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Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 22/01/2026

Traveling Light ganhou vida em Lisboa.

Rafael Toral na Culturgest: o jazz reduzido à sua matéria primordial

Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 22/01/2026

No princípio era o palco, a escuridão e um som, agudo e titubeante. Mas do quê, ao certo? Ainda sem nenhuma forma possível de situar em palco a olho nu, começamos por escutar esse ruído estridente que parece tartamudear como uma ave pequena, que se declara sem se identificar. Percorremos a ficha técnica e encontramos naquelas notas de rodapé um fliscorne (instrumento da família dos trompetes, com uma campana mais ampla e alongada). Pensamos, então, ter identificado aquele estranho som que nos intriga, e que tinta fez correr nesta breve introdução. Mas não. 

Era ele, o homem, com todas as suas contradições, que saía das brumas para se revelar inteiro. Rafael Toral, homem de vários talentos, caminha lentamente sobre as tábuas do Auditório Emílio Rui Vilar, na Culturgest, em Lisboa, movendo-se pelo espaço numa marcha lenta e coordenada, como se de um exercício de investigação corporal se tratasse. A música física do Space Program, composta pelas mesmas ferramentas electrónicas que o músico desenvolveu durante a melhor parte deste século, na “segunda fase” de uma carreira inclassificável, serviu de mote para o arranque do terceiro e último espetáculo de apresentação do seu novo álbum, Traveling Light

Foi esse disco, lançado em 2025 pela Drag City, depois de um surpreendente Spectral Evolution ter arrebatado a crítica especializada (Wire, Quietus, mas também a Pitchfork, que o colocou na sua lista de melhores do ano), que o músico de Lisboa se encarregou de apresentar durante a melhor parte de uma hora, de forma mais ou menos fiel. Já de volta à guitarra, que orquestra mais do que navega, propondo pequenas sugestões que guiam a peça até à sua forma final, levou-nos por territórios sublimes de evasão, fuga e luz, plasmados, aliás, nas longas exposições que cobriam a tela que tinha detrás de si, com trilhos de luz a sobrevoar o crepúsculo dos céus (as tais luzes viajantes). 

Depois de se ter afastado desse instrumento, no período correspondente ao Space Program (2004-2017), eis que encontramos Toral na sua forma original, isto é, de volta às seis cordas de aço. Guiado pela genialidade dos standards, um fascínio que já havia informado a construção de Spectral Evolution, o músico conferiu, no concerto em Lisboa, novas formas a clássicos de Billie Holiday, Duke Ellington e Frank Sinatra, reconfigurando os seus arranjos intemporais. E não o fez sozinho.

Tal como havia acontecido em Braga, na edição de 2025 do festival Semibreve, o músico fez-se acompanhar por Bruno Parrinha (clariente), Rodrigo Amado (saxofone tenor), Yaw Tembe (fliscorne) e Clara Saleiro (flauta tranversal). Com eles, os novos velhos mundos do jazz foram reduzidos à sua matéria primordial, num encantatório (e encantador) exercício de extração electroacústica que aposta na beleza sem perder o rastilho da experimentação.

O agradecimento, no fim do espetáculo, justifica-se. Pelo ciclo que se conclui; pela plateia que reuniu diante de si, em justa ovação de pé; pelo atrevimento que é continuarmos a entregar-nos ao desconhecido, neste ato de fé colectivo a que chamamos de música ao vivo. “Obrigado por a apoiarem”, disse, antes de partir para uma próxima etapa sem rumo definido. Não saber o que esperar dele é uma bênção.


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