Quatro beats com assinatura de Madlib para os estudiosos do sampling

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Nos dias que correm é completamente normal ouvirmos batidas desprovidas de sampling, técnica sobre a qual o hip hop se alicerçou desde a sua génese até há bem pouco tempo. A competição é feroz e a música consome-se a um ritmo alucinante, o que talvez explique a “falta de tempo” dos produtores para procurarem material nos arquivos — físicos ou digitais — para as suas composições. Falamos de sampling na sua forma mais tradicional possível, pois claro, porque a técnica de corte e costura de sons continua bem viva, tal é a quantidade de loop packs hoje disponíveis nas malhas da Internet, que queima por completo a etapa do diggin’ e, consequentemente, toda a química que liga o artista à obra original.

Em estreia absoluta em Portugal no final deste mês, pela mão do ID, Madlib é um daqueles nomes que vamos ter sempre debaixo da língua quando o tema de conversa é este belo processo que leva um pedaço de áudio extraído de uma faixa a uma batida completamente nova. E para chegar onde chegou, Otis Jackson Jr. não se limitou a mimicar aqueles que lhe “ensinaram” o ofício — na música de Madlib há uma espessa camada de filtros e equalizadores que ajudam a desfigurar o som original, secções de ritmos com swings exóticos e um pulso firme que lhe permite disparar os samples com milissegundos de precisão.

O Rimas e Batidas esteve à conversa com Metamorfiko, que integra a comitiva de COLÓNIA CALÚNIA, colectivo que vai actuar no ID um par de horas antes de Madlib. O produtor português considera-o uma das suas grandes inspirações para desenterrar e reutilizar canções que ficaram perdidas no tempo.

“Dou valor ao que samplo e tento sempre saber alguma coisa sobre o artista em si”, explicou sobre a importância que considera existir na ligação íntima entre o artesão e o material que está prestes a servir de base para uma nova composição. O diggin’, embora digital, não é esquecido, e às vezes é preciso saber qual a melhor plataforma para o fazer: “Muita coisa está na net e é difícil arranjar algo que poucos produtores têm. Lembro-me da época do eMule — eu ia lá sacar sons antigos, que entretanto já fui à procura no YouTube e não estão lá. É incrível.”

Em jeito de desafio, propusemos a Metamorfiko escolher alguns dos beats assinados por Madlib que mais o marcaram durante o processo de aprendizagem na arte do sampling.


[Madvillain] “Rhinestone Cowboy”

“Não vou falar do impacto que este som e esta colaboração tiveram no mundo do hip hop, todos sabem disso. O Madvillainy é uma fonte de inspiração para qualquer producer que goste de samplar. Vais ao WhoSampled, checas a fonte do sample e ficas tipo, ‘foda-se, tenho de treinar mais’. É o que eu sinto quando oiço este chop. Para quem percebe, sabe que não é só cortar, é aquele milissegundo exacto que faz do Madlib um dos melhores.”


[Lootpack] “Whenimondamic”

“A primeira vez que ouvi isto nem sabia o que era e ouvia-o todos os dias, enquanto jogava Tony Hawk 2 na Playstation. Lembro-me de gostar da vibe na altura, mas nem sabia nada de hip hop, nem de música no geral. Sinto uma certa nostalgia sempre que oiço, e também adoro esta altura do Madlib, dos 90s, é um pouco diferente do que veio depois, a estética e a forma de construir os beats. 90s é sempre outra onda e o álbum em que este som se encontra é uma inspiração para qualquer produtor.”


[Strong Arm Steady] “Questions” feat. Planet Asia & Fashawn

“Este instrumental é apenas um loop, os cortes à la Madlib estão lá e é um exemplo daquela equalização típica em que ele põe aquele loop a soar a hip hop. É a isto que eu chamo inspiração, passei horas e horas a tentar perceber como ele adultera os samples. Há um beat dele, o ‘No More Time? (The Change)‘ do Beat Konducta Vol. 5 & 6 que tem uma abordagem parecida ao som samplado.”


[Quasimoto] “Players of the Game”

“É difícil de acreditar que existe um beat sequer parecido com este. Acho que ainda está para vir. Também é difícil arranjar alguém para rimar em swings deste género, só mesmo ele próprio enquanto Quasimoto, o DOOM ou o Freddie Gibbs. Desistam rappers, dá bué trabalho rimar fora dos quatro tempos em off-kilter drums.”

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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