Razat: a liberdade criativa, o álbum e a bass scene portuguesa

 

[TEXTO] Ricardo Miguel Vieira [ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Bruno Neves aka Koa (Warface)

 

Quando trazemos a lume um debate sobre produtores e beatmakers provenientes das Caldas da Rainha, é impossível que os nomes de DJ Ride, Stereossauro e Holly não se intrometam no barulho. São expoentes máximos da cena bass – com uma frutífera ligação ao hip hop – que cresceram naquela cidade bem no centro do continente português que parece ser terreno fértil para a emergência de novos criadores de música ancorada em graves bem gordos.

Razat, natural de Lisboa, é mais uma figura que se tem destacado nos circuitos bass music em Portugal e também nas produções de beats para malhas hip hop. Vem ao caso que o rapaz, com 28 anos e de nome Baltazar Gallego, vive actualmente nas Caldas da Rainha, pelo que não passará despercebida esta ligação entre o local e os seus adventos criativos no mundo sónico – mais não seja porque é ali que se situa uma das poucas universidades do país com uma licenciatura dedicada ao som e imagem, a Escola Superior de Artes e Design do Instituto Politécnico de Leiria.

Estudos à parte – porque tudo o que mexe com criatividade apela aos sentidos e influências capturados ao longo dos anos, ao longo da vida -, Razat tem tido um ano produtivo. Participou no EP Vaporetto Titano de Mike El Nite, está quase a fechar o segundo EP colaborativo com Holly e tem um álbum pensado para… bem, assim que estiver no ponto e corresponder à “fantasia” pessoal de todas as faixas encaixarem na perfeição umas nas outras. Trabalho de sobre, portanto, para o produtor que diz ter “migrado para uma cada vez maior liberdade criativa”, o que certamente o soltou para novos projectos e aventuras.

Actualmente a viver o pináculo das forças das suas ideias, Razat demonstra-se activo e partilha uma mixtape exclusiva no Rimas e Batidas, com produções antigas e outras nunca antes divulgadas. Além disso, aborda toda esta fase criadora que atravessa e revê projectos em marcha e a própria cena bass em Portugal.

 

O que se passa neste momento no universo Razat? Em que tens andado a trabalhar?

Tenho vivido entre os gigs aos fins-de-semana e estúdio non-stop durante a semana. Além das faixas mais direccionadas para a pista de dança que sempre foram a base do projeto, tenho migrado para uma cada vez maior liberdade criativa. Neste momento estou a preparar um EP exclusivamente drum ‘n’ bass, tenho na calha algumas tracks mais trappy/dubstep também para lançar gratuitamente em net labels internacionais. Vou ter também uma track na editora de L.A. Heavy Artillery, que já me apoia e acompanha desde o início do projecto.

Razat a disparar beats até ao outro lado do planeta. E haverá por aí algures planos para um longo?

Estou a preparar um álbum, mas quero demorar o meu tempo, porque é brutal ter a capacidade para fazer muitos estilos de música diferentes e essa liberdade é a base para manter constante a minha capacidade de criação. Por outro lado, um álbum é um formato que tem de ser respeitado como um objecto de arte, e na minha fantasia – espero que realizável – todas as tracks têm de fazer um sentido, percorrer um caminho, ou até mesmo contar uma estória. Sem querer limitar-me e fazer um álbum de um só estilo, quero aprender a manter esta coerência, e isso está a levar o seu tempo. Tenho dado passos significativos para cumprir este objectivo, por isso penso que estou num bom caminho.

As colaborações têm sido um elemento fundamental neste teu trilho criativo…

As colaborações são também uma parte muito importante do meu trabalho, está para sair o primeiro album do L-Ali que ajudei a produzir e que também tem tracks produzidas pelo Pesca e pelo Vulto. Adorei este trabalho e estou ansioso para que saia cá para fora. Entretanto tenho colaborado com mais malta, eu e o Holly já estamos a preparar o nosso segundo EP. Participei também do EP do Mike El Nite com a produção do tema F.E.N.A. II, e no EP de remixes do Holly. A interação com o meu brotha Stereossauro é já uma constante e estamos a preparar umas surpresas para este verão.

Fala-nos desta mix para o ReB: o que contém, que ideias exploras?

Esta mix contém Rimas e Batidas, ahahahah. Mas a sério, quis apresentar o meu universo musical neste momento, as faixas que me inspiram, tracks que fiz recentemente, umas já lançadas e outras exclusivas para esta mix. Quis também inserir uma ou duas tracks ripadas do vinil, a representar a minha recente paixão pelo diggin’. Aconselho a checkar a tracklist.

Como é que vês a bass scene portuguesa?

Depende do que se entende por bass scene. Sem querer ferir susceptibilidades, acho que está viva, com saúde, a crescer e a misturar-se com o genes de outros géneros, no sentido em que influência, é influenciada e evolui como uma espécie, sociedade ou cultura. A scene drum ‘n’ bass está já bem inserida com promotoras como a Kalimodjo, a Kick Snare e a Yellow Stripe que é também uma label que respeito muito com inúmeras releases com os melhores nomes da hard drum ‘n’ bass scene , em digital, CD, e vinil. Por outro lado temos produtores excelentes como os Bass Brothers, o Médio, o Stereossauro, a malta da Yellow Stripe, o Holly, o King Peanuts, o Fat Cap, o Bruno Alison, obviamente o DJ Ride e o R I O T, etc. São muitos os nomes que não referi, tinha de fazer uma lista muito maior.

A mistura entre drum ‘n’ bass e o hip hop em Portugal é cada vez mais visível. Muitos dos nomes que mencionaste anteriormente participam regularmente em produções hip hop.

Acho que o bass music não é tanto uma scene mas mais um conjunto de abordagens artísticas/estéticas que permeiam actualmente o mundo da música. No hip hop isso é evidente com a chegada das sonoridades mais trapish/808/club com nomes como o Regula, NGA e muitos outros, e em sonoridades mais cloudy com a malta da ASTROrecords, Mike El Nite, Prof Jam, etc. Ao mesmo tempo, os produtores de bass music, como eu, começam cada vez mais a ver no hip hop portas abertas para a expansão criativa, resultando em colaborações interessantíssimas que poderão vir a moldar o futuro do hip hop tuga.

O que é que os próximos meses vão implicar na tua actividade de produção?

Vou continuar a trabalhar no álbum, tenho dezenas de beats prontos, alguns que até incluí nesta mix. Vou começar a procurar colaborações, mas também não quero revelar muito. Vou continuar a lançar faixas soltas com alguma regularidade e, como já referi, estou a acabar o segundo EP com o meu puto Holly. Também está quase a sair o álbum do L-Ali, mal posso esperar. Gigs porque é Verão e, entre elas, estúdio, estúdio, estúdio.

 

[TRACKLIST]

[Razat] Spell (Original Beat) – Unreleased
[Razat] Morning Mood (Original Mix)
[Razat] Driving Pamela Insane (Original Mix) – Unreleased
[Kendrick Lamar] King Kunta (Island Riot, Casual Connection Rework)
[Fuse] Psicofonia (Razat Bootleg) – Unreleased
[Razat] Gunshots (Original Mix) – Unreleased
[Razat] Sloppy Sex (Original Mix) – Unreleased
[Holly feat. Mike El Nite] This Nite
[Razat] Just Another Trip (Original Beat) – Unreleased
[Special Request] Lockjaw (Akkord Remix)
[DJ Luck & MC Neat] A Little Bit Of Luck (Original Mix)
[Holly feat. Mike El Nite] This Nite (Razat Remix)
[Born I Music] Supreme Mathematics (Prod. BLVCK)
[Mike El Nite] F.E.N.A. II (Prod. Razat)
[DJ Funk] Booty Clap (Ookay Remix)
[L-ALI] Diamante (Prod. Razat) – Unreleased
[Mr. Carmack] Ego (Original Mix)
[L-ALI] Só Barulho (Prod. Razat) – Unreleased
[Mr. Carmack] Last Two Days in California
[Razat & Holly] Darkmoovin’ (Original Mix)
[DJ Rashad feat. Spinn & Taso] Pass That Shit
[L-ALI feat. Mike El Nite] – Bang Hello (Prod. Razat)
[Razat] Sound Organized (Original Mix) – Unreleased
[Razat] MSTKN (Original Mix) – Unreleased
[Razat] Prince Of Filth (Original Beat) – Unreleased
[Alix Perez & DJ Spinn & DJ Rashad] Make it Worth
[DJ Hype] And Remember Folks (Vinyl)
[Nas] New York State of Mind (Vinyl)
[Mefjus] Distantia (Original Mix)
[Holly & Weirdinside] Late (Medio Remix)
[Alix Perez feat. Peven Everett & Spectrasoul & Calibre] Forsaken

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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