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Fotografia: Sara Zita Correia

Um regresso ao Brasil através do som.

Rabu Mazda sobre Todo Mundo Sabe: “É um conceito de inclusão geral do conhecimento e ideias de todos”

Fotografia: Sara Zita Correia

Estávamos em Abril e, a partir do Rio de Janeiro, a editora 40% Foda/Maneiríssimo publicava uma mensagem importante: Todo Mundo Sabe, um manifesto em seis partes que unia “funk 150, tarraxinha, house, kuduro e qualquer outro estilo que existe, porque no fundo isso aqui pode ser qualquer coisa”.

O autor dessa particular síntese sonora era Rabu Mazda, aka Leonardo Bindilatti, parte de grupos como os Iguanas ou Putas Bêbadas, por exemplo, e peça fulcral da parte técnica de grande parte dos discos da Cafetra Records. Na Oficina Radiofónica da última semana, explora-se aquilo que se ouve no projecto:

Todo Mundo Sabe é um ultra-psicadélico (vocês sabem, sentimento de deslocação da realidade, efeito caleidoscópico de confusão dos sentidos, alteração das noções de contínuo temporal e espacial) e sincrético exercício que nos propõe algo de novo ao tomar uma boa parte do que já se conhece – house e r&b, electrónica glitch, pads new age, tensão pós-dubstep, cadências afro-digitais de diferentes velocidades, do tarraxo ao kuduro, sampling da escola hip hop, etc  – para depois mergulhar o conjunto num caldo de líquido metal cromado de onde sai um reluzente e sonoro corpo escultórico que tem tanto de Anish Kapoor como de El Anatsui.

A música de Rabu Mazda não se detém numa fórmula e procura no cruzamento de referências, pulsares e ideias uma nova urgência para as pistas, algo que traduza aquele futuro que mesmo estando apenas a cinco minutos de distância se torna permanentemente inalcançável porque tão prenhe de possibilidades. Leonardo tenta assim o impossível: antecipar esse multi-dimensional futuro através de uma condensação de elementos que tem tanto de vertigem quanto de excitação em estado puro. Porque, importante que se diga, o som de Todo Mundo Sabe é expansivo, reluzentemente optimista, cheio de sol, cosmopolita, aberto, generoso e carregado de amor, tem Luanda e Joanesburgo e Lisboa e Londres ou Cartagena e Santo Antão, tem gente de todas as formas e sabores, tem ritmos de muitas velocidades e tem futuros de todos os passados.”

Por e-mail, o músico auto-didacta falou-nos sobre as ligações entre as suas empreitadas, a conexão com o selo brasileiro e, entre outras coisas, os samples que preenchem a sua música.



Como é que se dá um salto entre Putas Bêbadas e Rabu Mazda? Ou não é um salto?…

Rabu Mazda sou eu e eu comecei por aprender a tocar e a fazer música sozinho. Mesmo depois de começar a tocar com os meus amigos e termos criado a Cafetra, nunca parei de fazer música sozinho. Por isso acho que não é um salto, tem só a ver com eu gostar de música e querer fazer música que gosto de ouvir, independentemente dos estilos.

O que dirias que liga todos os projectos em que tens colaborado? Há uma linha condutora? Ou o teu output musical é apenas um reflexo do caos do universo?

Acho que têm uma linha condutora, sim. Eu gosto de ritmos rápidos e frenéticos e gosto muito de melodias e harmonias simples que me tragam uma certa sensação de nostalgia. Os meus pais são brasileiros, por isso eu cresci a ouvir música brasileira e acho que esse lado melódico, harmonioso e nostálgico, que muita da música brasileira tem, acabou por ficar comigo e acho que cada um dos projectos com que eu já colaborei e aqueles com que ainda colaboro, cada um à sua maneira, têm um pouco disso. Há também outro factor que os liga que é eu ter produzido a maioria dos discos que foram editados. Ou seja, em todos esses discos para além de eu tocar ou cantar, eu também os gravei e misturei e, por causa disso, todos têm a minha mão, tanto em termos musicais como na sonoridade dos discos.

Falemos de Todo Mundo Sabe: em primeiro lugar, como é que este disco chegou à 40%Foda?

Eu enviei o disco à 40%Foda/Maneirissimo por sugestão do Diogo Vasconcelos da Extended Records. Eu achei que era uma boa ideia e que fazia sentido lançar este disco pela 40%. Felizmente eles gostaram muito do disco e decidiram fazer a edição. Eles são muito fixes, gosto muito da música que eles editam e o objectivo deles para este ano é lançarem um disco por mês até o final do ano — até agora eles têm cumprido.

O disco tem um conceito algo delirante: na apresentação fala-se da dança como um conceito libertário. É isso que todo o mundo sabe? Que a dança liberta?

O titulo do disco vem de referência a uma música antiga minha em que eu canto “Toda a gente sabe quem eu sou”. Mas também porque “todo mundo sabe” é uma frase bastante simples e auto-explicativa, mas que dá para cada um interpretar o que quiser dela, assim como tu fizeste. E no fundo é mesmo isso, “todo mundo sabe” é um conceito de inclusão geral do conhecimento e ideias de todos.

A música que apresentas neste EP cruza uma série de latitudes, vai de África à América mais reluzente do r&b, passa pela Europa, pois claro. Quando tentas descrever o que fazes enquanto Rabu Mazda a alguém que porventura possa ainda não te ter ouvido, como é que descreves o teu som?

A música que faço enquanto Rabu Mazda foi sempre um processo de aprendizagem e exploração e é uma forma de eu experimentar e pôr em prática novas ideias, e que porventura está em constante desenvolvimento e mutação, e que já passou por várias fases. Mas acho que no geral o meu som tem um lado festivo, noctívago e nostálgico ao mesmo tempo que evoca a um imaginário colorido e de positividade. Como referi antes, a minha música, normalmente, é rápida e frenética e também é muito preenchida melodicamente e, por isso, pode-se dizer que, por vezes, ela tem um certo jeito pop. Também gosto de usar vozes na minha música independentemente de, por vezes, ser apenas um apontamento rítmico, porque sinto que a voz é o elemento que todos nós, enquanto pessoas, identificamos facilmente e sinto que isso fortalece as músicas e, ao mesmo tempo, traz-lhes esse lado humano.

Há muitos samples enterrados nos escombros da tua música: onde é que pescas estes excertos?

Eu tenho um arquivo de samples que fui fazendo ao longo dos anos gravando excertos de músicas, vídeos e jogos. Alguns samples são de gravações que fiz com o telemóvel de sons da rua tipo alarmes, pássaros, carros. Outros são mesmo packs de samples de caixas de ritmos, acapellas ou de efeitos sonoros como explosões, tiros, esse tipo de coisas, que vou sacando. Neste disco, a maioria dos samples que uso são samples de vozes. Alguns deles eu cantei, gravei e samplei. Outros são do meu arquivo e a maioria deles são de acapellas de músicas funk do Brasil, mas também no caso da música “Cão d’Água” eu uso samples de vozes de Bollywood. Também há coisas que acontecem por acaso, como na música “Tou em Casa”: quando eu estava a trabalhar nela houve um alarme que disparou na minha rua, e que por acaso encaixava no ritmo e tom da música. Acabei por gravar e usar o som do alarme nela. Não é muito óbvio, mas ele esta lá e dá uma certa tensão a essa música. É sempre fixe quando essas coisas acontecem.

Entendes a tua música como estando ligado a um contexto, a um lugar, a uma época ou momento específico? É um retrato de alguma coisa concreta? Ou podia estar a ser feita daqui a 30 anos a bordo de uma estação orbital?

Como disse antes, eu sou filho de brasileiros e, antes de vir para Lisboa, cresci na Rinchoa, na linha de Sintra, onde mora uma grande comunidade africana. Até ao início da minha adolescência, os meus amigos eram maioritariamente africanos ou filhos de africanos, então eu acabei por crescer em contacto com todas essas culturas diferentes e acho que isso acabou por passar para a música que faço. Normalmente as minhas músicas são feitas a seu tempo e com algum distanciamento entre elas. Por vezes, eu demoro mesmo anos a fechar uma ideia, como no caso de algumas das músicas deste disco, cujas ideias base eu já tinha esboçado desde o inicio da década passada. Por isso, acho que cada uma tem o seu contexto, mas no geral eu acho que a minha música esta ligada directamente a esta época em que vivemos: tem esse lado frenético, em que há a necessidade de conhecer e abranger várias coisas ao mesmo tempo, de misturar as coisas e incluir diferentes estilos e vivências. Nesse sentido, é uma época entusiasmante, porque existe uma grande facilidade, tanto para ouvir e conhecer, como para fazer música e isso é um privilégio dos nossos tempos.

Quem identificas neste momento como teus pares? Quem é que está a fazer música de que te sintas espiritualmente ou esteticamente próximo?

Eu tenho ouvido muita música que tem sido feita aqui em Portugal de que gosto e com que me identifico, por isso vou só dizer alguns nomes começando pelo mais óbvio que são os meus amigos da Cafetra Records, claro. Estamos sempre a trocar ideias e a ouvir a música uns dos outros e isso dá-nos sempre motivação para continuar. Sempre gostei muito da música do Luar Domatrix, que é o Rodolfo Brito, metade de Yong Yong. O pessoal do colectivo Colinas como o Funcionário, Simão Simões, trash CAN e a Noiva tem feito cenas muito fixes. Os meus amigos Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini, Van Ayres e o Bruno Silva (Ondness e Serpente). Os rapazes da RS Produções, Normal Nada, apesar de ele estar um pouco desaparecido ultimamente. Também gosto muito dos Tradição, e do pessoal do Barreiro como os Scorpions, Estranhas Entranhas, Doum, Opus Pistorum e o George Silver. Gosto muito dos Niagara, Polido, Silvestre, Bernardo Álvares aka Sã Bernardo, Calhau!, Nu No, Jejuno. O pessoal do colectivo Berga Malhas, do Porto, e editoras como a Rotten/Fresh, Urubu Tapes, Labareda, Favela Discos, Príncipe, Holuzam, Extended, Zabra, Mera, todas têm lançado música de que gosto. Estes são só alguns mas no geral acho que todo este pessoal tem uma linguagem muito própria de que gosto.

Podes falar-nos um pouco do teu arsenal de criação? Que ferramentas usas?

Ultimamente eu não tenho usado nada para além do computador e um teclado midi da M-Audio para fazer música. Eu uso o Ableton Live para gravar e produzir e já o uso há mais de dez anos. Tenho umas colunas Adam F5 e um radio da Sony que tenho desde sempre, e que para dizer a verdade é com ele que faço a escuta a maior parte das vezes.

Já pensaste como vai ser quando puderes escutar isto num clube com muita gente a dar o corpo ao teu manifesto?

Sim, e estou ansioso para poder tocar ao vivo e ver a reacção das pessoas e ouvir estas músicas nesse contexto de festa.

Vêm aí novos trabalhos, certo? Que nos podes adiantar sobre o futuro próximo?

Sim. Tenho um disco que já está pronto e que está para sair depois do Verão por uma editora de cá, mas de que ainda não posso dizer o nome. E estou a preparar um disco, com um registo um pouco diferente, que vai sair pela Cafetra Records e que espero conseguir lançar até ao final deste ano.


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