DJ Muggs & Roc Marciano // KAOS

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

As colaborações podem ser uma fértil estratégia de criação: o que encontros (daqueles que rendem álbuns inteiros, bem entendido…) passados entre artistas como Madlib e J Dilla, MF Doom ou Freddie Gibbs, entre Killer Mike e El-P, Prodigy e Alchemist ou, para citar apenas mais um exemplo, entre Common e Kanye West nos dizem é que estes nunca são casos de soma linear. Da adição dos sólidos talentos de um MC e de um produtor pode surgir algo que a matemática não explica por completo, algo que ultrapassa a simples soma das partes, algo que, em modo solitário, nenhum dos elementos dessas equações criativas poderia conseguir.

E esse é, claramente o caso de KAOS, resultado do cruzamento dos beats de DJ Muggs e das densas e negras rimas de Roc Marciano. Este tem sido um ano mega-intenso para os dois artistas. DJ Muggs, para começar, não tem parado: assinou lançamentos de diferentes fôlegos com Meyhem Lauren e MF Doom; produziu o projecto Dia Del Asesinato que carimbou como Soul Assassins e em que colaboraram MCs como Kool G Rap, Raekwon, Hus ou, entre outros, Mach Hommy; construiu as batidas que sustentam o regresso dos seus Cypress Hill com Elephants on Acid; e, finalmente, ainda arranjou tempo para congeminar com Roc Marci o ambicioso KAOS, que, mais do que um álbum, é uma banda sonora para um filme que deverá ser lançado em 2019 e que ficciona, qual título perdido da era da Blaxploitation, o seu crescimento e o de Roc nas ruas de Nova Iorque.

Quanto a Roc Marciano: bem, este é já o seu terceiro álbum de 2018! No presente calendário, Roc sucedeu a Rosebud’s Revenge do ano passado com a sua sequela, RR2 – The Bitter Dose, e ainda lançou Behold A Dark Horse, duas fortíssimas amostras de um desmedido talento que está tão desligado do corrente zeitgeist quanto em sintonia com a mais funda essência desta cultura. Este tem, aliás, sido um ano fértil em projectos que apontam directamente ao âmago do hip hop, ignorando olimpicamente as também interessantes disputas que agitam o topo da pirâmide: discos de Ka, Homeboy Sandman com Edan, Freddie Gibbs, Black Thought, ou, entre outros, Czarface deixam claro que quando chegar a hora do balanço final com as listas de melhores do ano, 2018 não se quedará como um ano trap, antes como um calendário abençoado por visões diversas de uma cultura que tanto se transforma como permanece. Sem equilíbrio, afinal de contas, não há universo.

KAOS abre, muito naturalmente, como uma banda sonora de um qualquer clássico obscuro da era da Blaxploitation, com Muggs a deixar claro que estudou atentamente as imaginativas orquestrações cinematográficas de mestres como Isaac Hayes, Willie Hutch, Roy Ayers, James Brown, Norman Whitfield, Curtis Mayfield ou Barry White (sem ter visto ainda uma única imagem do filme que este disco ilustra, impossível não pensar, ouvindo KAOS, no trabalho de White para o filme Together Brothers, de 1974).

Depois, o tom estabelece-se em amplo esquema orquestral com “Dolph Lundgren” a funcionar como dourado cartão de visita: sobre o beat luxuriante feito da interacção de guitarra jazzy e piano eléctrico melancólico, com cordas a forçarem a cor sépia do arranjo, Roc Marci abre a narrativa com a força das primeiras frases de um romance clássico:

“Trust ain’t ever been my strongest attribute, uh
I’m not tripping, I’m just doing what I have to do
This rapping blues, it just comes natural”

Verdade. Marci rima como respira, de forma natural, sem aparente esforço, como se as barras, as histórias, as palavras escorressem da sua garganta com a mesma facilidade com que a água verte de uma torneira aberta. Sem alaridos, mas com a segurança gélida de um assassino profissional, habituado a matar adversários com a precisão com que cospe balas líricas, daquelas de ponta oca, que fazem estragos nos egos de MCs menos dotados:

“You niggas just follow, we change the business model
My bitch look like a fitness model in Balenciagas
In Fendi pajamas, we the top niggas rhyming
Inside the chamber, these bum ass niggas was eating top ramen
I put a bag on your head, you won’t make it past 10
They’ll be speaking ’bout you in past tense
Brain fragments in the G-Wagon that splash the jean jacket
Jack your G-pack status, your self-esteem get shattered
Watching Harlem Nights on chartered flights
I gave Cassandra hard pipe, the pussy farted twice
Necklace and wrist with ice, I got spice
Y’all niggas sound aight but I’m nice, fuck niggas”

E Muggs está no topo da sua forma, servindo Roc com pérolas feitas de samples clássicos das melhores colheitas: pedaços significantes de jazz, flautas carregadas de alma, guitarras de ecos psicadélicos, orgãos subtraídos a infernais igrejas, baterias certeiras, sincopadas com pulso de mestre, e até exóticas sitars. E depois, Muggs é igualmente capaz de algo tão simples quanto o loop de piano que sustenta a fabulosa “Shit I’m On”, tema com que se poderia viver em repeat até ao fim dos tempos e sobre o qual Marci debita fantasias de luxo extremo — incluindo referência a um puro sangue lusitano — conseguido certamente graças às recompensas da vida no lado errado das ruas:

“I flood the shipyard, you rap subpar
Fuck a roof, why cover the cars, white like a Dove bar
Park the double R, pull your trump card
This hog’s 300 large, front on the guard, you get dumped on
You tumbled when your number was called
The 40 long calls, you do summersault, dog
Don’t worry, lord, the summer’s all yours
The pump still up under the London fog
The horse is imported from Portugal
My songs is like soft porn
Pouring Pourisons with tall Amazons
Black Panameras, Tony Montana standards”

Como Ghostface e os seus gráficos contos de sangue e crime, como Ka e a sua demanda pela honra e por uma moral própria, Roc Marciano também vive numa esfera à parte. É um dos mais estimulantes artistas desde pelo menos Marcberg, clássico imbatível lançado em 2010. Ouvi-lo a pintar com palavras uma dimensão alternativa nas ruas de uma América impossível (ou talvez nem por isso… o maior gangster de todos parece estar sentado na sala oval…) equivale a deixar os olhos perderem-se nas páginas das melhores novelas gráficas de Frank Miller, Dave Gibbons ou Neil Gaiman, autores de histórias arquetípicas com pouca luz, anti-heróis malditos, sangue e honra, medo e redenção. E ouvi-lo embalado pela música de Muggs é, sem dúvida, das melhores coisas que poderão fazer este ano.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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