandão abriu-nos o seu coração, falou das razões que o trouxeram até Portugal, da situação política no Brasil e de um longo percurso artístico que já lhe permitiu cruzar-se, em projectos e em palcos, com gente como Prince Paul (integrou os Brookzill!), Pharoah Sanders, Sun Ra Arkestra ou Brian Jackson, o pianista que dividiu créditos em parte importante da discografia de Gil Scott-Heron. Pergaminhos mais do que louváveis que no entanto nunca retiram a Rodrigo uma tocante e honesta humildade. Ele sente que está aqui para começar de novo. Amanhã, na intimidade da Crew Hassan, poderemos todos aplaudir esse novo arranque.



Pelo que julgo saber, mudou completamente para Lisboa, certo? 

Sim. A gente já estava pensando nisso já fazia alguns anos. Eu tenho uma relação de amor e ódio muito forte com São Paulo, sabe? Eu fui criado lá a vida toda, chega a uma hora que estava começando me sentindo um pouco sufocado. E isso era antes de começar toda essa questão política, então era um negócio mais existencial e eu pensava assim: “se eu não for morar nessa cidade, aonde eu vou morar?” Nunca conseguiria viver em nenhum outro lugar do Brasil. Aí comecei a pensar, “poxa, fora do país então”.

Tive um tempo que trabalhei bastante em Nova Iorque porque tinha um projecto com o Prince Paul, então ia para lá directo. Gosto muito de lá, mas não é um lugar para eu morar. O dinheiro é Deus demais lá. A gente entende que estamos todos num lugar onde o dinheiro é Deus, mas lá é mais. Então essa foi uma coisa que me incomodou. A língua também. Eu consigo me expressar em inglês, mas várias nuances a gente perde quando você não está falando a sua língua natural. 

E Lisboa. Um bom amigo meu morou aqui um tempo. E aí quando ele voltou, ele contou um pouco a dinâmica da cidade e isso me chamou muito a atenção. Aí comecei a ficar com essa ideia na cabeça. Eu dizia para ela [NR: a sua mulher, presente ao seu lado] e ela falava, “isso é loucura”. E aí, há uns dois anos, a gente foi convidado pela família dela para passar o ano novo aqui. Na hora que isso aconteceu, eu falei pra ela, “um sinal apontando”. A gente veio, gostou muito daqui, mas era Natal, tempo de festa. E fora da época de festa? Aí voltamos em Setembro do ano passado, passando um pouco mais de tempo com alguns amigos, conversando, gente que mora aqui falou, “olha, aí esttá o bairro que tem a ver com vocês”, e a gente começou olhando os bairros mesmo. Aí quando a gente voltou para lá era o primeiro turno da eleição. Foi para o segundo turno… o Haddad, que era o candidato que a gente acreditava, e acredita ainda, e aquele a quem eu prefiro chamar de Bozonazi, porque é um palhaço e nazista. Naquela hora já estava uma coisa urgente gritando mas eu acreditava que ainda seria uma piada muito sem graça para acontecer. Mas mesmo assim todo o mundo ficou fazendo campanha contra. Quando ganhou, eu entendi que eu já não tinha mais nação, sabe?

Eu nunca fui um brasileiro típico. Eu não gosto de futebol, não gosto de Carnaval, não gosto de feijoada, então já tenho uma tendência mais fácil a ser uma pessoa do mundo, mas mesmo assim é doloroso você ser obrigado a sair de onde você foi criado. Dito isso, feliz pra caralho de estar aqui agora. Fui lá, estive agora no Brasil recentemente, voltei faz uma semana para fazer apresentações.

O que viu agora, por lá?

Olha, o que eu vi foi duas faces de brasileiro: uma é distorcida de ódio de quem está achando bonito o que está acontecendo agora, e a outra é distorcida de estar cansada de apanhar, que é quem discorda do que está a acontecer agora. Não pretendo de maneira nenhuma perder a conexão, e deixar de retro-alimentar resistência, mas pensando em se sentir bem e pensando nos filhos, que a gente tem um menino de 13 anos e uma menina de 6… Cara, o segundo e terceiro dia aqui, a expressão do rosto deles já era outra, sabe? 

Já estão na escola, não é?

Já estão na escola, estão integrados, estão gostando de estar na escola aqui, estão gostando do ensino aqui, então eu te confesso que estou muito feliz de estar aqui. 

Olha, não sei até que ponto conhecerá a história da música portuguesa, mas temos uma série de grandes exemplos, na altura da nossa ditadura, de músicos como o Sérgio Godinho ou o José Mário Branco, eles próprios vozes da canção de protesto na década de 70, que foram obrigados a sair do país para se poderem expressar livremente. Como é que acha que o facto de estar agora a empreender uma nova etapa da sua vida num outro país vai afectar a sua arte?

Primeiro, eu te agradeço por esses nomes. Eu ainda sou absoluto leigo na cultura daqui, e acredito que o jeito certo de incorporar isso na minha vida é assim. Poderia dar um Google, passar alguns blogues, mas eu acredito mais nisso, acredito que a gente trocando chega de um outro jeito. Eu prefiro a mixagem da vida, sabe? [Risos]

Posto isto, eu acredito que já está alterando e muito. Eu sinto que já está afectando. Quando cheguei aqui, comecei a tentar entender a cidade, os lugares e nomes como Largo do Rato… cara, isso é um nome muito bom. Já começa a vir muita coisa na cabeça para escrever. Estou morando em Campo de Ourique, gosto muito de lá. Eu brinco que me lembra de certo modo Copacabana se Copacabana não tivesse praia nem marra, porque a coisa do comércio e de ser de família, muitas vezes, pequenas portinhas, você conseguir fazer tudo a pé no bairro. Cara, eu fui criado em São Paulo, na verdade na Grande São Paulo, então para eu ir para a escola pegava duas horas de ônibus todo o dia. Poder viver num lugar em que você resolve tudo a pé ou com pequenos trechos de carro é um sonho. E acho que isso também é uma dinâmica que já afecta. Mas os aviões, o barulho dos aviões de Campo de Ourique, para mim também passou a ser de tal ritmo que foi natural escrever sobre aquilo. Poxa, a coisa da luminosidade daqui, lá é bizarra, diferente. Então acho que tudo isso que a gente vai observando inevitavelmente vai saindo no papel de volta. Eu não tenho nenhuma quantidade volumosa o suficiente para falar, “ah, tenho material para fazer uma peça sobre aqui”, mas sinto que já é uma coisa que naturalmente traz uma poesia mais delicada para mim do que o verso-navalha. Em São Paulo o verso-navalha é muito necessário. Às vezes é tanto ruído, tanto físico quanto metafórico, que às vezes você tem que berrar para ser escutado. Uma das coisas que me deixou bem feliz aqui foi que me parece que as pessoas têm ainda mais paciência para ouvir. E isso faz muita diferença. Eu gosto de ouvir também. 

Vamos falar sobre o álbum, gravado nos estúdios da Red Bull em São Paulo, em sessões de improviso em cima dos seus textos. Como é que o Thiago França pensou nessa abordagem de produção do álbum? Como é que tudo isto aconteceu?

Eu, antigamente, fazia hip hop, então era bem naquele formato de escrever 16 barras, refrão, mapear uma música com percussão electrónica e loop

Isto é outro pensamento. 

Exactamente. Chegou uma hora que esse pensamento começou a me sentir como uma camisa de força. Várias vezes estava cantando ao vivo e falava, “poxa, as pessoas estão gostando desse refrão, se eu tivesse liberdade de estender, a troca com o público seria muito maior, mas como o mapa já estava gravado desse jeito, eu não posso estender o refrão”. Esse tipo de questão começou a aparecer mais. Outra coisa foi: em São Paulo, e no Brasil em geral, nesse momento que, no meu entender, é, desde que surgiu o hip hop no país, em que mais se precisa de hip hop politizado, e o hip hop tem uma história politizada no Brasil. O hip hop, nesse momento, está numa fase adolescente de querer mandar as lutas e as questões às favas e curtir o shopping center. Então isso foi uma coisa que me distanciou do formato hip hop. Junto com isso, essa questão de liberdade. E fora tudo isso, chegou uma hora em que eu percebi assim: “legal, aqui está acontecendo uma troca durante os shows, mas o povo está mexendo a bunda e não está escutando porra nenhuma”. Então para mim começou a ficar muito pungente esse negócio de “como é que eu faço para as ideias chegarem mais directamente?”

A minha raiz é spoken word, antes de começar a fazer rap fazia spoken word. O que aconteceu foi que por conta desse formato, e ao mesmo tempo ser amigo dos músicos de São Paulo, que começaram a experimentar com a coisa do improviso, eu comecei a frequentar mais como espectador, chega uma hora que os caras falam, “meu, está vindo directo, participa!” Eu falo, “pô, não tem nada a ver rap no meio disso, eu não sou de freestyle, mesmo que fosse eu não acho que encaixe nessa estética”. E os caras, “vem, vamos tentar um dia”. Um dia eles me chamaram e eu me toquei de uma coisa: era eu, Mauricio Tacara e o Thiago França e aí eles levam… o Thiago leva vários saxofones, flauta, o Maurício leva bateria e sampler. Eu falei, “esses caras estão levando muitas opções do que tocar; eu vou levar muitas opções do que falar”. Aí peguei algumas coisas de letra que eu tinha escrito e nunca tinha usado. Pedi trechos de livros de que eu gosto para ler e improvisei alguma coisa ainda com um pouco de cadência de rap em alguma hora ou outra. A partir desse dia, eles falaram, “cara, foi muito legal, segue fazendo isso, tem uma estrada”. E as coisas começaram a acontecer. O Maurício Tacara, por conta dele e do pessoal do São Paulo Underground eu me conectei com o Rob Mazurek, que é um trompetista de Chicago. Quando o Rob esteve em São Paulo para fazer um show com o Pharoah Sanders, eles passaram a semana lá, antes, e o Mazurek me pediu para escrever uma peça sobre São Paulo enquanto uma Meca de caos e criatividade. Aí eu lembro que eu fiz e tal, e a gente gravou, mas era uma coisa totalmente à parte. Durante os shows do Pharoah Sanders, no segundo dia, ele falou, “vem fazer”. E eu apresentei com eles e o resultado começou a ouvir muito feedback bom. Isso foi em 2010.

Ao longo desses anos, de 2010 a 2017, fui fazendo hip hop com Brookzill!, esse projecto com o Prince Paul, fora do Brasil, e no Brasil cada vez mais spoken word e sempre nesse contexto de improviso. Chegou a uma hora que ficou evidente para mim essa coisa que referi antes sobre não estar passando mensagem nenhuma com o beat. Aí falei, “não, então agora vou mergulhar no spoken word“. Comecei a fazer cada vez mais improviso, o pessoal foi chamando, até que uma hora o Thiago me encontrou e falou, “cara, fui convidado para fazer uma curadoria de discos na Red Bull, mas tem que ser álbum de estreia”. Falei, “que louco, estava querendo fazer essa história do disco de spoken word, você acha que tem a ver?”, e ele falou, “tudo a ver porque você nunca gravou um disco individual”. Eu tenho muito disco gravado antes, mas sempre em grupo. Aí falou, “vamos fazer como um disco individual seu”. Eu falei, “‘tá bom”. Aí a gente convidou todo o mundo que já tinha interagido comigo nesse contexto de improvisação de spoken word. Deram 16 pessoas. Eu falei, “se vierem seis ou sete já ‘tá bom”. Cara, os 16 vieram! Aí dividi em três bandas, fiz cada dia uma sessão de improviso. Baseado nas pessoas que estariam juntas, eu separei os textos. E aí levei um punhado de texto para cada dia. No dia que teve a Tulipa e a Juçara, por serem cantoras que também trabalham com a palavra, a gente conversou um pouco antes, eu mostrei alguns textos para elas e falaram, “ah, esse refrão a gente quer usar”. Essa troca básica, mas para que a coisa da palavra ficasse sintonizada. Fora isso, nenhuma espécie de combinação. Nos outros dias, como não tinha ninguém de palavra, nenhuma espécie de combinação, que é como a gente costuma fazer. No último dia, na verdade, teve uma combinação: a única participação vocal e lírica do disco que é o Rodrigo Carneiro, que era vocalista de uma banda de rock de São Paulo chamada Mickey Junkies e que é meu amigo de muito tempo, começou comigo no spoken word também. E aí a gente combinou: “Carneiro, na hora que eu lançar tal texto, significa que o próximo é o seu”. E depois do Carneiro lançar o dele, eu vou lançar um verso dentro do mesmo tema e a gente entende que se encaminha para o final. Foi só isso. Depois a gente escutou junto, eu e o Thiago, e o Daniel Bozio, que é outro cara que participa da produção com a gente, a gente decupou alguns trechos. E aí mandámos isso para o Scotty Hard que é um cara que, poxa, a gente já tem uma parceria com ele há bastante tempo. Ele toca instrumentos, mas entendo que o maior instrumento dele é o estúdio. E aí ele finalizou o disco. A partir do lançamento desse disco, começou uma nova fase, que foi no começo desse ano. E é muito louco porque de lá para cá eu nunca tinha sentido a coisa de, “puto, eu tenho que fazer o negócio agora, e é só você”. Quando era na época de rap para mim ainda tinha muito mais… “Ah, tem que ensaiar o mapa”, e agora é de sentimento e energia, e eu acredito que isso tem muito a ver com essa época que a gente está vivendo no mundo inteiro hoje em dia, sabe?

Essa urgência alimenta esse espírito de aventura, é isso?

Exactamente. Você entendeu tudo. E foi muito louco, porque agora quando eu fui no Brasil foi para a gente se apresentar num grupo grande mas foi por conta de uma conexão com o Marshall Allen da Sun Ra Arkestra. Sem eu saber, o pessoal de um festival da Alemanha foi para São Paulo, assistiu montes de shows e eles me convidaram, depois de ver o meu, para ir para lá fazer uma sessão de improviso com o Marshall e outras pessoas também. E foi muito bom, fluiu de verdade, a ponto dele falar, “quero fazer mais”. Beleza, a gente fez. Agora, com todo o grupo do disco e alguns integrantes da Arkestra. Mas eu estou-te citando tudo isso porquê? No final de toda a história, de se agradecer e despedir, o Marshall virou para mim e falou assim, “sabe o que é que eu gosto em você? Eu toco o que eu não sei, e eu gosto de ver porque você fala o que você não sabe”. Eu fiquei, “uau…” Aí ele falou, “quando você senta todos os dias no palco, eu fico olhando sua cara e eu vejo que até você abrir a boca para falar com as pessoas, você não faz ideia do que vai dizer. É disso que eu gosto”. Então, eu nunca pensei que na minha vida quando alguém me dissesse, ” você não sabe o que você fala”, pudesse ser um elogio, mas é exactamente isso. 

É interessante mencionar que neste curto espaço de tempo se cruzou com gigantes como o Marshall Allen, o Tony Allen é outro dos nomes com quem colaborou, falou aí no Pharoah Sanders. São tudo gigantes da música mundial. O que é que tem aprendido com estes veteranos?

Mano, eu vou-te falar uma coisa, é cabuloso que você falou nisso, porque é desse jeito que me chegam as coisas. Cara, eu entendo o seguinte: tem gente, que quando mergulha na música, está buscando principalmente pagar as suas contas, ter lucro e em muitos casos a coisa que se denomina como hype. Pessoalmente, o que eu busco é graduação. Graduação espiritual, graduação artística, graduação de vivência, mesmo. Para mim, conviver, aprender e ter o reconhecimento desses caras é o meu principal objectivo. Eu entendo isso, tem gente que sai de casa para fazer música como um comerciante, eu saio como um samurai. Nesse sentido de se tiver que lutar, a gente luta, mas na hora que a gente encontra um mestre…

Um código de honra. 

É exactamente isso! 

Há uma forte tradição de spoken word na América que remonta ao Amiri Baraka, ao Gil Scott-Heron, Last Poets, etc. Estudou essa gente toda?

Eu sou feito desses caras. Linton Kwesi Johnson…

Linton Kwesi Johnson na Europa. Com a sua ascendência jamaicana, claro.

Esses caras para mim são arroz e feijão. No Brasil a gente é forjada à base de arroz com feijão. O meu arroz com feijão são esses caras.

São mesmo heróis?

São meus heróis, sem dúvida. Eu nunca encontrei com os Last Poets, mas consegui conversar com o Gil Scott-Heron antes dele falecer e tenho a honra de já ter-me apresentado algumas vezes com o Brian Jackson, a quem posso chamar amigo e parceiro. 

Uau…

E para mim, voltando à sua pergunta anterior, sabe o que é que eu mais aprendo com esses mestres: quem é mestre mesmo não tem ego, não ficando se provar para o outro, está buscando a troca olho no olho, de igual para igual, de chakra para chakra, e essa é a maior riqueza. 

Muito bem. Como é que isto vai resultar em Portugal? Já está em busca de músicos com quem possa vir a colaborar ao vivo? 

Eu tenho muita vontade de me conectar com os artistas daqui, de fazer coisas com o pessoal daqui, mas do mesmo jeito: a melhor maneira de isso acontecer é um processo orgânico. Tem gente daqui que já me inspira: eu gostei muito dos livros do Kalaf Epalanga, acho que ele não entraria numa coisa tão directa, mas é uma influência para mim. E tem uma trompetista que eu vi o ano passado em São Paulo junto com Fred Frith, Susana Santos Silva, que me tocou muito. Fora isso, eu já ouvi falar sobre a cena de improviso livre e de free jazz que tem aqui, e eu estou acompanhando coisa de data para pegar esse pessoal ao vivo. Porque eu gosto muito de ouvir gravação, mas em geral eu entendo que se eu ouço muito um disco e o show me decepciona aquilo quebra. Se eu vejo um show sem conhecer um disco que eu gosto, você já encara a gravação com um outro olhar, então eu prefiro começar pelo orgânico. Então quero ver todas as pessoas tocarem, quero que elas saibam do meu trabalho. A partir disso, o que for de convergência natural vai acontecer. 

O seu crachá da Angela Davis já diz muito do seu posicionamento político e espiritual, e o álbum tem essa mensagem fortíssima e vincada. “O Futuro é Fêmea” é um autêntico manifesto. Acredita que essas mensagens podem ajudar a transformar o mundo ou um país? Acha que se mais gente como o Rodrigo insistir nesse tipo de palavras, mensagens e ideias, algo poderá mudar? As palavras têm esse poder?

Elas tiveram em mim. Os meus pais vinham da roça, do interior, fui criado em gueto e da minha rua eu fui a única pessoa que saiu para o mundo e o motivo disso foi a música, foi a arte, foram os filmes e as letras. As palavras que ouvi, que decorei, que mexeram comigo e que chegou a uma hora em que você escuta e fala assim, “mas se eu gosto dessa música que diz que racismo é idiota, se isso mexe comigo, eu também tenho a missão de mexer com o próximo dizendo a ele que racismo é idiota”. Então para mim, tem uma coisa em inglês que explica bem, “each one teach one“, para mim é mais isso. É menos falando sobre alguma espécie de profético e mais de troca comunitária. Eu acredito que essa época que a gente está vivendo agora ela não é propícia ao ego, não é propícia ao superstar, ela é uma época que a gente quanto mais junto a gente estiver, quanto mais comunidade for, quanto mais a troca for de igual para igual, mais forte é. É isso que eu estou buscando. 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu