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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Sebastião Santana

As vibrações subterrâneas do rap português fizeram-se sentir na Margem Sul.

RAIA Sesh no Cine Incrível: a defesa da essência

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Sebastião Santana

Em plena época carnavalesca, a parada teve início em Almada, no Cine Incrível, onde, sem disfarces ou personagens, a noite foi de rap puro e duro, e à moda antiga.

Na passada sexta-feira, o desfile teve início no Camboja, onde, do alto da montanha, Selecta convidava os nativos a povoarem as planícies baixas, e a aquecerem com ele a pista que mais tarde se faria sentir abrasadora. Os almadenses ameaçavam timidez, máscara essa que caiu a tempo do primeiro showcase. Tom Freakin’ Soyer, filho das ruas da Margem Sul, acompanhado pelo DJ Sahid, subiu ao palco para acordar os seus conterrâneos que, faixa a faixa, se foram revelando. Esta era uma noite da palavra, e a plateia centrava as atenções no que TOM tinha a dizer à sua terra – histórias pela MS que criou o rapper para o mundo do rap. E, como já se sabe, bom filho à casa torna para contar o que viveu lá fora.

Entre Guarda Factos e MAD, ainda houve espaço para uma faixa dos primórdios. E por falar em primórdios, se a noite era de hip hop, não podia faltar o scratch entre versos. Desta feita, e sem prévia combinação, DJ Nel’Assassin honrou-nos (afinal, são 20 anos nestas andanças) com uns “toques” nos pratos, num dos momentos marcantes da noite. Assim, já com o público em perfeita sintonia, TOM fechou a primeira parte do jogo a jogar em casa com a “Squad”. Em casa, as condições estavam todas reunidas para vencer — e foi isso que aconteceu.

No entanto, a noite era inevitavelmente dos ORTEUM. Com Bdjoy a trabalhar a audiência, a tríade caseira insurgiu-se, por volta das 12 badaladas, com a deixa “o rap tuga é uma m****”. Almada virou último reduto de defesa das rimas e batidas, e o emblemático Cine Incrível ganhou forma de cave subterrânea, onde o underground reina, e os braços flutuam no ar denso – respirava-se hip hop na sala.

Segunda parte, novas equipas, novo DJ. Ketzal assumiu a árdua tarefa de lavar a loiça, preparando tudo para que os ORTEUM a partissem. E se “o rap tuga é uma m****”, convidamos daí os nova-iorquinos para testemunhar uma noite de hip hop em Almada, liderada pelos guardiões do rap underground. Não há Griselda que lhes valha.

Por isso, “se queres entrar no jogo, então põe-te à vontade, anda”. Os ORTEUM partiam em vantagem, e equipa que ganha não mexe. Não há segredos para uma noite de “rap do mais puro, rap do mais duro”. Basta meia dúzia de microfones (e um ou outro problema técnico nos mesmos), um DJ de unhas afiadas, e barras decoradas por todos, com beatbox (de Pika) e freestyle pelo meio. 

Ainda antes do apito (ou do beat) final, TOM juntou-se a Tilt, Nero e Mass, para espremer a noite até à última gota. No fim, não havia alma viva que não desse sinal de vida. Vivo estava o hip hop, e mais vívido que nunca naquela hora. 

Foi uma noite da cultura, no seu verdadeiro sentido, em que se celebrou a vitalidade do hip hop em português — e Almada mostrou que não se deixa enganar e que existe ali um local seguro para guardar um certo tipo de valores. Da próxima, lembrem-se: “ORTEUM é a cura quando a cultura não flui”.

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