Perigo Público & Sickonce: “Enquanto cidadãos temos a responsabilidade de transformar os problemas em amor”

[TEXTO] Pedro João Santos [VÍDEO] Herman Delgado [FOTO] Camille Leon

À falta de misticismos, a cerâmica só requer um mínimo de cuidado. Vários minerais, como a argila, o feldspato e quartzo, dão as mãos e formam uma pasta pura. Sob o crivo do calor, tornam-se um só: assim nasce a porcelana. Aquela que uns pavoneiam à mesa ou encerram nos armários, consoante a companhia; branca, translúcida, vitrificada. A outra propriedade do material faz com que esta imagem também seja sonora ao toque: um som vagamente estridente, delicado, como um espartilho de classe a fechar-se.

A Porcelana de Perigo Público & Sickonce é diferente: tem, como primeira ressonância, um estilhaço verbal. “Como é possível tentar convencer alguém que nasceu para ser rei quando em todas as versões da história morre como escravo?”, indaga Élton Mota — a distância de segurança para observar este material fino deixou de ser necessária. Só depois o mosaico endurece, com o toque e a ponderação de Rafael Correia, firme e desprotegido. 

É o segundo álbum colaborativo entre o rapper de Quarteira, um veterano do freestyle, e o produtor de Portimão, na indústria há duas décadas. Uma obra de consciência a entrar nos problemas da comunidade negra, a mergulhar no amor rarefeito enquanto se faz ouvidos de mercador a um mundo aflitivo, a encontrar o balanço entre a espontaneidade e um molde perfeito. 

Antes do seu concerto no Capitólio, em dia de Super Bock em Stock, conversámos com a dupla no seu camarim.



Apesar de falarmos de um álbum que se foca em coisas mais sensíveis, vocês assumem uma postura mais combativa. Ainda assim, o álbum intitula-se Porcelana. Quanto cuidado tiveram na feitura deste álbum e quão expostos se sentem com este novo registo?

[Perigo Público] Em primeiro lugar, obrigado. Eu acho que, para nós, era importante criar esse contrassenso: termos um álbum de luta — eu até costumo dizer que não é um álbum, é um statement, nós queremos de facto marcar uma posição — mas sem deixarmos de ser delicados. Se pensares na porcelana enquanto peça, que é resistente, mas ao mesmo tempo delicada, para nós fazia todo o sentido. Quando chegámos ao consenso de lhe chamar Porcelana, foi tipo “ya, é isto, não precisamos de mexer mais”. Acho que segue essas duas vertentes: a fragilidade mas também a resistência da peça.

[Sickonce] Sim, e como estavas a dizer da questão do trabalho e ir ao pormenor da feitura do disco, eu acho que o que nos entusiasmou neste processo foi mesmo isso: estarmos os dois a afinar as agulhas, um em relação ao outro e em relação ao trabalho que estávamos a fazer. Claro que estamos expostos ao fazer esse tipo de abordagem, mas por outro lado estamos confiantes no que fizemos, então estamos à vontade no mundo que criámos.

Já se nota alguma distância face aos trabalhos anteriores: principalmente com o 1991, que era um retrato muito gutural do que era a vossa vida — e um retrato de Quarteira. De que forma têm visto isto mudar e como é que isso transparece no novo disco?

[Perigo Público] Eu acho que, em primeiro lugar, é preciso estabelecer uma narrativa entre os três álbuns, sendo que o primeiro deles não fiz com o Rafa, mas na minha cabeça, eu tinha de contar três histórias. A primeira era uma história que fosse minha, uma viagem introspectiva; a segunda etapa dessa história era contar a história da minha cidade, e homenageá-la, porque ao fim e ao cabo ela acabou por me acolher e deu-me o espaço que eu precisava para crescer. A terceira parte dessa jornada é falar ao mundo daquilo que são as minhas e nossas ideias, a forma como eu perspectivo uma sociedade. Para mim, o trabalho está focado nesses três espaços. 

A vida em Quarteira claro que agora é muito diferente: eu cresci num bairro de lata, social, em que as coisas eram de facto duras. Aquilo que eu relato em 1991 é um retrato genuíno daquilo que eu vi e vivi; na terceira fase, tinha que haver uma diferenciação. Já contei a história de Quarteira, agora quero falar ao mundo como eu gostava que ele fosse.

Já têm notado alguma diferença substancial, não? Quarteira hoje ocupa culturalmente um lugar que há uns anos talvez não se adivinhasse.

[Perigo Público] Sim, mas aí eu acho que, para ser honesto, não é responsabilidade nossa. Acho que a cidade voltou a querer ser criativa e mais gente a querer fazer coisas por aquele pólo, mas não é de todo uma responsabilidade minha ou do Rafa.

Mas de alguma forma têm sido inseridos nesse projeto.

[Perigo Público] Eu acho que sempre que o Algarve — e não vou falar de Quarteira só, porque Quarteira é a minha cidade, mas o Rafa é de Portimão — precisar de nós, ou quiser a nossa colaboração em alguma coisa, nós estamos dispostos a ajudar as nossas zonas. Mas as coisas estão a acontecer porque as pessoas estão mesmo com essa vontade de as fazer. Não só nós, nós fazemos o nosso trabalho que já fazemos há muito tempo, mas os outros também estão a começar as lutas deles e a querer fazer esse trabalho de mostrar a cultura de cada sítio.

[Sickonce] Eu acho que, felizmente, é um bem geral do Algarve, que começa a perceber o que é preciso fazer para dar o passo em frente. É lento, mas começa-se a notar.

E vocês sentem algum orgulho quando podem demonstrar pela primeira vez o vosso novo trabalho, como fizeram neste Verão?

[Sickonce] Claro. Os dois concertos que fizemos foram muito especiais porque, quando foram feitos os convites, nós não tínhamos disco ainda lançado, foi pré-lançamento, mas na nossa cabeça só fazia sentido já tocar este disco. Também foi muito bem para percebermos e testarmos se era isto, da forma como estávamos a pensar que ia passar para as pessoas. Esses concertos foram oportunidades que ainda bem que existiram, porque, agora que é o primeiro concerto [depois do] lançamento do disco, sentimos que, OK, já estamos completamente seguros de que é isto.

Quando fizeram esses primeiros concertos, já tinham o material quase todo cozinhado?

[Perigo Público] A 99%.

[Sickonce] Havia uma música ou outra com pormenores para fechar, mas já estávamos em fase muito avançada.

[Perigo Público] E como estávamos a jogar em casa, se tiveres coisas para limar, acho que é o sítio certo para o fazeres, porque as pessoas vão perdoar erros que em outros sítios não perdoam. Foi uma bênção podermos apresentar o álbum nos dois dos maiores festivais que aconteceram neste Verão.

O feedback que receberam deixou-vos seguros do que queriam pôr cá fora?

[Perigo Público] Sim, eu acho que já há algum tempo que tínhamos- ainda que o feedback não fosse tão bom como tem sido, aquilo como eu tinha falado, há linhas que têm de ser seguidas independentemente daquilo que as pessoas acham. Obviamente que nos deixa mais felizes, mas eu acho que nós não íamos mudar por causa disso: não íamos mudar a nossa sonoridade, as nossas histórias; no máximo, a abordagem do concerto, a forma como tínhamos construído o espectáculo, mas toda a linguagem do álbum nunca ia ser alterada.

[Sickonce] O que eu estava a dizer era tentar perceber se as pessoas estão a perceber o que nós estamos a dizer, é só isto. A mensagem ia ser a mesma, tínhamos era de ter a certeza que as pessoas estavam a entender.

Uma das faixas mais impressionantes é a “Do Fim do Mundo com Amor”. Achei interessante que, como estávamos a falar da linguagem do álbum, revela-se aí um foco que é a tensão muito própria do tempo que vivemos: aquela coisa de querer balançar a tristeza e todos os calvários do mundo com, ao mesmo tempo, aquela necessidade de te sentires bem e te dedicares àquilo que amas. Falas do “terrorismo de informação”, da “humanidade” que está “doente” face a notícias deprimentes. Quão difícil é desligares-te do mundo e não te sentires culpado nessa bolha de amor?

[Perigo Público] A verdade é que não estamos fechados nessa bolha de amor. Mas o que eu percebi é que às vezes é preciso chegar às pessoas de uma forma diferente. Normalmente, quando ouvimos sons de crítica social, são sempre agressivos, a apontar dedos a toda a gente. A minha ideia nesse tema foi “e se eu mudar a perspectiva? E se eu falar de uma coisa que é séria, mas dizer às pessoas que é preciso amar?” OK, obviamente existem problemas, mas nós enquanto cidadãos temos a responsabilidade de transformá-los em amor. Para mim, esse é o tema mais político do álbum, só que o quis fazer de uma forma diferente: “aqueles são maus, e todos maus” e um beat super agressivo. 

Imagina-te a ti sentado a ver o pôr-do-sol com a mulher, ou com o homem, não me interessa, com o teu companheiro ou a pessoa que tu amas, e poderes dizer isso: “OK, o mundo está uma barafunda gigante, mas nós vamos fazer amor”. E se tu fizeres isso, e se a outra pessoa fizer isso, não vai sobrar ninguém para fazer guerra. A ideia era um bocadinho essa. E depois deixar aquele saxofone a solo brilhar para te dar tempo para reflectires sobre as coisas. É um álbum de produção também, e de detalhe, então decidimos: “não vamos pôr nada que possa poluir este final, é deixar as pessoas depois de ouvirem esta mensagem, que é dura, mas entregue de uma forma subtil… agora, deixa pensar.” E lá está, tem resultado, que temos tido um feedback positivo.

Interessante que digas que é a faixa mais política, quando o Porcelana tem vários temas duros de roer, mas em nenhum deles se aponta o dedo para ser acutilante.

[Perigo Público] É como te digo, tu percebes que quando tens uma mensagem, é preciso que as pessoas a recebam. Não interessa, às vezes, entregares com tanto ódio, se do outro lado as pessoas não vão perceber. Eu acho que já há demasiado ódio na nossa vida, demasiada agressividade na nossa linguagem, na abordagem e tudo, isso faz com que a mensagem se perca a meio. O que eu tenho percebido é que, quando mudamos a perspectiva sonora e mesmo a forma como tocávamos nos temas, as pessoas recebiam aquilo de outra forma, e conseguíamos pô-las a pensar. A maior vitória é quando mostras um tema a alguém e essa pessoa não te diz “ah, mas…” — é “vamos pensar sobre o que acabámos de ouvir”. E isso aconteceu quando nós mudámos a nossa abordagem. É preciso ver as coisas do outro lado, e acho que a maturidade nos trouxe isso: colocarmo-nos no lugar do outro, como é que eu gostava que falassem comigo. Percebi que havia esse gap na música: as músicas estavam sempre a ser entregues da mesma forma.

[Sickonce] A questão em relação a esta temática, da forma como tu estás a entregar uma mensagem que é necessário entregue, já há muita gente a fazer bem feito essa forma, ou seja, para quem está pré-disposto a receber essa mensagem, já há quem a entrega bem. Agora, vamos lá tentar entregar isto a outras pessoas que não aceitam aquele tipo de abordagem — tanto a nível instrumental como na forma que é entregue. Chegar a mais pessoas.

Estamos a falar de faixas difíceis, e imagino que haja temas que tenham mesmo tratado como porcelana: a música que achei mais forte é “O Ano da Morte de Amaru Shakur”. Essa faixa deixou-me muito curioso sobre o que será a vossa dinâmica em estúdio. As letras são . Estava a pensar: como é que se coordenaram para finalizar uma música que acaba por ser muito difícil, que fala sobre disparidade racial e questões duras de abordar, mas que parece suave.

[Sickonce] A nossa forma de trabalhar não é estanque, ou seja, isto já é o segundo álbum que fazemos em conjunto, mas já trabalhamos muito mais em faixas soltas e outras tentativas de álbum. Conhecemo-nos bem, e a abordagem tanto pode ser: vou fazendo coisas e percebo “ok, isto é deste mundo”, e vou pondo de parte, e ele ouve, leva e escreve qualquer coisa para aí. Ou o contrário: ele traz-me uma ideia fechada e vamos pintar sobre ela. Não há propriamente uma estratégia, um método…

[Perigo Público] [Para] esse tema, eu tinha a ideia de escrever sobre a comunidade — falando dessa disparidade racial, de comportamentos que parecem meio nonsense da comunidade negra. A maioria dos novos negros, e não tem a ver apenas com rappers, tem a ver com o comportamento de uma comunidade inteira: está desajustado à realidade, mas muitos deles queriam ser tipo o Tupac. Têm as tatuagens do Tupac, cantam os seus versos, sem saber que o que ele verdade quer dizer é “emancipem-se”. Saiam desse espaço, deixem de ser guetizados — às vezes não é fisicamente, mas mentalmente. Quando ouvi o instrumental do Rafa, pensei “ya, é isto”. Aquele instrumental dava tudo o que eu precisava para poder entregar aquela mensagem daquela forma.

[Sickonce] Nesta fase, nestes anos de produção dos discos, temos é que encontrar a nossa sintonia. A partir daí, eu não preciso que ele esteja ao pé de mim, ou vice-versa, para perceber o que faz sentido. Por outro lado, há uma coisa importante: apesar de haver esta dualidade de abordagem, volta sempre para o outro. Mesmo que eu leve um instrumental meu e escreva, volta para mim, para eu depois adaptar exactamente ao que ele fez. É aí que se dá o polir das porcelanas, da peça final.

[Perigo Público] Até posso chegar ao estúdio com algumas coisas e o Rafa dizer “epá, se calhar temos de mudar aqui isto, assim não resulta”, e eu levo para casa. É mesmo um trabalho em conjunto, somos artesãos da peça, e isso nota-se. Tem-nos acontecido isso. Todas as pessoas que nos falam do álbum percebem o detalhe, o carinho com que aquilo foi tratado. Isso é importante.



É audível. Se cada faixa for um azulejo, quais foram os mais difíceis de trabalhar?

[Perigo Público] Devem ter sido as músicas em que trabalhámos os universos mais chegados às comunidades afro, porque tivemos de encontrar o nosso equilíbrio, no sentido de que: “OK, este não é o espaço de conforto do Gijoe a trabalhar, mas também não era o meu” — mas, para nós, era importante que acontecesse ali, que a mensagem fosse entregue sobre aquela cama. Para mim, foram se calhar os temas que deram mais trabalho perceber a nível sonoro e de escrita: fazer com que não saia das nossas mãos, porque não podia deixar de ser nosso. Nós não quisemos ir para um beat que soasse a kizomba, ou afro-techno, nós trouxemos as coisas para dentro do nosso mundo. Elas estão ao serviço da nossa mensagem, e não somos nós que estamos ao serviço das sonoridades.

[Sickonce] Essas sim, eu concordo que se calhar foram as mais complexas de afinarmos e entrarmos nessa sintonia. Mas, por exemplo, o “Rosa Parks” foi complicado: o Elton escreveu com um beat, eu não estava satisfeito com o beat, e levou mais voltas até ao fim. O “Pretinho da Benetton” foi a primeira música a ser feita, na altura do 1991, e achámos que não era daquele universo, era do próximo. Chegámos ao fim [da gravação do Porcelana]: continua a fazer parte, não faz? Essa foi uma decisão, e agora estamos contentes com ela, mas percebemos que foi uma luta para chegar lá.

A “Pretinho da Benetton” chega a um ponto do disco que aparenta vir cortar o ambiente, aligeirar. Engraçado que tenha sido das primeiras, parece que é uma tentativa deliberada de diluir a coisa.

[Perigo Público] A cena é que eu não acho que seja uma mensagem… lá está. É uma mensagem tão dura quanto as outras, entregue de uma forma subtil. Estamos novamente a falar das disparidades sociais e raciais, nós estamos a dizer: “Deixem viver, deixem que pretos e brancos e azuis e cor-de-rosas, homens com homens, mulheres com mulheres, todos convivam” — porque todos têm o direito a essa felicidade. Não é tão diferente da função d’”O Ano da Morte de Amaru Shakur”, a forma como conseguimos entregar essa mensagem é que [pode diferenciar]. Foi nos temas mais delicados que tivemos esse cuidado maior: vamos dizer coisas duras, mas de uma forma que as pessoas vão recebê-las e não ficar chocados.

Certo, porque essas mensagens vão de certeza chegar às pessoas a quem querem chegar, e pode ser sensível. Há outros pormenores na produção, e dizem que é um álbum de detalhe: a música final, a “Perfeição”, tem um pitch shift na voz que achei muito interessante. Soou-vos bem jogar com esse efeito?

[Sickonce] O instrumental era uma coisa assim mais lo-fi, já feito há uns anos, e quando o Elton o escolheu, quis ver a abordagem que ele teria a esse instrumental — porque fugia um bocadinho do resto que nós estávamos a fazer. Quando ele veio com a letra, sem refrão ainda — eu é que gravei os temas — eu disse-lhe: “Tenho aqui uma ideia, mas grava lá, eu já te mostro”. A dificuldade daquele tipo de instrumental é que a voz fique naquele universo. E a mensagem que ele me estava a trazer era de uma coisa mesmo introspectiva.

[Perigo Público] Ainda antes de termos outras faixas, percebemos que no matter what o álbum ia acabar aqui, com esta perfeição que não é perfeita.

[Sickonce] Ya. Então, foi um bocadinho natural a decisão estética do efeito: foi para bater tudo certo. Não foi para fazer algo diferente, assim é que nos fez sentido.

À medida que consolidavam cada faixa, e focando na produção, iam tendo uma ideia do que seria o disco? Não foram precisos muitos acertos finais?

[Sickonce] Por acaso não. O disco foi muito decidido no momento.

[Perigo Público] “Isto faz sentido. Esta mensagem faz sentido aqui”. Eu acho que é importante perceber-se isso: nós usamos sempre as coisas em prol da mensagem. Este álbum tem uma mensagem final, de transformar todo o pó em porcelana, de todos nós temos direito a. E quando dizes todos nós, tens de falar no plural, conseguir falar com as pessoas diferentes, respeitar um só, porque fazemos todos parte desse mosaico. As músicas iam surgindo de forma natural, percebíamos que cada uma servia um propósito final — se não, não avançávamos.

Ampliando aqui a tua performance, já tens um longo historial: desde o período de freestyle até ao Jeans Monroe, sublimaste a tua entrega até ao 1991, e chegas ao Porcelana. Como é que te vês enquanto rapper, a tua capacidade agora — face a muitos comentários ao longo dos anos, sobre aquilo que serias capaz de fazer.

[Perigo Público] Eu senti isso. Às vezes, descobres o sucesso como uma fórmula: umas vezes descobre-la na primeira rima, outras vezes na última. Tenho vindo a crescer nesse sentido. Na escola do freestyle, é tudo muito espontâneo, e tinha alguma dificuldade em traduzir aquilo em escrita que fosse lógica. Foi um ponto onde me foquei imenso: produzir cada vez mais e melhor, escrever cada vez mais e melhor, escrever por linhas de sentido. Não sou obcecado pela técnica das palavras, mas sou obcecado pelas linhas de sentido. Tinha de trabalhar o meu flow, a minha entrega, a forma como eu consigo entregar a mensagem a essas pessoas. Sinto-me feliz por as pessoas sentirem essa evolução e estarmos a chegar a este ponto da Porcelana, o terceiro capítulo, para mim mesmo muito significativo. É fixe. Deixa-nos de coração cheio.

E não deixas pontas soltas quanto às narrativas: no “Ícaro”, tu voltas a pegar num dos pontos de partida do 1991, a questão do teu pai. Quanto do teu luto foi através da música, quanto continuará a ser? Vir a público ajuda-te com isso?

[Perigo Público] Eu acho que, às vezes, é mais uma questão de homenagem. Quando tu cresces sem uma figura tão importante na tua vida, tu ficas com saudades do que não tiveste — e quando tu tens saudades do que não tiveste, tu não sabes como é que hás-de te comportar, como hás-de ocupar esse vazio. Não sabes como é que ele era, porque ele nunca foi preenchido. A música vai ser sempre, para mim, uma terapia, mas eu sinto que o consegui enterrar na Porcelana. É por isso que o “Ícaro” fazia todo o sentido estar ali, e eu explicar que finalmente consegui enterrar-te. Eu consegui dizer-te adeus, porque eu sentia que a minha escrita era muito focada nisso, na forma como é que eu lidei com a ausência daquela pessoa na minha vida e na vida da minha família.

E é um belíssimo tema, parabéns por isso. Quanto às vossas colaborações, como é que foi trabalhar com a Edna Oliveira, a Sara Espírito Santo e o Elísio Pereira?

[Perigo Público] Com a Edna e com o Elísio, não sei se eles já tinham participado em algumas coisas nossas, mas acho que…

[Sickonce] A Sara é que já estava no 1991.

[Perigo Público] Mas são amigos, na verdade! Eu acho que, na dimensão em que nós fazemos música, e tenho que ser honesto, tem que haver essa ligação. Eu nunca convidei um rapper para contar histórias comigo, porque até aqui nunca fez sentido. É como te digo: a primeira fase, Jeans Monroe, era uma coisa introspectiva; a segunda fase era a minha história com a minha cidade; a terceira fase é a minha visão do mundo, minha, nossa — o Rafa faz a parte instrumental. Depois, é preciso outras coisas para te ajudar a entregar essa mensagem com alguma qualidade e até leveza, então preciso de vozes que cantem. Recorremos às pessoas que estão ao nosso alcance — não porque não há mais ninguém, é que aquelas pessoas respiram o mesmo oxigénio do que nós. E fazem sentido ali. Se conhecerem a Edna e o Elísio, vão perceber que aquela energia que está nas músicas é original, como a da Sara, então faz sentido eles emprestarem a energia deles à mensagem que nós queremos entregar, porque vão trazer uma coisa diferente à nossa visão.

[Sickonce] E a Sara até acaba por nos acompanhar ao vivo nesta primeira fase e é alguém que já teve noutros discos, até ao vivo; já trabalhou comigo noutras coisas. É daquelas pessoas de quem é claro que nos vamos lembrar quando temos uma ideia.

[Perigo Público] A minha ideia de música é mesmo um negócio de família, e eu gosto de pensar nas coisas assim: nós temos todos de respirar o mesmo ar, perceber o que está a ser dito. Às vezes, eu acho que posso estar a ser ingrato ou injusto no que digo, mas a participação numa música tem de ser feita nesse sentido: aquela pessoa respira o mesmo ar do que tu, partilham uma perspetiva, percebe o que é que tu queres dizer, então, convida-se.

E há que ter capacidade de transpor isto para o palco. Como é que, ao longo dos anos, evoluiu o vosso espectáculo? É agora que atinge o ponto de maturidade?

[Perigo Público] Nós já temos muitos anos de estrada, tanto em conjunto como de forma separada. Mais uma vez, é utilizar as armas que fomos adquirindo ao longo do tempo, para chegarmos a esta fase, e acho que temos a capacidade de tocar em qualquer palco, sem qualquer preconceito ou estigma. Isso acho que vem mesmo da experiência: já fizemos tanta coisa diversa com tanta gente diferente, que agora conseguimos trazer essa experiência toda para cima do palco e juntar uma família bonita.

[Sickonce] Eu acho que são três coisas que tivemos de pensar. O conceito do álbum que queremos transmitir: esta estrutura faz sentido neste álbum, se calhar se fosse outro álbum era outra estrutura. Os nossos pontos fracos — chamar as pessoas que nos apoiar nesses — e os nossos pontos fortes, saber exactamente de pessoas que nos ajudem a reforçar isso. Não foi nada de muito pensado. O resultado final vem da soma das partes.

[Perigo Público] E é mesmo preencher com pessoas. Quando olharem para cima do público, queremos que vejam pessoas: independentemente de serem homens, mulheres, pretos, brancos, azuis, cor-de-rosa, é mesmo isso. Um grupo de pessoas a entregarem uma mensagem que faz sentido neste momento, neste universo entregar.

Mas põem de parte, para um quarto capítulo que venha, fazerem algo completamente conceptual?

[Perigo Público] Claro que não. Aliás, até nem pomos de parte fazer isso com o Porcelana, se fizer sentido [com a] evolução natural do espectáculo. Enquanto um disco acaba no momento em que é feito e posto na rua, o espectáculo não, pode…

Ganhar uma vida nova.

[Perigo Público] Sim. Agora, estamos com este formato, mas se percebermos daqui para a frente que precisamos de outro formato…

[Sickonce] Dependendo da sala… Até porque — e estamos a falar de um dia, o disco saiu há um dia, nós vamos tocar com as pessoas já a poderem conhecer os temas. Isso vai dar um feedback diferente. Tudo agora foi novidade para quem estava à nossa frente.

[Perigo Público] E também para nós. É uma novidade perceber como é que tudo funciona, vai ser o terceiro espectáculo, por isso também estamos a testar coisas: a perceber o que funciona, o que entra, o que sai, mudar aqui e acrescentar ali. Até dares o teu último espectáculo, não para de crescer.

De que forma é que o álbum nos vai chegar às mãos?

[Sickonce] É a primeira coisa que vamos falar deste assunto: as pessoas sabem que vai existir uma edição física, limitada, mas não sabem porque é que vai acontecer. Nós durante este processo de criação cedo percebemos que a história tinha de ser contada até ao fim, e ia-se contar até ao fim, até à entrega do que será o objecto físico às pessoas, e do concerto, tudo isso foi pensado. Cedo percebemos que não nos fazia sentido entregar um CD em formato normal nesta história e então, como nós estivemos em todo o processo a pintar os instrumentais, as letras, a história que queríamos contar, acabámos por pensar que a melhor forma de entregar o Porcelana às pessoas seria através de outra pessoa a entrar neste processo: uma artista plástica que é nossa amiga, a Inês Barracha. Fizemos um desafio que ela nunca tinha feito, ela nunca tinha pintado sobre este tipo de suporte. A ideia é ela contar a continuação da história num painel de azulejos de porcelana e, depois, dar oportunidade a cada pessoa de ficar com um bocadinho dessa história. 

Um fragmento desse painel vai para cada pessoa que o quiser. Para nós, isso tem muito mais valor daqui a uns anos, e a pessoa saber exactamente porque é que aquilo é uma peça assim e não é um CD, do que simplesmente ter um disco de música que eu comprei há uns anos atrás. Logicamente, as pessoas não vão pegar num azulejo e por numa aparelhagem; essa parte também tinha que ser resolvido. Ter a peça, para nós, seria suficiente, mas nós vamos dar um bónus; para quem adquirir a peça, vai ter acesso a conteúdos exclusivos que não vão estar de outra forma disponíveis, como os instrumentais, os acapellas, mais umas coisas. Um bocadinho como um brinde: “ainda bem que quiseste fazer parte do nosso mundo”…

[Perigo Público] E também dar a oportunidade, acho que isso acontece pouco em Portugal, que é os álbuns normalmente saem e ficam por ali. Nós podermos disponibilizar os acapellas todos e os instrumentais todos é dar também oportunidade a outros que queiram contar a história deles connosco, desenhar as suas próprias porcelanas. Esse convite fica mesmo feito, é assumido. Utilizem da forma que vocês bem entenderem, contem a vossa história connosco.

[Sickonce] Mesmo com as peças, já pensámos em mil maneiras de interagir com quem ficar com elas. Ainda estamos a afinar o que é que nos fará mais sentido, e dependerá da resposta das pessoas quando as começarmos a disponibilizar, mas tentar que aquilo volte para nós de alguma forma, que as pessoas façam alguma coisa com aquelas peças e tentar pensar nisso, na tal continuação desta história.


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