Pi: “Gosto que exista sempre uma certa liberdade na música”

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Nário

Foram vários os artistas portugueses que escolheram a época das festas para lançar novas criações e nós não andámos distraídos. Nessa altura, “Jardim Ilógico”, a primeira música que ouvimos de Pi, foi directamente enviada para a nossa caixa de mensagens do Instagram. Conhecem? Nós fomos fazer por isso. Rute Silva tem pouco mais de mil e quinhentos plays na primeira faixa em que diz ter investido “a sério”, mas chama a atenção com um flow diferente, uma temática desconcertante e um beat fresco com um toque português nas cordas de bandolim.

“Não me sinto rapper”, confessa com nenhuma e todas as justificações possíveis, assegurando que ainda está na “parte da aprendizagem”. Neste primeiro som traz ao seu lado Nário e Ra Fa, que também explica quem são, e acrescenta ainda que “esta música é mais deles”. Para o futuro promete novas rimas e pede que “fiquem ligados”.

 



É a tua primeira música?

Não, mas foi a primeira em que investi a sério. Acho que quando queremos que o nosso “trabalho” não seja um trabalho, vamo-nos convencendo a nós próprios de que não é possível. Existem barreiras sociais, monetárias, familiares que parecem impossíveis de transpor… Não somos estimulados a fazer coisas diferentes, mas a encaixar num padrão. Seja na música, seja noutra área qualquer. Quando queremos fugir ao padrão, parece que não sabemos onde é a porta… Esta música foi uma espécie de recomeçar e assumir para mim própria, que pelo menos, ando à procura da chave.

O que pretendes transmitir com ela?

Acho que aquilo que uma música transmite depende sempre mais de quem a ouve do que quem a escreve. Gosto que exista sempre uma certa liberdade na música. Como num livro. O livro é sempre o mesmo, mas as pessoas vão interpretá-lo de maneira diferente, vão visualizar cenários diferentes e imaginar as personagens à sua maneira. Acho que a magia está aí. Cada um descobrir qual é a sua perspectiva sobre o que vê, sente e ouve.

Claro que existe uma crítica social e um propósito neste projecto, mas o mais interessante é perceber com quem mais nos identificamos na música. Somos a cria? Somos a mãe? Somos os vigilantes? Somos os três? E perceber que independentemente de quem sejamos, estamos todos no mesmo zoo! Talvez tenha sido isso que quis transmitir. Que apesar das nossas diferenças, todos nascemos em jaulas que não escolhemos. A questão é: decidimos ficar ou fugir?

Quem são o Nário e o Ra Fa? Como foi trabalhar com eles?

São duas crias que encontrei no caminho para a floresta… Esta música não existia sem eles. Fizeram o beat, o solo de bandolim, gravaram, misturaram, produziram, fotografaram, editaram, montaram. Costumo dizer que esta música é mais deles do que minha. Eu escrevi a letra, mas eles transformaram a história em música.

Trabalharmos em coisas que gostamos acaba por tornar a coisa mais simples, com amigos, melhor ainda. Claro que houve momentos frustrantes, em que as coisas não correram tão bem ou como esperávamos, mas acho que conseguimos adaptar-nos. Aprendemos a trabalhar em equipa, a gerir o pouco tempo que tínhamos e a ouvir as opiniões uns dos outros. Acho que foi o primeiro “trabalho de grupo” que fiz com prazer.

O que procuras no universo hip hop?

Como ouvinte? Educação. O hip hop fez parte da minha educação e para mim, a educação é a raiz. Depois o respeito, a igualdade, a consciência social, a empatia, a verdade, a revolução são o fruto. Acho que o hip hop tem o poder de educar, e isso é raro. O que também não quer dizer que seja sempre bom. Às vezes, não tem só a ver com a disciplina, mas com o professor.

Como “rapper”? Não sei. Não me sinto rapper. Continuo a procurar educação, mas o processo é primeiro aprender, e depois ensinar. Para já, ainda estou na parte da aprendizagem. Não tenho nada para ensinar. Só quero poder mostrar o meu trabalho, partilhar a minha perspectiva sobre o mundo, e poder reflectir sobre a dos outros. Quero fazer coisas novas no hip hop, fora do hip hop e até fora da música.

Quem é a Pi?

Ninguém. P.I. quer dizer literalmente ponto de interrogação. Na verdade, não consegui inventar nome que me definisse. Nem acredito que alguém se consiga definir numa palavra. O ponto de interrogação pareceu-me a melhor opção para mim. Depois lembrei-me que pi (o número) apesar de ser uma constante, tem infinitas casas decimais e que por isso é impossível defino-lo. E também que é o som característico da censura (piiiiiiiiiiiiiii). Acho que a Pi ainda não é ninguém. Como o número, ainda estou descobri-la.

Perspectivas de futuro? Tens mais músicas para lançar?

“Criar uma nova vida mas do lado de fora”. Sim. Fiquem ligados.

 


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos