Rio Kai dos Nérija: “Temos um amplo leque de referências e quisemos ter liberdade para as explorar”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Perry Gibson

O tão propalado novo jazz britânico prossegue na sua aparentemente interminável jornada de expansão, impondo mais um marco nessa concorrida estrada em que muitos parecem já circular: o álbum Blume, que representa a estreia em formato grande dos Nérija na editora Domino, bem mais conhecida doutras (an)danças.

Nubya Garcia (saxofone tenor), Sheila Maurice-Grey (trompete), Cassie Kinoshi (saxofone alto), Rosie Turton (trombone), Shirley Tetteh (guitarra), Lizy Exell (bateria) e Rio Kai (baixo) completam o colectivo que se estreou com um homónimo EP auto-editado em 2016. Esse inicial registo foi, aliás, resgatado para o presente pela mesma Domino que agora lhes ampara a estreia em álbum, tendo merecido relançamento no início deste ano. E essa ligação à editora que tem lançado trabalhos de gente como Panda Bear ou Hot Chip, para citar apenas um par de exemplos de uma extensa lista, constitui, em si mesmo, sinal da crescente atenção dada a esta cena. Rio Kai, baixista e único homem do grupo, explica que a decisão de aceitar o convite de uma editora com méritos reconhecidos no circuito indie passou por acreditarem que lhes seria aí dada plena liberdade para explorarem as diferentes nuances do seu som. De facto, se “este” jazz — em que também encontramos outros colectivos como Sons of Kemet, KOKOROKO, Ezra Collective e artistas como Shabaka Hutchings, Theon Cross, Joe Armon-Jones ou Nubya Garcia — tem sabido procurar novos circuitos para se apresentar ao vivo, tendo, como pudemos constatar este ano, conquistado espaço em festivais mainstream e atenção de publicações musicais de espectro mais amplo, faz também pleno sentido que comece a ganhar entradas em catálogos até aqui pouco familiarizados com o género.

Numa curta mas produtiva conversa, Rio Kai abordou a ideia de comunidade democrática que parece sustentar os Nérija, que são combo sem líder, com todos os membros a assumirem igualmente responsabilidades de composição, tocou na importância da verdadeira instituição Tomorrow’s Warriors, onde vários dos protagonistas da corrente cena começaram por se cruzar, e deixou no ar a possibilidade de Portugal poder estar na rota da digressão em que se preparam para embarcar.



Antes de mais, deixa-me congratular-te pelo óptimo álbum.

Obrigado.

Comecemos pela vossa ligação à Domino Recording Company. Juntaram-se a um catálogo que inclui, sei lá, os Hot Chip, Stephen Malkmus, Panda Bear… Achas que ao entrarem a bordo desse navio assinalam uma nova atitude perante o jazz? E eu nem me refiro apenas ao tipo de label que é, mas também ao publico que ela serve. Existe uma nova audiência a interessar-se por este tipo de jazz?

Suponho que sim. Essa foi uma das principais razões que nos levou a optarmos pela Domino. É porque nós não queríamos apenas ser definidos enquanto um grupo de jazz. Quero dizer que o género, por definição, é bastante limitativo, mas todos nós temos o nosso amplo leque de influências e queríamos ter a liberdade de as poder representar na nossa música. Essa é uma das razões pelas quais ficámos felizes ao ir para a Domino. Mas penso que as pessoas estão a alargar os seus horizontes no que toca ao gosto pelo jazz e à sua definição nos dias que correm.

Eu diria que, ao longo dos anos, o jazz tem vindo a meter-se dentro de “caixas” muito específicas. Tem as suas próprias editoras discográficas, os seus próprios festivais, um circuito de salas muito específico… Mas, tal como tu mencionaste, isso está a mudar, certo?

Sim. E acho que, por um lado, é irónico porque, se tu fores a ver, o que as pessoas faziam dentro do jazz era honrar a tradição, a herança e a linhagem, as origens, as pessoas que chegaram antes e aquilo que elas fizeram a esta música. Elas também misturaram influências que eram relevantes para elas em cada altura. Se fores ver o que se passou com o movimento do jazz latino, no final dos anos 30/início dos anos 40, eles eram apenas um grupo de pessoas que misturou algo tradicional com uma coisa nova. É o que eu acho que as pessoas estão a fazer agora. Mas, obviamente porque temos influências e sons diferentes agora os resultados, serão igualmente distintos.

Isso é verdade. Estava agora a olhar para a vossa página no Instagram — obviamente que apertei o botão do follow [risos] — e reparei numa foto vossa em que estão na Rough Trade East, todos com um exemplar do álbum na mão. Apresentaram-no na loja?

Sim. Tivemos o evento de lançamento do álbum no dia em que se deu a edição digital. Tocámos lá. Foi na sexta-feira, dia 2 de Agosto.

Acredito que tenham tido a oportunidade de conhecer alguns dos vossos fãs nesse dia e eu estou bastante curioso: que tipo de perfil têm os vossos fãs? Que tipo de música é que eles compraram nessa noite, na Rough Trad East, além do novo álbum dos Nérija?

Eu não tenho bem a certeza. Porque nós, depois da performance, tivemos a sessão de autógrafos e toda a gente nos trazia o nosso álbum, alguns também o EP. Foi aquilo que mais vimos nas mãos das pessoas. Mas havia mais alguns álbuns proeminentes em destaque na Rough Trade East. Há uma banda chamada Khruangbin, a que muita gente parece estar a prestar atenção neste momento. É um tipo de rock misturado com easy listening, já foi feito, mas há qualquer coisa de especial neles. É o que eu acho. São coisas desse género que andam por lá. E que eu acredito que alguns dos nossos fãs também podem escutar.

E quanto à vossa carrinha de digressão? De que tipo de playlists é que desfrutam enquanto estão na estrada?

É muito vasto, para ser honesto [risos]. Passamos por diferentes géneros e diferentes artistas. Sei lá. Ouvimos Moonchild, Donny Hathaway, talvez alguns artistas mais obscuros que não te sei precisar porque as playlists misturam muitos interesses distintos. Pessoalmente, tenho andado a ouvir Thundercat. É alguém que me dá muito prazer de escutar.

E quando estavas a crescer? Eu tenho lido algumas entrevistas a vários dos elementos-chave desta nova cena de jazz londrino e todos eles destacam o espectro alargado de música com a qual cresceram. Como foi contigo?

Acho que foi igual para mim. Obviamente que ouvia a música dos meus pais, porque isso é das primeiras coisas que fazes quando te começas a interessar por música. A minha mãe era muito focada no Prince. O meu pai era mais Marcus Miller. Foram as duas pessoas que eu ouvi bastante logo desde muito novo. Depois eu andei por coisas de soul/neo-soul como Omar, D’Angelo, esse tipo de coisas. Eu só me comecei a interessar por jazz mais tarde, talvez por volta dos meus 18/19 anos. Talvez até 20, na verdade, agora que penso nisso. Comecei por ouvir alguns artistas de jazz moderno, como a Tal Wilkenfeld… Sim, foi isso que me fez iniciar esta viagem e tive de fazer o percurso inverso. Fui à procura do início da história do jazz.

Programas comunitários como o Tomorrow’s Warriors têm ajudado a explicar o facto de existir esta nova geração a transformar essa cena. Que importância tem essa ideia de comunidade para explicar a vibração que nós, que estamos de fora, sentimos em torno da nova cena do jazz londrino?

Acho que é gigantesca. Vão sempre existir grupos de pessoas que estão familiarizadas umas com as outras, mais do que com outros grupos. E foi apoiando-se nessa essência da ideia de comunidade que a cena de jazz londrino se tornou no que é agora. Por exemplo, essas pessoas do Tomorrow’s Warriors com quem eu toquei quando comecei a frequentar essas sessões são hoje as mesmas pessoas com quem toco em diversos projectos. Existe mesmo uma comunidade entre os artistas e nós contribuímos para os projectos uns dos outros. De forma natural e muito saudável, diria.

Podemos olhar para Nérija como uma pequena comunidade ela mesma? Porque eu estava a ler os créditos e todos vocês contribuem com temas para o disco. Foi uma decisão pensada, de que todos vocês deveriam contribuir? Pelas entrevistas que leio creio não existir um líder claro da banda, como acontece com outros projectos...

Acho que isso é uma dupla questão. Para responder à primeira parte, sim, foi uma decisão consciente. Nós decidimos agendar um certo período de tempo para compor em grupo. O plano era todos trazermos uma ou duas ideias e fazê-las funcionar em conjunto enquanto desenvolvíamos também algo novo à volta disso. Foi dessa forma que abordámos a composição do álbum. Indo à segunda parte da questão, sobre se existe um líder específico da banda, não, não existe. É pela forma como tudo aconteceu. É uma banda muito democrática. Acho que é uma das coisas que faz da banda algo tão bom, em termos de dinâmica e isso. Todos podemos expressar a nossa opinião e apontar numa direcção. É uma das grandes forças de Nérija.

Acho que isso se sente na música. Vamos agora falar um pouco sobre ela: é claramente jazz mas, ao mesmo tempo, é também outra coisa qualquer, verdadeiramente moderna, eu diria. É um som que pertence ao presente. Há muito jazz contemporâneo a ser editado em labels de jazz mais tradicional que soa como se pertencesse a um museu — não sei se me estou a fazer entender — porque parece que as pessoas estão a tentar replicar dogmas e dinâmicas que fazem parte da história. Mas o som que eu escuto no Blume é algo de contemporâneo.

Eu acho que percebo o teu ângulo, no sentido em que existem várias bandas de jazz contemporâneo que bebem muito da tradição ou têm uma abordagem igual à que os músicos tradicionais tinham nos seus discos. Para nós, nesta música, é tudo muito à base de exploração e conversação. Estamos a explorar sons e a ver onde é que tudo acaba. Podes olhar para o “EU (Emotionally Unavailable)”, por exemplo, que é bastante rock, com fraseados a repetirem-se. Na “Last Straw” já tens um espectro completamente diferente. É um som muito do “hoje”. Eu diria isso.

Entrevistei um músico americano, o Ambrose Akinmusire, que veio tocar a Portugal, e ele apresentou-me este argumento: “Para mim, isto é uma cena cultural e por isso eu não vejo diferença entre hip hop, jazz, funk, r&b, soul ou gospel. É tudo o mesmo para mim”. Eu diria que esta é uma forma possível de derrubar barreiras entre géneros e culturas, assumindo que não há reais fronteiras entre géneros e que a livre circulação pode ser algo natural. Dirias que vocês estão a tentar alcançar o mesmo tipo de liberdade?

Não diria que existe um esforço consciente para o alcançar. Acho que são apenas as vozes que encontrámos para expressar o que tínhamos para dizer. Acontece que essas vozes particulares, quando combinadas, produzem aquilo que é este álbum. Mas existem de facto algumas limitações com as convenções genéricas. Por isso, haver essa conexão entre todos esses géneros que acabaste de referir é muito importante para a música, na minha opinião. Oferece de facto um campo de expressão mais amplo e nenhum problema poderá surgir disso.

Todos vocês tocam em outros projectos diferentes. Existe alguma regra quando vestem a camisola de Nérija? Há algo específico que, quando estão em banda, devem ou não devem fazer?

Não diria que exista qualquer regra consciente. Há uma certa liberdade para explorar quando estamos em palco a tocar. É como estar presente numa conversa, à procura de momentos nos quais podemos explorar novas ideias juntos. Essa é a grande vantagem desta banda.

Aqui em Portugal, este ano, já pudemos ver ao vivo bandas como Ezra Collective, KOKOROKO, Nubya Garcia ou Sons Of Kemet a tocar em festivais mainstream. Sentimos realmente — novamente do lado de fora — que existe esta cena massiva a ser cozinhada em Londres e que está a influenciar muita gente à volta do mundo. Vocês, que estão do lado de dentro, sentem-se parte de algo maior, que pode estar a transformar a música?

Eu diria que sim. Definitivamente. Acho que o que as pessoas estão a ver e a ouvir agora teve a sua concepção há cerca de uma década. É tudo parte da cena comunitária que existe no jazz londrino. É como se chegasses a um certo ponto em que alguém de dentro diz, “eu gosto de jazz, mas…” E é esse “mas” que tu estás a ouvir agora. Essa exploração. Acho que todos nós temos consciência disso, mas provavelmente não prevíamos que se tornasse tão grande quanto se tornou. E isso é muito entusiasmante, esse contexto que nós estamos a mostrar ao mundo.

O que se segue? O Mercury Prize no ano que vem?

[Risos] Um dos outros projectos que integro, o Seed Ensemble, com a Cassie Kinoshi, também de Nérija, está nomeado para os Mercury. Dedos cruzados. Vamos descobrir em Setembro o que acontece. Quem sabe o que virá? Provavelmente vais ver-nos na estrada.

Há por aí datas para Portugal?

Eu não tenho a certeza. Não estou a par do resto da agenda. Mas vão acontecer coisas em vários territórios no ano que vem.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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