Red Bull Music Academy Berlim: 20 anos a apontar para a frente

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Red Bull Content Pool

Ter a oportunidade de espreitar para dentro da Red Bull Music Academy é um privilégio. Sim, é uma operação de marketing de uma marca de impacto global, mas a verdade é que, dos festivais de verão a inúmeras outras operações que hoje têm lugar no mais vasto universo das artes, hoje em dúvida algumas das mais desafiantes propostas só são possíveis através destas benignas ligações corporativas.

Berlim marcou, nos idos de 1998, o arranque desta aventura, imaginada por uns quantos visionários — ainda hoje ligados à causa, como é o caso de Torsten Schmidt ou Many Ameri — e alimentada pelo desejo de potenciar talento, de cruzar experiências e de oferecer uma dimensão laboratorial a um evento que tem cruzado o mundo, da Ásia e África às Américas, Oceania e, claro, Europa.

Em ano em que os portugueses Carga Aérea e Caroline Lethô foram seleccionados para integrarem os dois períodos de participação na Academia, o Rimas e Batidas teve a oportunidade de espreitar os dois derradeiros dias da operação, no final da última semana.

 



Este ano, a RBMA teve por quartel general o Funkhaus, massivo complexo de estúdios em tempos pertença da rádio da República Democrática da Alemanha. O edifício retém muito da arquitectura austera, mas de carácter nobre, que se associa ao período de influência soviética, da era da Guerra Fria, anterior à queda do Muro de Berlim e reunificação da Alemanha. Os longos corredores e o mobiliário de época podem fazer-nos acreditar que estamos num cenário de um filme de espionagem dos anos 70, mas a moderna arte nas paredes, com curadoria assinada por Johann Konig, e o doce ruído que se solta dos diferentes estúdios não permite que haja qualquer tipo de equívoco. Estamos em plena Academia, edição 2018.

Este remate final num longo mês que transformou Berlim no centro do universo da Red Bull Music Academy, com um festival que se alargou a vários outros pontos da cidade e que teve a participação de nomes tão diversos como Janelle Monae ou Oneohtrix Point Never, para mencionar apenas alguns, contou com lectures do saxofonista de free jazz Peter Brotzmann, da criadora de electrónica contemporânea Kara-Lis Coverdale, de Mad Mike Banks dos Underground Resistance a par dos criadores do Trésor e ainda com uma conversa pública com Pusha T — de que oportunamente demos por aqui conta… — e ainda de um fantástico concerto de Robot Koch no planetário de Berlim.

 



A ideia é clara: as palestras pretendem estimular a criatividade, confrontar os participantes escolhidos a partir de milhares de candidaturas de todo o planeta com algumas das mais generosas personalidades e de algumas das mais frutuosas experiências de activistas e pioneiros, de visionários criadores que no passado ou no presente têm obras que representam futuro, ruptura, qualidade, superação.

É ouvir Brotzmann a falar de liberdade, Coverdale a explicar ideias de apelo espiritual ou Mad Mike a evocar revolucionários conceitos de cidadania a partir do seu percurso em Detroit que inspira os participantes a debandarem para os estúdios para se atirarem ao que importa: a criação de visões de futuro. E isso acontece num espaço de excelência: o Lecture Room e o estúdio gigante onde está agora instalado o Symphonic Sound System são equipamentos que impressionam e que retêm muito da escala massiva a que em tempos funcionou este sistema estatal que tanto tinha de ideológico. Estúdios que gravaram grandes orquestras e que agora funcionam como palcos de futuro, como laboratórios de novas ideias. É disso que afinal de contas se trata.

Interessante que o último evento a que assistimos tenha sido o espectáculo de Robot Koch sobre visuais de Mickael Le Goff no Zeiss-Grossplanetarium: Sphere é uma imersiva experiência que nos assalta os sentidos e a imaginação e que nos projecta para uma dimensão paralela. Exactamente o mais profundo dos objectivos de um evento desta natureza: mostrar-nos que existem outros mundos. Podem não ser reais, mas nem por isso deixam de ser apelativos à imersão voluntária.

E se desejarem saber mais, o essencial da edição 2018 da Red Bull Music Academy pode consultar-se aqui.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu