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Fotografia: Vera Marmelo

O músico norte-americano volta hoje à ZDB para a terceira sessão de Som Crescente.

Peter Evans: “Eu não sou um líder natural de banda, tive de aprender a sê-lo”

Fotografia: Vera Marmelo
Em meados do ano passado, Lisboa passou a ter um novo morador que quis oferecer à cidade uma nova forma de músicos colaborarem e aprenderem entre eles. Nasceu, então, Som Crescente, uma parceria entre Peter Evans e a Galeria Zé dos Bois, que propõe a músicos portugueses (ou a viver em Portugal), num workshop intensivo de dois dias, uma exploração da sua criatividade, independentemente do seu género musical, focando-se na criação de novas obras, sejam elas improvisadas ou notadas, electrónicas ou acústicas, mas sempre guiadas pelo norte-americano e por um convidado especial em cada sessão. Com a terceira edição a acontecer hoje, desta vez com a ajuda do músico Demian Cabaud, falámos com o virtuoso trompetista que tem, através do seu sopro, destruído barreiras até mesmo no free jazz e no improviso, enchendo salas com o som de um único instrumento e as inúmeras formas de o abordar.

As tuas principais influências passam por lendas do jazz como Coltrane, Miles Davis, Lee Morgan e George Lewis, mas vamos falar do presente. Que artistas, da tua geração ou mais novos, achas que influenciam a tua música? Os artistas mais óbvios são aqueles com quem já trabalhei, e depois pessoas como Craig Taborn, que é alguém que admiro não só pela sua técnica, como também pela sua forma de trabalhar e a sua dedicação no processo criativo. Isto é algo que costumo procurar, pessoas que tentam fazer algo mais ambicioso do que simplesmente fazer boa música. Há muita gente que tenta fazer só boa música, e consegue, mas depois há um outro nível de testar o processo criativo nos seus limites, de achar que há sempre algo mais para crescer, e que empurram as coisas para um lado mais misterioso, como o Taborn, Tyshawn Sorey, Jim Black, Ingrid Laubrock…. Afastando-nos um pouco do jazz, tens ouvido música de géneros diferentes que sintas também influenciarem os teus métodos de composição? Tudo o que me interessa influencia-me. Neste momento estou a ler o Neuromancer, de William Gibson, e isso é uma influência. Também tenho ouvido peças de música intuitiva de Stockhausen, do início dos anos 70, e alguma música ambient japonesa, como o Music for Nine Post Cards [Hiroshi Yoshimura], e tudo isso tem efeito no meu processo criativo. No teu último concerto a solo em Portugal, no OUT.FEST, foi possível ver-te experimentar formas de interagir com o espaço onde tocaste (Igreja Paroquial de Santo André), explorando a sua reverberação natural — adaptaste-te a ela num sentido colaborativo, como se de um artista se tratasse. Quando tocas com outros músicos, como no caso das sessões de Som Crescente, também tentas criar esta ligação com o espaço onde tocas? Sim, mas nem sempre é assim tão fácil. Criar uma ligação com o local por vezes é muito intuitivo, mas noutros casos é mais difícil. Para mim, tocar num espaço pequeno, onde o som está perto do público e dos músicos, e sentes que consegues preencher o espaço com o volume do instrumento, é onde me sinto mais confortável, também por ter sido nesse ambiente que eu me desenvolvi enquanto músico. Não preciso de pensar muito nesses casos. Quando toco em lugares com maior reverberação, apesar de já o ter feito muitas vezes, tenho de pensar mais e de tentar. Eu quero sempre que a música vá de encontro ao som do espaço, e alguns desses espaços requerem mais esforço que outros. Então tentas sempre adaptar a composição ao lugar. Sim, mas nem sempre fui assim, tive de aprender com os erros. Dei um concerto a solo em Coimbra há cerca de dez anos, numa capela em ruínas, e não trabalhei com o espaço, limitei-me a tocar. Desde aí que ganhei consciência que devia trabalhar mais nisto e estar mais consciente. O concerto no OUT.FEST foi bastante bom, escolhi o material que ia tocar especificamente para o reverb e o delay do espaço. Ainda sentes, após 15 anos, que continuas a explorar novas ideias e a explorar? Sim, sem dúvida. O que te motivou a vir morar para Portugal? Qual é a tua ligação com o país, e com Lisboa em particular? A relação que eu tinha com Portugal antes de cá morar continua a mesma. Quando me mudei para aqui, já tinha tocado em Portugal várias vezes, chegando mesmo a tocar duas ou três vezes num só ano. Portanto, tocar aqui não é novidade. Quando me mudei, questionei-me como é que gostaria de me integrar na cena de cá, e pensei que uma das coisas que poderia fazer seria uma espécie de escola informal no qual juntaria vários músicos de diferentes vertentes, o que é algo que eu sabia que já acontecia aqui, mas que me diziam que podia ser mais frequente. Então pensei que talvez pudesse ajudar nisso, visto que sou novo aqui, e não conheço ninguém, posso só fazer coisas diferentes sem deixar ninguém chateado. Já fiz vários workshops pelo mundo, em várias escolas de música como a Royal Academy, e adorei essas experiências, mas sinto que faltava o elemento performativo, o factor risco de ter de experimentar e trabalhar ideias à frente de um público a sério, não só de estudantes e dos seus pais. Foi daí que nasceu o Som Crescente, então. Sim. Queria fazer algo rápido, com pouca conversa. Juntamo-nos, olhamos para as músicas durante umas horas, fazemos alguns comentários e no dia seguinte nem sequer ensaiamos, aparecemos só para dar o concerto. E estou muito feliz com o resultado, até agora. O público é bastante bom, com uma mistura de fãs normais com amigos e pais dos miúdos com quem toco. Também tenho um convidado português de uma vertente musical ligeiramente diferente para se juntar a mim. Da última vez convidei uma artista de música clássica [Raquel Reis], da orquestra Gulbenkian, que trouxe uma energia completamente diferente às coisas, e eu adaptei-me a essa pessoa. A próxima sessão está mais virada para o jazz, apesar de, cada vez que crio uma estrutura para um destes concertos, também se criam objectos que quebrem com esta. Neste caso, vamos ter uma cena orientada para o jazz, e um músico com instrumentos homemade e electrónica ao vivo. Vai ser um desafio para ele e para os outros músicos. Estás sempre a tentar explorar novas fórmulas para cada sessão, então. Como é o processo de seleccionar os músicos que convidas? Ainda vamos no terceiro workshop, e o primeiro convidado foi fácil de escolher, o meu colega mais chegado cá, o Gabe [Gabriel Ferrandini], e aí explorámos improvisação livre com alguma orientação. Com a Raquel Reis fizemos improviso “pela lente” da notação. Tocámos peças de Anthony Braxton, Pauline Oliveros, Stravinsky, Béla Bartók, alguma da minha música, creio que a Raquel tocou inclusive uma peça de Beethoven, navegámos por todo o lado. Fizemos alguns improvisos pelo meio, e depois algumas partes notadas. Para esta próxima sessão, pensei querer mudar de rumo e levar isto mais para o jazz. Eu conheço o Demian [Cabaud] dos meus concertos no Porto, escrevi-lhe sobre este conceito e ele disse que lhe parecia bem. Em relação aos alunos, não é muito fácil, porque funciona mais por boca a boca. É como tem funcionado até agora: os antigos alunos contam aos seus amigos, os professores avisam os seus alunos… Para além de em Portugal tudo acontecer à última da hora. Acho todas as vezes que não vamos ter gente que chegue, mas, por exemplo, há dois dias ainda nem sequer tinha banda, e agora de repente tenho mais que suficientes, por isso é perfeito. Acho que tem corrido bem, e, apesar de ainda não termos datas confirmadas, mas apontando para Fevereiro, acho que o foco vai ser completamente diferente, virado completamente para a música electrónica ou algo parecido. Planeias então ter mais sessões para o próximo ano. Sim! Enquanto a ZDB as quiser fazer. Creio ser o lugar perfeito para fazer isto, por terem uma certa sensibilidade ao DIY. Nesta sessão vais explorar os mundos de Ornette Coleman, Charlie Parker e Jackie Mclean. Como vai equilibrar tocar composições específicas e as partes improvisadas? Mudando a estrutura da música, improvisando entre elas…. Depende, tenho várias “fórmulas”. Mas o que me interessa é como podemos explorar a linguagem de improviso destes diferentes compositores, e manter-nos de certa forma fiel a esta, mas ao mesmo tempo ser um pouco “americano” em relação a isso, dizer “que se lixem as regras” e fazer algo completamente diferente. Ainda hoje transcrevi a “Melodie for Melonae”, do Jackie McLean, que tem uma melodia linda que parece música de câmara e que, olhando para ela, é bastante simples, tem apenas duas secções. Depois, nos solos é só tocar em Si menor. No álbum, que vem daquela fase do McLean em que todas os álbuns têm nomes como Destination Out e Let Freedom Ring, conseguimos ouvi-lo nos seus solos a explorar sem parar, à procura de algo. Então pensei que, como o conceito do álbum era esse, esta podia ser uma boa oportunidade para explorar isto. Vamos tocar essa melodia de música de câmara, e talvez um blues em Si menor, e depois abrimos para electrónica “analógica”. É tentar ser super aberto, mas ao mesmo tempo respeitar as origens da música. Durante o teu processo criativo, sentes que estás constantemente a tentar encontrar algo novo, ou que estás apenas a libertar o que te vai na alma? Para ti, fazer música avant-garde é uma intenção ou simplesmente uma consequência? É uma consequência. Eu não estou a tentar fazer nada em particular, o que estou a fazer é pegar na criatividade, e na intensidade do que é ser criativo, e não sei bem ao que isso soa, mas não quero saber de qualquer forma. Pegando na primeira peça que toquei no OUT.FEST, estava-me a perguntar como é que a adaptaria à igreja. Quando se está a lidar com uma reverberação assim, se tocar muitas notas diferentes que chocam entre si o resultado pode ser muito confuso para o espectador, então pensei em tocar apenas em modos, porque o princípio destes é que todas a notas nele soem bem juntas, e ao escolher essa opção tenho liberdade de fazer o que quiser: posso tocar rápido, posso fazer partes rítmicas, melodias…. E continuo a trabalhar com o espaço onde toco. Então fiz isso, essa peça durou cerca de 10 a 12 minutos, e foi sempre baseado num modo bastante tradicional, essa escala é encontrada em muitos tipos diferentes de música ao longo do tempo, desde a música medieval à persa. E isso para mim foi uma novidade, acho que nunca tinha feito antes, apesar de ser uma das ideias mais antigas existentes na música, que vem já do antigo Egipto e da Grécia antiga. Isto é um bom exemplo de algo que faz parte do meu processo criativo cujo resultado foi algo super datado. Se data já de tempos tão antigos, é porque alguma coisa há de estar certa.If it ain’t broke, don’t fix it.” Apesar de já teres colaborado com um vasto número de artistas, há alguém com gostasses de trabalhar com quem ainda não tiveste oportunidade? Nem por isso. Só sei que quero trabalhar com as pessoas quando há já algo que tenha acontecido que me faz querer colaborar mais vezes. Tenho a certeza que há grandes músicos por aí com quem teria uma excelente relação, mais ainda não sei isso. Eu não passo muito tempo a pensar “adoraria fazer um álbum com o Keith Jarrett”, percebes? Isso se calhar nem funcionaria bem! É uma coisa de músico, fazes uns concertos ou uma tour com um grupo e parece algo mágico, e podes não ver essas pessoas durante uns dois ou três anos, ou mesmo nunca mais. Eu tenho muitas relações assim. Ainda no ano passado fui ao Japão e entrei em contacto com vários músicos como o Kōichi Makigami que, se pudesse tocar 25 concertos por ano com ele, seria uma pessoa bastante feliz, mas não é assim que o mundo funciona, é muito difícil fazer estas coisas acontecer. Qual seria a tua ensemble de sonho? Eu gostava de ter uma resposta maluca como, sei lá, a primeira pessoa que bateu com duas pedras, o Stockhausen, criar uma banda estranha, metê-los num autocarro e fazer uma tour com eles [risos]. Mas a questão é que não é por teres grandes músicos que tens uma grande banda. Eu não sou um líder natural de banda, tive de aprender a sê-lo. Demorou algum tempo a perceber a alquimia entre mim, os outros músicos e a música em si, e sinto que nos últimos anos finalmente comecei a perceber melhor isto e a atingir aquilo que quero de facto fazer. Acho que aprendi isto quando comecei a dar aulas, porque te começas a ver a ti próprio pelos olhos dos outros, de uma forma diferente, e o que quer que eu esteja a tentar fazer na minha música muitas vezes combina tocar partes notadas fixas de uma forma muito precisa, e na parte improvisada esqueceres-te dessa notação e ficar só a viver no momento. Depois é só voltar a ligar o cérebro no outro modo, e isso é algo que me é muito natural a mim, mas não é a toda a gente, e já percebi ao trabalhar com muitos grupos que há pessoas que vão por esse caminho e outras que não. Sinto ter alguns grupos que funcionam bem desta forma, e isso sabe bem, mas essas relações demoram muito tempo a serem criadas. Sinto já ter um pequeno grupo de músicos que poderia chamar, independentemente da combinação entre eles, em que bastaria uma conversa de 20 minutos para conseguirmos dar um concerto bastante bom. Mas isto não era assim há cinco anos.

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