Perigo Público & Sickonce no Sou Quarteira: do fim do mundo, com amor

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Camille Leon

Ontem, a abrir o palco na segunda jornada do Sou Quarteira, o veterano Perigo Público assinou um “daqueles” momentos de que realmente se faz a história do hip hop tuga: o seu concerto, que serviu para revelar Porcelana, novo projecto discográfico que assina com o produtor Sickonce, revelou ambição formal, demonstrou rigor técnico e, sobretudo, apoiou-se em repertório de elevadíssima qualidade, entregue com a classe que distingue os grandes artistas. Mesmo aqueles que (quase…) nunca alguém ouviu.

Curiosamente, a realização de um evento como o Sou Quarteira — uma ideia de Dino D’Santiago que na sua segunda edição permitiu reunir, ao longo de dois dias, artistas como M.D.A., Plutónio, Mishlawi, Allen Halloween, Mayra Andrade, Branco, Sacik Brow, Eva Rap Diva, Jimmy P, Mundo Segundo & Sam The Kid ou Kojey Radical, entre outros — representa um paradoxo que o hip hop tuga tarda em resolver: é que crescer desmesuradamente ao ponto de justificar os seus próprios eventos ou generoso espaço em cartazes nos maiores festivais também implicou deixar para trás talentos que mereciam ter chegado bem mais longe do que o que de facto lograram alcançar. Perigo Público, artista com duas décadas de rimas nos ombros, será, certamente, um deles. Mas o seu concerto de ontem diz-nos várias coisas: em primeiro lugar que a arte, pelo menos a que é séria e comprometida apenas com a visão do próprio artista e portanto alheia aos ditames do mercado ou das modas efémeras, não tem prazo de validade nunca sendo realmente “demasiado tarde” para alguém deixar a sua marca; depois, que crescer longe dos holofotes tem a vantagem de reforçar a honestidade de um artista, porque quando não há pressão ou expectativa também não há nada a perder e o único filtro para as palavras é apenas o da sua própria consciência.

Em palco, Perigo Público liderou ontem uma considerável equipa: ao seu lado estavam o seu mais próximo cúmplice, o produtor Sickonce, que atrás dos pratos assume o nome Gijoe, Afonso Serro, fantástico teclista que passou pelos Mazarin, e ainda as vozes de apoio de João Barroso, MC que assumiu com brio as “dobras” do protagonista principal, e das fantásticas cantoras Sara Espírito Santo e Susana Kristensen, duas absolutas surpresas que nos encheram os ouvidos com prestações elegantes e certeiras e, claro, carregadas de alma. Mas o concerto de Perigo Público foi especial também porque foi completo, revelando trabalho de casa e cuidado sério com o lado visual, algo que ainda é incomum numa cena que se tem sustentado sobretudo nas capacidades performativas dos seus pontas de lança. O vídeo de Alberto Hernandez com imagens de Joana Gomes (que, aliás, amavelmente nos cedeu as fotos que ilustram este texto) e o som de frente carimbado por Luís Rocha foram também discretos mas cruciais acrescentos a um todo que, como se começou por afiançar, revelou ambição formal e demonstrou rigor técnico (e portanto muito trabalho). 



Com o sol na cara, longe dos horários mais “nobres”, e perante uma modesta, embora conhecedora, plateia, Elton Mota fez o mais importante: disse as coisas certas que todos precisamos de ouvir e disse-o em músicas novas carregadas de verdade, de garra, de imaginação, mas também em emocionantes interlúdios em que provou ser um comunicador nato, sabedor do poder que um microfone lhe concede e portanto perfeitamente consciente do privilégio que é poder dizer — e rimar… — o que se pensa a partir do elevado púlpito que é o palco.

Mas Perigo Público só quis pregar amor, mais nada. Amor pela sua família — declamou, a capella, sentidos versos dirigidos à sua filha adolescente, presente no público, uma campeã ginasta, como revelado nas barras de um pai de peito cheio; amor pela sua terra — fantástico o momento em que nomeou heróis-artistas de Quarteira, começando o desfiar desse novelo de “Lobos do Mar” pelo nome de Apolinário “Poli” Correia, o mesmo Sam Alone que no dia anterior subiu ao palco com Allen Halloween para juntos darem voz e forma a “Bandido Velho”; amor pelas mulheres, para quem pediu o máximo de respeito; amor pela humanidade — “fumem menos, sejam melhores, cresçam…”; e, também, amor pela sua cultura — impressionante o momento em que nos interpretou a sua carta a Tupac, “O Ano da Morte de Amaru Shakur”, arrepiante conjunto de palavras prenhes de tantas verdades…

Amor e mais amor, portanto, o que é em si mesmo feito extraordinário: não é essa a mensagem mais comum nas bocas de boa parte dos rappers que, nas primeiras linhas desta agitada cena, vão lutando pelos milhões de visualizações. Mas é essa, afinal de contas, a delicada porcelana que todos temos o dever de proteger, de cuidar e de preservar. E ontem, Perigo Público esbanjou amor. Mas também remexeu nas nossas consciências, assumiu-se como porteiro que nos escancara as portas da realidade, debitando versos que revelam ácido, que apontam o dedo aos mais poderosos — Trump foi nomeado — mas não deixam de denunciar os seus próprios irmãos, os que não cuidam das famílias, que abandonam as casas e preferem deitar tudo a perder nas zonas vips dos clubes. Perigo assumiu-se também “traficante”, vendedor de pacotes de uma operadora de telecomunicações, “porque a música não chega para meter comida na mesa”, ou seja mostrando dessa forma ser um operário que vê na arte não um escape, mas uma necessidade.

A música…? Pelo que nos foi dado a ouvir, Porcelana será, certamente, um daqueles discos que agarra o presente e reclama memória futura: sobre beats de Sickonce, companheiro de percurso de longa data que já tinha assumido a produção do anterior 1991, trabalho de 2017, Perigo Público percorreu com classe a distância que separa o intemporal boom bap das mais balançadas e dançáveis propostas musicais do presente, sobretudo aquelas em que a ligação a África é mais nítida. E os beats que Sickonce dispara, e sobre os quais o seu alter-ego DJ ainda dispõe ultra-musicais e pertinentes scratches, são depois tornados ainda mais orgânicos pelos teclados do homem que Perigo garantiu ter chegado do espaço, Afonso Serro, que num momento de freestyle do MC soube inventar um loop de cariz clássico que se revelou encaixe perfeito para barras instantâneas e fluídas. Em cima de tudo isto as vozes: se o MC convocado para fazer as dobras do homem de Jeans Monroe terá sempre pela frente a difícil tarefa de perseguir as rimas de um rapper que tem uma noção aguda e profunda do tempo, que entende como poucos como adornar tarolas com poesia, por outro lado as vozes femininas trazidas para o palco garantem um bem vindo contraste, a dose certa de açúcar na receita de um homem que passa boa parte do tempo a deitar sal nas feridas de que colectivamente enfermamos.

Para lá de “#Perigo”, tema que integrava o alinhamento de 1991, o concerto fez-se sobretudo de material novo de Porcelana, com canções com títulos (Rafael Correia teve a amabilidade de partilhar com o ReB o alinhamento do concerto…) como “Do Fim do Mundo Com Amor”, o já citado “O Ano da Morte de Amaru Shakur”, “Bairro VIP”, “Perfeição”, “Trash Gaveto” (esta com uma barra em que se nomeia o Rimas e Batidas e o autor destas linhas) ou, claro, “Porcelana”, que rematou uma prestação de cerca de 40 minutos que foi intensa e plena e totalmente recompensadora para os que a presenciaram.

Tudo junto — repertório e artistas, vídeo, luz e som —, tudo funciona. O espectáculo é coeso, com uma moldura gráfica cuidada, que até nas simples t-shirts em que se vislumbra um quadrado azul evocativo de um azulejo (de porcelana, certamente…) se distingue de boa parte do hip hop que gosta de subir ao palco com as mesmas roupas com que se pára na rua, em nome de um realismo que às vezes não entende que uma coisa é vida e outra coisa é arte. Às vezes a arte imita a vida, é certo. Mas ontem, a arte, mais do que reflectir as particulares vivências que Elton Mota foi coleccionando na sua particular biografia, pretendeu transformar vidas, levá-las a mudarem, a serem melhores e maiores. Perigo Público quer, na verdade, salvar o mundo. E, já se sabe, para salvar o mundo, basta salvar uma pessoa. Palpita-nos que mais do que frágil, esta Porcelana há-de revelar-se um forte suporte em que muitos poderão ouvir e descobrir então um novo caminho, para evoluírem e crescerem, para se salvarem, o que é, realmente, um dever de todos nós se quisermos um mundo melhor.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu