Rapsody // Eve

[TEXTO] Pedro João Santos 

Ainda há pouco tempo se falava em Rapsody como uma convidada especial. Há quatro anos, quando To Pimp a Butterfly chegava sorrateiramente às lojas, o manifesto lapidar de música e humanidade também servia de apresentação formal ao mundo deste diamante bruto da Carolina do Norte:‌ “Let me talk my Stu Scott, ‘scuse me on my Tupac”. Sorveu o chá, partiu respeitosamente a loiça e voltou a fazê-lo em “Without You”, que roubou, com graciosa impiedade, a Anderson .Paak. Mas já cá anda há mais de uma década.

Rima suave, deslize e salto por uma cosmovisão negra de orgulho e vitalidade, consciência e tempero. Esta é Marlanna Evans, que nos aguçou o apetite em 2016 e o saciou em 2017 com Laila’s Wisdom (sucessor do menos conhecido The Idea of Beautiful), o som de uma versista a instalar-se no trono. O seu terceiro longa-duração, produzido na sua parte de leão por 9th Wonder e Eric G, consagra-a em tempo real. Rapsody imerge nas águas profundas da história, do som, do panteão do rap e dias dourados. Finta as areias movediças da nostalgia com a suavidade que lhe reconhecemos.

O que Laila oferecia de comemoração e brilho, este sucessor devolve nas palavras. E a austeridade dos ensinamentos desse disco é convertida, neste, na assertividade das pautas e texturas — mais ou menos monocromáticas, não deixam de ser um complemento ao generoso dom da artista. O som matricial de Eve está na abertura, “Nina”, cujo piano gravita em torno da batida de mármore, na órbita da voz emprestada por Nina Simone. Gradualmente, a noite faz-se dia: a segunda metade recorta um tecido suave, de fibra clássica e um maior fôlego instrumental. Depois dos juramentos de poder e honra, inunda-nos o doce néctar que corre na tessitura e poesia de Rapsody… como é natural.

Da sapiente avó que é Laila, transitamos para Eve, a mulher original. É sob o comando dessa figura bíblica que eclode um panteão de ícones. O disco apropria-se de um formato já desembrulhado em 2019 por Jamila Woods no belíssimo LEGACY! LEGACY!: cada faixa é dedicada a um pioneiro, que a baptiza. Woods fez um inventário da negritude criativa. Apesar de Rapsody passar por nomes de raiz como a abolicionista Sojourner Truth e a activista dos direitos civis Myrlie Evers-Williams, foca-se num imaginário menos tradicional, de Tyra Banks até Whoopi Goldberg, polímatas do entretenimento. São os novos clássicos que virão a modelar gerações. Com uma divergência de Woods, porque todas se escrevem no feminino — e uma correcção: pela prova de Eve, o seu impacto não se conjuga no futuro; já é mais que mensurável.



“Nobody will tell you how to survive as a black woman”, sentencia a poeta Reyna Biddy num interlúdio. É o resumo possível de um disco que vem historiar as mulheres que inspiraram Rapsody, por terem feito estrada sem manual de instruções: a sua natureza tornou-as ameaças, o mundo lançou-lhes anti-corpos sem razão. Embora as faixas de Eve não procurem enjaular estas mulheres no tempo (ou em quatro minutos), os seus traços irrompem pelo ar, obrigando a que 2019 as oiça. E não são apenas as que têm o seu nome na contracapa: mulheres de países, credos e cores diferentes pontuam todo o disco, codificadas em samples e referências. É fácil perceber quando aparecem Erykah Badu, Donna Summer e Mary J. Blige; agora tentem encontrar Björk

Em “Aaliyah”, há uma revivescência literal: a dias do 18.º aniversário da sua morte, Rapsody desenhou o mistério e a sensualidade que a tornaram um ícone, para um auditório que hoje só ouve falar dela, sem poder ouvir a sua música de forma legal. Em “Hatsheptut”, com o nome da primeira faraó mulher do Egipto, não há ressurreição: há despertar. Há quanto tempo não ouvíamos Queen Latifah atirar-se às barras? Demasiado:‌ balançando sensibilidade e astúcia, canta a longa linhagem feminina em que ela mesma é um farol.

Por tudo isto, Eve é serviço público. É mais um passo certeiro no sentido de acabar com a separação da mulher MC em relação ao seu congénere masculino, claro. Mas a energia dominante é séria, alegre, feminista: concêntrica a uma utopia e, em simultâneo, à sua rejeição — aqui nos situamos hoje‌ (quando opta pelo teletransporte, ainda assim, produz ouro maciço, como o prova ao lado de GZA e D’Angelo em “Ibtihaj”). E isso não invalida levar-se, de vez em quando, um pouco menos a sério, como em “Michelle”: “All my girls got big ol’ butts/‌ Shake it!”

Em entrevista à NPR, Rapsody citava Nina Simone para definir a sua missão no mundo das rimas: “A função de um artista, no que me diz respeito, é reflectir os tempos”. Em Eve, a sua missão não foi cumprida:‌ foi sublimada.


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