18 anos da morte de Aaliyah: memórias, CDs partidos e realidades alternativas

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Direitos Reservados

No 18º aniversário da morte de Aaliyah, a sua discografia voltou a garantir um loop eterno, mas lancei-me noutro passatempo. Talvez uma forma bizarra de luto. Tenho mexido obsessivamente nos arquivos do acidente de avião que, a 25 de Agosto de 2001, vitimou oito tripulantes: a cantora e actriz de 22 anos e os oito profissionais e amigos que a acompanharam nas filmagens do teledisco para “Rock The Boat”, nas Bahamas.

Pouco se espreme das aberturas de telejornal, plasmando a aeronave despedaçada e os sacos com cadáveres… Sujeitam Aaliyah aos trâmites comuns da celebridade falecida: a sua cara emoldurada por desenhos da ilha onde se despenhou, indicadores como “Star Tragedy” e o intervalo 1979-2001. No máximo, pela contaminação emocional do discurso jornalístico, lê-se a violência especial desta notícia. A Variety anuncia a vítima como “prodígio”; a MTV sublinha o “talento, vitalidade e graciosidade que fizeram dela uma artista tão significante, em tão tenra idade”.

Os fãs, contudo, são viscerais. As suas declarações sem filtro, os seus olhares paralisados em água. Transformam os cartazes promocionais do seu derradeiro álbum, pelas ruas, em locais de vigília, e estão presentes no seu funeral, cuja reportagem tenta não ser intrusiva — missão impossível, mas nobre. Quando uma carruagem recebe os restos mortais de Aaliyah, ouve-se um grito sentido, cortado pelo aplauso:‌ “God bless your soul”. Alguns familiares agradecem, imiscuindo-se na procissão‌/profusão de dezenas, entre as quais Missy Elliott, um terço do esquadrão perfeito com Aaliyah e Timbaland. O último, que não é visto, embora tenha marcado presença, escreveu:‌ “Ela era como [do meu] sangue, e perdi sangue. (…) A pessoa mais especial que já conheci.”

Nunca serão demais as palavras tecidas à sua lembrança, até como unidade de medida para o seu impacto. Projectam o eco que todas as suas marcas nesta Terra continuam a ter: esta é uma evidência pesada, mas fácil de interceptar. Se já navegaram águas lamacentas para chegar ao baú de reportagens e testemunhos que imortalizam esta tragédia, basta andar um pouco para baixo.

As secções de comentários, em particular no YouTube, são possivelmente o repositório mais rico de memória e luto por ela. Um espaço seguro e uma fortificação de amor e respeito; as palavras que apagam da sua história o ponto final. Nestas, o seu estilo continua a ser a pedra-de-toque que balança o sensual com o misterioso. Os seus discos permanecem marcos na música gravada: One in a Million é um rasgo sóbrio de inovação, o “álbum vermelho”‌ (último e homónimo de Aaliyah) é a bíblia do r&b progressivo — e mesmo Age Ain’t Nothin’ but a Number, a sua estreia co-produzida pelo seu abusador R. Kelly, não se apaga.



O mais enternecedor é perceber que estes são arquivos extremamente pessoais de uma comunidade negra e norte-americana. Abundam os pontos de contacto, trazendo à mente uma visão global em que Aaliyah é a ponte entre milhares de infâncias. Recordam-se dias de limpar a casa ao som destes discos, performances em espectáculos de talentos ao som de “Try Again”‌ e‌ “We Need a Resolution”‌ e equipas com o nome “Aaliyah’s Angels”.

É a sua pureza imanente que, nestas mensagens, vive a paredes-meias com uma aresta oculta, lacónica e explosiva. Também passou para o lado de cá: “Quando éramos crianças, dei uma bofetada à minha irmã por partir o meu CD Aaliyah“, conta “TabithaLynn”, e é difícil culpá-la. Outra evoca a “sova descomunal” que, com cinco anos, levou da irmã “quando [esta] descobriu, meses mais tarde”, que lhe tinha roubado esse disco.

Esse álbum de Aaliyah foi um artefacto que inspirou não só cobiça, mas desejo puro. “Lembro-me que a minha tia me levou ao centro comercial”, recorda “sweetsarahs”, “e disse ‘podes escolher uma coisa […] não importa o preço, mas só podes escolher uma’. Eu era nova e claramente não entendia o que poderia ter escolhido, mas soube imediatamente que queria o álbum da Aaliyah”. E conseguiu, muitas vezes, o que mais nada conseguiu: as tréguas da birra. Reproduzindo o relato de “aqualablush”, o longa-duração era “a ÚNICA forma de fazer com que a minha filha parasse de chorar”.

Para alguns, foi o prelúdio para um cataclismo maior, mergulhando 2001 num quadro dantesco:‌ “Traz-me de volta àquela horrível manhã de Domingo. Fui abanado e acordado freneticamente pelo meu irmão para ver [a notícia]. Tinha comprado o novo álbum há quatro dias […] E tudo duas semanas antes do 11 de Setembro. O ano de 2001 tornou-se no ano mais doloroso, feio, de partir o coração e mudar o mundo de sempre, e ninguém previu absolutamente nada.”

A curadoria que fiz destes comentários selecciona, para já, apenas metade da história. Pensei em omitir uma porção incómoda de comentários, mas são parte integrante. É como uma transição abrupta numa compilação de vídeos de Aaliyah no seu último ano de vida: idealiza-se um oásis nas gravações de “Rock The Boat”, em que a artista se mostra divertida e carismática, para ser brutalmente interrompido com o anúncio da sua morte em horário nobre. 



18 anos passados, sarado o trauma, espreita outro rude despertar: descende-se num túnel de teorias da conspiração e comparações insanas onde a luz é um multiverso do “e se?”. Cada cenário escancara as portas de uma realidade alternativa.

Os mais optimistas concentram-se num hipotético quarto álbum: primeiro, como prova de (ainda) maior maturidade vocal e experimental. Depois, como epicentro de um domínio transversal à moda e televisão, para somar ao cinema, em que o investimento de Aaliyah já era bem real (protagonizou Romeu Deve Morrer e Rainha dos Malditos, e a sua morte obrigou a que fosse substituída nas sequelas de Matrix). Logo depois, Beyoncé vem à baila, num panorama em que Aaliyah a tornaria redundante, desautorizada do seu sucesso. Os fanáticos do lado de lá da barricada retorquem com a palidez das vendas de Aaliyah, que tiveram na morte da artista uma alavanca. É um imbróglio cáustico, uma discussão desnecessária, mas compreensível: é natureza humana.

A devoção por Aaliyah e a sua imagem evanescente, trazida pela morte, facultou uma via rápida de caminhos hipotéticos. É instintivo: perturba-nos não lhe conhecer um desfecho real, verosímil, como ela o merecia. Como tal, gera-se uma realidade alternativa para cada possibilidade, cada pensamento. Há aquela em que Aaliyah teria dizimado a carreira de Beyoncé e o exacto contrário; também há a eventualidade remota de que coexistiriam como amigas ou pares. Há aquelas em que Aaliyah perdia mais fôlego comercial, acelerava na experimentação ou dela desistia…  Há a realidade alternativa em que o encontro de Aaliyah e o seu ídolo musical, Trent Reznor dos Nine Inch Nails, ter-se-ia materializado e produzido música indescritível…

E para quê? Quem sabe o que teria acontecido? A sobrevivência é um romance. A única realidade alternativa que nos deve preocupar é a que ainda pode acontecer. É aquela em que Aaliyah, no fim da década de 2010, vê o seu legado acessível a quem o queira explorar. Não acontece hoje devido a Barry Henkerson, tio e manager da cantora, que nos priva de uma reedição digital, em CD ou vinil da sua discografia. Apenas o álbum de estreia, gravado com o seu abusador, está prontamente disponível. (Henkerson anunciou na triste efeméride que os trabalhos de Aaliyah chegarão ao streaming em Janeiro de 2020 — recomenda-se um alto grau de desconfiança.)

Se quiserem One in a Million ou Aaliyah em vinil, podem apontar para as centenas de euros; os CDs só se encontram em segunda mão, com preços flutuantes. Já não se exigia a cera nem o plástico, bastavam ter este material nas plataformas de streaming, onde as músicas de Aaliyah estão bloqueadas, e só existem por via de compilações ilegais. De facto, não poder ouvir “Try Again”, “Are You That Somebody?”‌ ou “More Than a Woman” a qualquer instante parece uma realidade alternativa…



Não admira, então, que o culto de Aaliyah se faça em espaços como o YouTube, onde os discos completos estão à mão de semear. Os ouvintes de outrora, com uma mão-cheia de novos iluminados, chamam a atenção a este facto. “Não consigo comprá-lo em nenhum sítio”, lamenta a pessoa que dera à irmã uma galheta por lhe ter partido o “álbum vermelho”. “Fico contente por alguém o ter colocado [aqui]. Todas as memórias que este CD traz de volta…”

A música activa essa cosmovisão de Aaliyah, recupera a felicidade que nos trouxe e volta a mexer na ferida. “Eu e a minha família chorámos silenciosamente durante todo esse fim-de-semana, e não somos pessoas de chorar. Sentíamos que a conhecíamos”, lê-se num de vários testemunhos semelhantes, cada um igualmente vívido, como os das crianças que viram o céu cobrir-se de nuvens durante o seu recreio.

Não há realidade alternativa que contorne esse facto:‌ Aaliyah desapareceu. A “Baby Girl”‌ não vai voltar. Mas o seu legado está à espera, assim como gerações inteiras que ainda não o puderam abraçar. Quando acontecer, atenuar-se-á o sabor amargo nas nossas bocas, para uma tristeza mais pacífica, um agridoce mais real.

A reportagem do funeral expressa isto de forma mais eloquente:‌ a câmara prende-se às caras inconsoláveis dos fãs, encostados a uma grade; alguns apáticos, outros em pranto controlado, ainda a digerir a notícia. Mas todos dançam levemente ao som de “Read Between the Lines”, faixa do derradeiro álbum de Aaliyah. 

Sempre que temos de fazer luto por uma voz destas, o corpo deixa-nos e o luto é individual, mas a arte acaba por nos reunir. Para que voltemos a contar estas histórias. Até sempre, “Baby Girl”.


ReB Team

ReB Team

Facebook.com/rimasebatidas
Twitter: @rimasebatidas
Instagram: @rimasebatidas
SoundCloud.com/rimasebatidas
YouTube.com/c/rimasebatidas
Mixcloud.com/rimasebatidas
ReB Team