Postais de Londres: Violet

[ENTREVISTA/FOTO] Ricardo Miguel Vieira, em Londres

 

*Numa certa noite de Verão, cinco portugueses, produtores conotados com a cena electrónica residentes em Londres, actuaram no Corsica Studios, um club sombrio nas arcadas de uma ponte ferroviária. Ao longo da semana, o Rimas e Batidas vai divulgar alguns dos seus pensamentos em voz alta na primeira pessoa. Reflexões sobre a Portuguese Dance Music que se faz ouvir Europa fora e que agora tem o seu expositor maior na Rádio Quântica, a inaugurar a 1 de Novembro por Violet e Photonz.

 

O meu background na música começou no hip hop e hoje em dia cobre um espectro mais alargado, com música de dança e até experimental.

Ainda assim, se olharmos por ordem cronológica, estava a ouvir música de dança antes mesmo de escutar hip hop. Tinha uns 10 anos de idade quando começaram a sair as compilações do Alcântara, que costumava comprar. Nessa altura, eu já pedia à minha mãe para me levar a Alcântara para escutar aquela música, mas sempre sem sucesso. Uma vez ela ainda me enganou: levou-me ao Alcântara… mas ao Café, que era mesmo ao lado de onde tudo se passava.

Vivi muito esta onda dance até a largar por momento, ao 12 anos, para entrar no punk rock. O hip hop só veio quase no 9º ano, sobretudo através do hip hop tuga. A partir daí comecei a ver o que é que o Sam The Kid e outros rappers portugueses curtiam ouvir e foi assim que descobri o hip hop americano, por mais ridículo que pareça. Sem contar, claro, com as produções que estavam a passar à época na MTV, tipo Snoop Dogg ou Missy Elliot. Conheci, sim, através dos MCs nacionais, a faceta mais underground do hip hop americano. E depois foi uma continuidade. Eu e a Honey [com quem faz par nas A.M.O.R.] costumávamos ir a muitas festas de hip hop, mas depois aquilo amainou um bocadinho. Ali em 2006 começou a haver festas muito fixes de dubstep quando ainda estava no seus primórdios e muitos desses nossos amigos, incluindo o Photonz, estavam também a fazer uma transição e uma mistura com techno e house. Por fim, comecei a tocar como DJ em meados de 2007, quando trabalhava numa revista chamada Op. A primeira vez ao vivo foi no Lounge, em Lisboa, e desde aí não parei. Talvez tenha começado a tocar mais vezes sets de dance music há cerca de quatro anos.

 



Mudei-me para Londres porque precisava de respirar ar fresco e porque precisava desta flexibilidade de estilo de vida – escrevo umas coisas enquanto freelancer, mas dedico o máximo tempo possível à música. Em Lisboa estava presa a um emprego full-time que era muito giro, na área criativa, mas que não era o que eu sonhava.

Culturalmente, o underground português é menos “histérico” do que o underground em Londres, por exemplo, em que as pessoas estão sempre à procura de um novo buzz, de um novo hype. A cultura rave está muito mais embebida no tecido da sociedade. Ou seja, nós gostamos mais de ir para o Bairro Alto beber uns copos e conversar e depois ir para um club já bem tarde; eles querem ir para a rave e ouvir sons o mais original e fresco possível desde as 10/11 da noite. É um passo diferente, aprecio os dois, e tenho aprendido muito com ambos.

O som português é o que está a meter o mundo todo a vibrar. Não só o português, claro, só que o nosso som está ali num pódio entre poucos. Lake Haze tem um talento completamente louco para passar hooks super catchy e malhas super pesadas e a “Aranha Negra”, aquela faixa que escutaste há pouco e que deixou a malta em polvorosa, é o highlight do set de qualquer DJ que a rode. Foi o que aconteceu e ainda bem, isso deixa-me super feliz.

Houve bastante interesse por parte deste promotor, a Loose Lips, em trazer os portugueses aqui ao Corsica. Por sinal, eles também estão atentos ao Lake Haze e a outros produtores de Lisboa. Ou seja, essa porta, para vir cá essa malta, também está aberta. Realmente o Portuguese Dance Music é uma coisa que se fala cá e este som português é muito pesado, muito fixe, e o pessoal percebe que temos uma cor um bocado diferente de Berlim ou de Londres, que ainda por cima está numa altura especialmente cinzenta – a moda está muito num techno de Berlim mais frio, mais escuro, mais repetitivo, talvez. Nós acabamos por trazer uma vibe mais colorida.

 



Nós estamos a fazer o nosso caminho, obviamente influenciados por pessoas brutais do passado da música de dança portuguesa, como o DJ Vibe ou Luís Leite ou gente como o Rui Vargas e outro pessoal que ainda está no activo. Nós conseguimos absorver essa influência e termos uma voz própria sem sermos simplesmente pessoal que está a copiar o que vem de Berlim ou Londres ou até mesmo da origem, Chicago e Detroit. Mais do que nunca, nestes últimos cincos anos, termos uma voz própria tem revelado que não queremos imitar ninguém, que temos a nossa cor. Por isso é que digo Portuguese Dance Music, não num sentido nacionalista, e sim de fazermos parte de uma família em que não fazemos necessariamente as mesmas coisas nem estamos a pôr necessariamente a mesma música. Há uma espécie de continuidade de vibe e há sobretudo uma independência na criação que possivelmente não se vê tanto noutras scenes neste momento.

A visibilidade em Portugal é uma coisa que temos de dar tempo ao tempo e acho que o acolhimento à Portuguese Dance Music no nosso país está cada vez melhor. Aqui há três anos tínhamos uma festa da One Eyed Jacks em Lisboa e aparecia pouca gente, apesar de serem festas com muita vibe e uma base de seguidores leal, embora aparecesse pouca gente. Há cerca de um ano fizemos uma festa da One Eyed Jacks também em parceria com a Terrain Ahead e essa já moveu centenas de pessoas a curtir no Lux. Ou seja, estes três anos vi que a cena mudou de direcção de alguma forma. Estas coisas acabam por demorar, e é natural que seja assim. Nós vamos continuar a fazer esta música e a partilhá-la, porque a fazemos para as pessoas.

Em relação às A.M.O.R., nós temos música nova a ser feita. Temos produtores a trabalhar em beats e temos rimas novas para três ou quatro músicas, mas nada está gravado. Estas músicas novas que fizemos darão um EP ou um álbum. Ainda havemos de decidir com calma.

 



Não tenho muitos planos para o futuro próximo [exceptuando a Rádio Quântica que entretanto foi anunciada] para além do meu dia-a-dia a ajudar a gerir a One Eyed Jacks a0 lado do Photonz, em que temos artistas novos para a editara e continuamos a nutrir os artistas que já estão connosco, como Pal +, Roundhouse Kick e o Lake Haze, entre outros. E, claro, sempre com a meta de obter mais recursos para editar mais discos. Só quero continuar a poder fazer ouvir a nossa voz e se me deixarem tocar de vez em quando já fico super feliz.

 

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Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.