Roc Marciano // Marcielago

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

A voz de Roc Marci é especial: soa a narrador de film noir baseado num qualquer clássico de Dashiel Hammett ou como a tradução sonora do pensamento de alguém que escreve uma carta intensamente pessoal e com a concentração própria de quem aproveita a oportunidade para revelar um segredo há muito guardado. Em Marcielago, o trabalho com que sucedeu em 2019 ao denso tríptico do ano anterior – RR2 – The Bitter Dose, Behold a Dark Horse e ainda o projecto colaborativo com DJ Muggs Kaos –, Roc Marci mantém a pressão sobre a cultura, debitando mais um negro filme de crónicas fantásticas da vida no lado errado da lei, um mafioso rap próprio de quem construiu uma realidade moral paralela a ver a trilogia O Padrinho de Francis Ford Coppola e sorveu atentamente tudo o que Hollywood produziu depois sobre um complexo universo povoado por caporegimes, consiglieris e personagens trágicas com nomes como Johnny Two Fingers ou Tony The Butcher.

O admirável na obra de Roc Marciano é o seu completo alheamento em relação ao actual estado da cultura em que se insere. Roc não rima sobre os mesmos assuntos que a maior parte dos seus pares abordam de múltiplos ângulos, parece ter pouco interesse no presente e mesmo em termos sónicos nada na sua música parece indicar que a arte da feitura de beats evoluiu muito para lá de RZA (ouça-se o delicado haiku de piano que sustenta “I.G.W.T.” para comprovar isso mesmo). Esse carácter perfeitamente obtuso do homem que nos deu a obra-prima Marcberg há exactamente 10 anos pode em tempos ter-se destacado pela sua desligada singularidade, mas a verdade é que nos últimos anos o aparecimento de outros “cromos raros” como Ka (que aqui surge ao seu lado em “Ephesians”), como as mentes criativas que se abrigam no colectivo Griselda (como Westside Gunn que tem igualmente lugar no alinhamento de Marcielago pontuando “Boosie Fade”), como Mach-Hommy (da terra de Tony Soprano…) ou até, se quisermos também olhar “cá para dentro”, como os Orteum ou Beware Jack e Frankie Dilúvio aka Blasph parece indicar que a sua postura ganhou credibilidade escolástica: o solitário mestre hoje tem discípulos e junta-se a uma classe superior de MCs em que encontramos vozes suas contemporâneas, como Freddie Gibbs, ou mais veteranas, como Ghostface Killah, todas bem mais apostadas em manter uma velha chama arcana acesa, mesmo quando o hip hop, como a água, vai descobrindo outros leitos por onde correr.

E faz pleno sentido que assim seja: Marcielago mantém Roc Marci no plano independente, prossegue teimosamente o caminho de dispor rimas em cima de pedaços significantes de soul, como se o MC preferisse a companhia de fantasmas e espíritos a algo que remeta para o tempo que todos habitamos, subtraindo diálogos a obscuras produções de blaxploitation e dispensando mesmo adições percussivas quando o sample original já contém uma subtil marcação de bateria (como acontece em “Choosin Fees” ou “Richard Gear”) ou até eliminando mesmo da equação o “boom” e o “bap” que habitualmente funcionam como pontuação de discurso (escute-se “Bomb Shelter” em que surge ladeado por Willie The Kid, fantástico tema em que uma circular frase de metais e baixo de toada sinistra chegam como cenário para a história). E, como totalmente esclarecido em “Saylavi”, o flow de Roc tem até argumentos para aguentar embates musicalmente mais inusitados, adornando na perfeição uma base mais experimental, prova de que o seu aparente “tradicionalismo” é afinal de contas simples marca de quem não está para seguir a corrente dominante.

E as palavras? Certeiras, como sempre. Em “Boosie Fade”, Marci explica-nos de que massa é feito, afinal de contas: “I must be some kind of Frankenstein, peep the way I’m designed/ With a .9 by my waistline/ Don’t waste your time rhyming and quit your day job/ I’m in the Bahamas till I came back the same shade as Akon/ Seats in my favorite ride remind me of sweet potato pie/ You eager to take my spot but the game is mine/ I’m playing keep away with the Roc”. E, mais adiante, esclarece: “My character nothing man made can validate”. Verdade: Roc é matéria de outra dimensão e é num universo alternativo que temos o dever de o imaginar. Venha daí um álbum com Madlib e poderemos enfim fechar a loja. Até lá, Marcielago é o perfeito “limpa-ouvidos” que poderíamos desejar para nos preparar para mais um ano recheado de rimas e de batidas de todos os géneros e feitios.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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