Pi: “Só quando aceitamos o que fomos é que podemos ser outra coisa qualquer”

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [ILUSTRAÇÃO] Julio Martins

Falámos com Rute Silva em Janeiro de 2019. Tinha acabado de lançar a primeira música em que, segundo nos contou, investiu a sério. Um ano e dois meses depois de “Jardim Ilógico”, Pi arrancou o Penso Rápido. Cinco músicas que, diz a artista, começou a juntar há cerca de cinco anos.

Nas canções ouvimos, sabemo-lo agora, a Rute Silva de há uns anos. Porém, para a rapper, havia a necessidade de lançar este trabalho para que se fechasse esta caixa ou se descolasse este penso, fossem quais fossem os pêlos que nele viessem agarrados. “Só quando aceitamos o que fomos, é que podemos ser outra coisa qualquer”, acredita. E é por isso que promete novos trabalhos.

Por agora, encontrem-na (e às suas músicas) no YouTube ou ouçam-na ao vivo no dia 13 de Março no TAGV, em Coimbra, ao lado da Muleca XIII e da Mynda’Guevara.



Primeiro EP. Um pensamento não tão rápido assim. O que é que te levou tempo? Que entraves se foram colocando?

Costumo dizer que o EP se chama Penso Rápido porque às vezes é preciso pôr um penso no que achávamos que eram feridas, mas não passavam de dói-dóis. Acho que o que demorou mais tempo foi eu perceber isso.

Sempre gostei de escrever e sempre gostei de rap. Há cerca de cinco anos comecei a procurar free beats na net e juntei as duas coisas. Com o passar do tempo, percebi que era isso que queria fazer e fui encontrando pessoas incríveis que me ajudaram no processo. Assim que comecei a trabalhar de maneira diferente, as músicas antigas deixaram de fazer sentido. Ou não me identificava completamente com as letras, ou achava que certos beats não eram o melhor encaixe, ou não gostava da minha voz. Até que tive um momento Pokémon e deixei de ver isso como uma coisa negativa, para passar a ver como uma evolução. Se já não me identificava é porque tinha aprendido coisas novas, mudado de opinião, evoluído. A partir daí, foi pôr um penso rápido, gravar, pensar a capa e o EP surgiu.

O que quiseste contar com este EP?

Que só quando aceitamos o que fomos é que podemos ser outra coisa qualquer. No meu caso, mesmo que eu não lançasse este EP, as músicas existiriam na mesma, ainda que na minha cabeça. O facto de ninguém saber que eu as tinha escrito, não ia fazer com que o que eu senti desaparecesse. Acho que quando ficamos à vontade com o nosso passado ao ponto de o contar aos outros, o futuro parece mais simples.

Julgo que existem referências claras na tua música. Penso em Capicua na escrita e em Praso pela sonoridade. Estou errada?

Não sei. Admiro e sigo o trabalho dos dois, mas é difícil “ver-me de fora” na música. Vou sempre achar que não sou parecida com ninguém, porque uma coisa é a música, outra é o processo. A música é o que ouvimos no YouTube, o processo é o sítio onde estamos, em que estado de espírito escrevemos, o que queremos transmitir, quando e onde gravamos, com quem trabalhamos, como nos sentimos, etc. E isso é irrepetível. Faz com que cada processo seja único. É normal existirem referências, mas acho que ainda não as consigo detectar. Talvez um dia.

Reparei numa guitarra bem portuguesa na última música (soa até a fado de Coimbra). A escolha dos beats traz algo às letras? Escolheste nesse sentido?

A escolha dos beats foi feita de uma maneira muito básica: gosto desta sonoridade ou não gosto. As letras já estavam escritas, por isso ia ouvindo até chegar a um som que descrevesse a minha vibe. Realmente, a única coisa que foi acrescentada aos beats foi o bandolim, na “Proficção”. A verdade é que numa fase inicial, queria beats que tivessem uma sonoridade muito portuguesa (o “Jardim Ilógico” também tem bandolim). Agora quero explorar a diversidade que existe em Portugal, além do fado. Em breve, sairão coisas diferentes.

Com o EP cá fora, já há concertos marcados?

Estive na Fnac de Almada a apresentar o EP e vou estar dia 13 de Março no TAGV, em Coimbra, juntamente com a Muleca XIII e a Mynda Guevara. Também vou estar na Fnac de Coimbra e depois não sei. Espero que hajam mais concertos. E consertos.


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos