Pedro Mafama: “As coisas estão a acontecer mais rápido do que eu esperava”


[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS E VÍDEO] Manuel Abelho

Pedro Mafama é um dos artistas em destaque na curadoria que Rui Miguel Abreu, director do Rimas e Batidas, assina no Capitólio na edição deste ano do Super Bock em Stock. O multifacetado artista lisboeta defende as cores da turma de Ciência Rítmica Avançada, no Bloco Moche Lá Fora, na sexta-feira — o concerto está marcado para as 19h10.

Autor de dois EPs que chamaram a atenção da equipa do ReB — Má Fama e Tanto Sal foram editados em 2017 e 2018, respectivamente — era inevitável debruçarmo-nos no universo de um MC/cantor/produtor com uma visão tão peculiar da música portuguesa. Pedro Simões — o nome que consta no Cartão de Cidadão — não hesitou quando lhe propusemos esta entrevista e parecia que a ideia até já lhe tinha passado pela cabeça, quando prontamente nos sugeriu a Casa do Alentejo enquanto local para uma conversa mais a fundo. “Tem uma arquitectura árabe que me interessa bué”, explicou numa troca de mensagens.

A entrevista veio confirmar o que pensámos logo à primeira: Pedro é um homem com uma visão que vai para além da música, que estuda todos os passos a dar com a devida antecedência e deixa-os a maturar mentalmente, para que nenhum tiro seja dado em plena escuridão. Basta atentarmos o caso de “Jazigo”, cujo videoclipe foi realizado por António Freitas e o Fábio Silva — realizadores do documentário Hip To Da Hop. “Houve ali um instinto que me disse que aquelas eram as pessoas certas para me fazerem um vídeo”, referiu acerca daquele que foi um ponto decisivo no ainda curto trajecto e que nasceu através de um “namoro” à antiga mas com o devido toque de modernidade — uma “carta” digital.

Após a edição do videoclipe — e não será arriscada a ideia de nomeá-lo um dos melhores de 2018 — a popularidade de Pedro Mafama subiu, que até o levou a concretizar precocemente “um sonho”: “Trabalhar com a Enchufada”. E foi o próprio patrão da editora quem fez questão de lhe abrir as portas da casa, tendo convidado o antigo estagiário para uma maratona de batidas globais no Porto. “Quando saiu o vídeo do ‘Jazigo’, o Branko mandou-me mensagem a dizer ‘olha, era mesmo disto que eu estava à espera. Mostraste-te agora.’”

Durante a conversa com o Rimas e Batidas, Pedro destacou as ligação de Jay-Z a Nova Iorque ou de Gucci Mane a Atlanta, como base para a reformulação da sua carreira, após uma aventura no mercado digital como Pedro Simmons, um projecto que durou cinco anos. Aproximou-se do fado e das heranças arabescas de Lisboa e tornou-as ainda mais mestiças, recorrendo aos vários movimentos urbanos que se vão sentindo na capital portuguesa nos últimos anos, como são os casos do trap, kuduro, kizomba e reggaeton.

2018 termina da melhor forma possível para Pedro Mafama: depois da noite no Maus Hábitos, actua esta semana num festival, pela primeira vez, e foi também convidado para celebrar o 12º aniversário do Musicbox, em Dezembro.

 



Apesar deste teu projecto ainda estar no início, atravessas um momento bastante especial: lançaste dois EPs, tens um vídeo realizado pelo António Freitas e o Fábio Silva do Hip To Da Hop, concertos em Lisboa e no Porto. Estavas à espera de uma aceitação tão rápida?

Mais ou menos. Pensei que ia demorar mais tempo. As coisas estão a acontecer a pouco e pouco, mas este último convite do Branko para o Maus Hábitos foi mesmo um grande marco. Era uma coisa que eu queria mesmo. O meu sonho, basicamente. Trabalhar com a Enchufada. As coisas estão a acontecer mais rápido do que eu esperava. O vídeo [do “Jazigo”] foi um salto buéda rápido e acho que era isso que eu não esperava. As coisas estavam a andar assim [traça uma linha plana imaginária] e depois com o vídeo foi tipo assim [a linha sobe a pique]. Isso é fixe de perceber.

Tinhas-nos dito na altura que descobriste o António e o Fábio através do Rimas e Batidas.

Exactamente.

Tu viste o documentário deles, na altura?

Não vi o documentário na altura. Não o consegui ver. Vi os trailers e as coisas que vocês partilhavam no Rimas e vi, principalmente, um vídeo que eles fizeram para a banda sonora do documentário, dos Strolinflows [com Silab n Jay Fella]. É estranha a forma como eu consegui perceber… Houve ali um instinto que me disse que aquelas eram as pessoas certas para me fazerem um vídeo. Vi alguma coisa ali na maneira como eles tratavam o vídeo. Primeiro há logo aquela linguagem deles, nostálgica, com as coisas meio analógicas, as fotografias… Parece que há ali uma distância no tempo. Uma memória. Não uma coisa que aconteceu hoje. Lembro-me de eles filmarem os telhados das casas na Margem Sul, com as antenas todas ao monte e com a Lua… Eles não estavam a filmar a Margem Sul para fingir que estavam a filmar outro sítio. Estavam a apanhar aquilo pelo que é. Foi fixe, porque depois foi só preciso eu dar os meus toques no styling, nos sítios onde fomos filmar. As duas coisas — a minha estética e a linguagem deles, abstracta, de vídeo — coincidiram mesmo bem.

 



Referiste que era um sonho para ti trabalhar com a Enchufada. Muita gente provavelmente nem sabe, mas tu chegaste a estagiar com eles. O que é que tu fazias na Enchufada nessa altura e como é que chegaste até eles?

Isso aconteceu há uns oito anos, não sei precisar bem. Tinha acabado de sair do liceu. De uma passagem muito atribulada pelo liceu [risos]. Tinha tirado o curso profissional de multimédia e, quando o curso terminava, o pessoal ia todo para as gráficas estagiar, iam lá fazer aquele frete… Eu comecei a pensar em qual seria o sítio onde eu mais gostava de estagiar: é na Enchufada. Bati à porta dos gajos todas as semanas, ia lá, punha a minha melhor “pausa”, vestia-me bem. “Então, já viram o meu currículo?”, “ah sim, vimos”, “respondam-me lá a isso”. Devo ter lá ido umas três ou quatro vezes, com o Rastronaut a abrir-me a porta tipo “lá vem este puto outra vez” [risos]. Acabei por estagiar lá. As minhas habilidades de design gráfico, depois de um liceu todo a fazer merda, não eram assim geniais, mas ya. [risos] Fiz o estágio na Enchufada e depois fui com os Buraka [Som Sistema] vender as t-shirts e fazer o merchandising deles. Eu chagava lá e montava a banca nos concertos. E ainda foram alguns concertos — uns dez, ya. Foi na altura do Komba. Eles estavam em todos os festivais de Verão. A relação a partir daí manteve-se. Durante aquela altura ainda cheguei a ficar tipo a “mascote” deles. O puto com umas “pausas” estranhas que aparecia lá no Lux. [risos] Eles chamavam-me para o palco e não sei quê. Lembro-me de uma vez, em Londres, eles me terem arranjado bilhetes para ir ao Factory para os ver tocar. Abraçaram-me. Mas o que me surpreendeu, recentemente… Imagina, eu comecei a lançar os sons — há um ano — e eu mandava-lhes pelo WhatsApp. Silêncio, estás a ver? Não foi tipo “vamos salvar-te porque tu conheces os Buraka e não precisas de fazer mais nada da vida. Vens connosco e nós vamos por-te ali”. Não. Foi fazer sons, fazer sons e mandar-lhes sempre. Não sabia sequer se eles estavam realmente a ouvir aquilo e a prestar atenção. Depois é que comecei a perceber que sim. Numa vez ou noutra começava a escapar que, no escritório da Enchufada, eles andavam a ouvir as coisas. Quando saiu o vídeo do “Jazigo”, o Branko mandou-me mensagem a dizer “olha, era mesmo disto que eu estava à espera. Mostraste-te agora.”

Faz lembrar — embora numa escala obviamente mais reduzida — aquelas histórias que às vezes ouvimos de malta que vai para Los Angeles ou Nova Iorque, bater à porta de malta importante ou a travar conhecimentos em festas. Aquele hustle do mundo da música.

É mesmo. Com os Follow Creative Studio, quando foi para o vídeo, também foi um bocado assim. Quando tu sabes que é mesmo aquilo que tu queres naquela altura… Eu mandei-lhes um mail interminável a dizer porque é que eu achava que aquilo tinha de acontecer. Não é aquela coisa romântica de “o meu instinto diz-me que…” Mas quando tu sabes que tem de acontecer, faz mesmo o teu melhor por isso.

Outra coisa que a maioria das pessoas também não sabe é que tu tens uma ligação ao hip hop muito vincada, através do projecto Pedro Simmons, que tem, pelo menos, cinco anos. Nessa altura, o que é que te levou a abordar as batidas boom bap clássicas do hip hop norte-americano?

Ao início eu era o único puto que gostava de hip hop americano no liceu. Na altura estavam a surgir o Kanye West, Kid Cudi, aqueles hip hops mais alternativos que estavam mesmo a “bater”. Eu era o único puto do liceu, e até dos meus grupos de amigos, que só ouvia essas coisas. E vibrava imenso com isso. Enquanto o pessoal tinha uma ligação mais forte com o rap tuga, eu, como nunca tive aquela barreira da língua — tenho tios americanos e sempre falei bem inglês — sempre percebi muito bem o que os rappers americanos estavam a dizer. Quando eu comecei a rimar, enquanto Pedro Simmons… O “Simmons” era tipo uma homenagem ao Russell Simmons. Agora, quando penso nisso, fico tipo “porra, man…” [Risos]

 

 



Pensei que era apenas uma adaptação do teu apelido para algo mais americanizado.

Também era. Eram as duas coisas. O pessoal até já me chamava Simmons. Mas, basicamente, o que eu estava a trazer para a mesa era aquilo que eu recebia da América, em termos de letras e imaginário. Sei lá, letras de mente aberta, mais ambiciosas e assim. Ambiciosas mesmo no sentido de falares sobre as tuas ambições. Era um bocado uma tradução de rap americano para português. O que se calhar não encontraste é que entre esses sons que estão no YouTube e Pedro Mafama existiam, no meu SoundCloud, outros que eu escondi agora. Era Pedro Simmons também mas já era rap à americano, todo em português e no qual eu meti uma regra de que não ia dizer uma única palavra em inglês — a não ser que fosse uma marca —, em cima de batidas de kizomba e trap que eu fazia, muito mal misturados. Se calhar meto isso online outra vez, um dia destes. [risos]

Como é que tu dás esse salto, daquele hip hop boom bap para uma vertente mais afro, até mesmo com aquelas nuances do fado e da música árabe? Foi através de experiências ou, a certo momento, tu paraste e pensaste que querias misturar todos esses elementos naquilo que já fazias na altura?

Acho que foi uma mistura dos dois. Foram experiências que me fizeram aperceber de alguma coisa e também o pensar um bocado. Comecei a perceber que aquilo que eu estava a ouvir e a admirar na América não podia ser separado de… Imagina. Tu estás a ouvir o Jay-Z em 1996, em Nova Iorque. Quando tu ouves o Reasonable Doubt, tu não o separas, na tua cabeça, daquilo que era Nova Iorque naquela altura. Tu sentes aquilo, exactamente porque também te faz lembrar aquela altura, aquele mundo. Eu comecei a perceber que a música está um bocado localizada, ao contrário do que pode parecer. Hoje em dia, em plena época de globalização, é fácil pensar que não importa se estás a fazer dancehall em Tóquio ou na Jamaica, ou se estás a fazer trap no Camboja ou em Atlanta. Mas a verdade é que eu ouço Gucci Mane e imagino Atlanta. Imagino aquele universo todo. Comecei a perceber que não consigo desligar a música do sítio de onde ela vem. Eu tenho família em Barbados, e lembro-me de ir lá e ouvir dancehall com os Auto-Tunes. Ouvir Vybz Kartel nas Caraíbas, a beber rum e com aquela humidade tropical toda… É uma coisa que não consegues sentir em Amesterdão, se ouvires dancehall lá. Comecei a pensar “se Gucci Mane é Atlanta, então o que é que é Lisboa?” Tenho bué essa memória, dos carros a bombar kizomba às quatro da manhã, os afro houses… Da kizomba e dos afro houses para a música portuguesa foi um caminho rápido. As percussões da kizomba e da música tradicional portuguesa casam bem e fazem parte da mesma raiz.

Eram registos musicais que tu já ouvias ou, de certa forma, até eras um outsider e pensaste “eu vou fazer isto mas à minha maneira”?

Era um bocado outsider. Kizombas antigas e kuduros tinha no telemóvel, quando ainda se passavam pelo bluetooth. Era inevitável. Cenas portuguesas, foi a certa altura que se me desbloqueou qualquer coisa. Dantes eu tinha uma barreira. “Isto é tuga, é cultura portuguesa e eu não tenho paciência para isto”. Os nossos pais também cresceram um bocado a contradizer essas coisas. No pós-25 de Abril, “não me venham com fado para a cabeça…” O meu pai e a minha mãe queriam era ouvir o que vinha lá de fora. Foi uma libertação, que veio por oposição àquela coisa fechada do tradicional, que tivemos durante tantos anos. Depois o pessoal quer-se abrir. Acho que eu, durante muito tempo, tive essa aversão a tudo o que é português. Depois começas a fazer as pontes e percebes que “português” também quer dizer “africano”, também quer dizer “árabe”. Comecei a ver as pontes entre o fado e os blues… De repente há um mundo todo que se abre.

 



Antes do “Jazigo” tinhas o “Torneira”, no qual tinhas colaborado com o Pedro, O Mau e o Ex.Libris. É algo que deixaste de fazer depois disso — o colaborar com outros artistas. Passa pelos teus planos voltar a abrir novamente essa janela?

Não é uma decisão consciente. Foi uma decisão consciente eu produzir tudo o que faço. Dito isto, estou sempre à procura de pessoal com quem possa colaborar. Até porque sinto que tenho muito para trabalhar, em termos da minha produção. Cantar e produzir são duas coisas e há pessoas que são especializadas em apenas uma delas. Ao dividir os esforços, às vezes sinto-me limitado em relação a isso. Então estou sempre à procura de pessoas com quem colaborar. A coisa é que, antes de mostrar qual era a minha visão em termos de sonoridade e de estética que eu quero trazer, as pessoas não conseguem adivinhar. Eu não conseguia… Tentei ir a produtores e dizer “mistura-me aqui esta kizomba com aquele Gucci Mane”. E não resultava. Há coisas que tu só tens na tua cabeça e que não consegues depois explicar por palavras. Então, o facto de eu produzir as minhas coisas quase todas até agora, não é tanto uma coisa consciente, é só por estar ainda à procura das pessoas certas com quem trabalhar. Tenho estado a encontrar, porque agora estou a preparar algumas coisas com pessoal de cá que eu admiro imenso. Só não o faço mais porque não consigo encontrar as pessoas que estão completamente alinhadas. E as pessoas não precisam de estar alinhadas, porque cada pessoa tem a sua sonoridade e a sua visão.

E agora também se torna mais fácil porque as pessoas já ouviram efectivamente Pedro Mafama. Se tu pedisses esses beats a alguém, há dois anos, as pessoas ainda não tinham ideia de como soaria a fórmula que lhes estavas a pedir, porque não tinhas nada apresentado nesse formato. Os produtores agora podem ouvir-te antes, para perceberem para que caminho hão-de rumar.

É mais fácil tendo as minhas coisas para lhes mostrar, sim. E agora, de repente, também estão a começar a surgir pessoas que estão a fazer essa misturada também. Pessoas que mostraram ter a mesma visão de misturar sonoridades locais, exactamente como eu estou a tentar fazer. É bué fixe. De repente, já há bué gente a tentar chegar onde eu também quero chegar. Não é, de todo, dizer que alguém está a querer seguir alguém. Mas é fixe saber que não estão só uma ou duas pessoas a fazer isto.

Quando é que tu começas a produzir? Em Pedro Simmons, por exemplo, tu ainda não te arriscavas nessa tarefa. Já produzias na altura mas não querias mostrar-te nesse registo?

Eu acho que comecei a rimar primeiro e depois, logo a seguir, comecei a produzir. Mas eu sou um bocado preguiçoso, na cena de aprender um programa. “Epá, fogo. Não quero passar uma semana a ver tutoriais”. Tenho bué inércia nessas coisas. Vou descobrindo aos poucos por mim mesmo, vendo um tutorial aqui e ali.

 



Qual é que era esse programa?

O Fruity Loops, desde sempre. E ainda é. E não consigo imaginar, ainda, o dia em que seja outra coisa. Quando comecei com o Fruity Loops foi naquela altura do Timbaland, em que os beats digitais começaram mesmo a entrar. Lembro-me de ver o Timbaland a produzir cenas no Fruity Loops e a gravar sons de garrafas de plástico e não sei quê. E o Fruity Loops está sempre associado ao trap, aos kuduros, às kizombas. É sempre aquele programa que as “ruas” usam. Isso para mim é bué importante.

Tu tens até ao momento dois EPs. Fica agora aquela sensação de que o teu próximo passo poderá ser um disco de apresentação. É um formato no qual já pensas?

Sim. É uma coisa que me apetece imenso fazer. Estou a trabalhar para isso, na verdade. É só a questão de haver um momento certo para lançar o álbum. Agora sim, está a apetecer-me muito e estou a preparar isso. Ter um projecto que é mais do que quatro faixas, que é mais uma carta de apresentação. Ao mesmo tempo quero fazer isso bem e de forma bem pensada. Não quero desperdiçar esse momento, do primeiro álbum. Sinto que esses momentos são importantes. E é isso, tem que ver com classificar o momento: o marco que é o primeiro álbum e, segundo, o trabalho e o investimento que tiveste para fazer esse primeiro álbum. Senti que com este EP do Tanto Sal, em termos conceptuais, a coisa esteve muito próxima desse esforço. E aquelas cinco faixas têm todas deambulações sobre a coisa do fado e da música portuguesa, com o árabe e o africano. Por isso, sinto que este EP, conceptualmente, está próximo disso.

Para esse possível álbum, já pensas trabalhar com mais alguém ou ainda manténs no registo dos EPs, com produções tuas?

O álbum tem essa carga, de ser mais um projecto em que estou a colaborar com mais gente. E estou mesmo bué ansioso por esse momento. Até tenho aquela fantasia do produtor que está por detrás do artista. [Risos] Ainda não encontrei o produtor certo, mas sim, estou muito ansioso por esse momento do álbum, que será um projecto que engloba várias pessoas — uma equipa — a trabalhar nisso.

Apesar de ainda não teres o “tal” produtor, quem são as pessoas que já andam em torno da órbita do Pedro Mafama?

Especificamente, vou deixar as coisas ainda assim um bocado… Acho que na altura descobre-se. Mas em termos de sonoridade, estas versões cantadas de músicas da Enchufada que estão a sair, gosto muito. As coisas que o Dino está a fazer. O PEDRO, como produtor, está no ponto. Tenho muita afinidade com as coisas que o Conan Osiris e a Sreya estão a fazer. Mas acho que, ainda assim, são um bocado diferentes. É paralelo mas não bate na mesma coisa. É isso, entre essa turma do Conan Osiris e as coisas da Enchufada. Há cenas da Mayra Andrade que estão a bater num pontinho fixe. Príncipe Discos sempre, claro. Mas é isso, é um bocadinho paralelo. Esse caminho, se calhar, é o que está mais afastado em termos de formato. É uma coisa que eu admiro bué, a maneira como eles conseguem juntar o electrónico com o corporal. Tens aqueles tambores improvisados em cima de uma grelha e, de repente, a grelha já não é uma grelha, já está a derreter. A pouco e pouco, vai-se criando assim uma constelação de coisas a acontecer. Um dia, se calhar, junta-se tudo. Oxalá. Por enquanto, agora, são caminhos paralelos. Mas já começam a demonstrar uma galáxia específica.

Para a tua actuação no Super Bock em Stock, preparas alguma coisa em especial? Provavelmente até é a tua última actuação do ano.

Por acaso não. Vou estar também no aniversário do Musicbox. Vou tocar com a Ms Nina, de Espanha, que é uma gaja do caraças. Está dentro desta [nova] onda do reggaeton. Ela é tipo a rainha dessa escola. Estou bué ansioso por esse momento também.

Super Bock é no dia 23. Vai ser a primeira vez em que eu estou num palco de festival e que, fisicamente, é um palco maior. É a coisa mais parecida com um palco grande que eu vou ter, até agora. Estou bué ansioso por esse momento. Uma coisa é estares na Casa Independente, em que tens as pessoas tipo aqui [quase à mesma altura que o artista] e tens um palco de certo tamanho, outra é teres as pessoas bué abaixo de ti. Se calhar vai ser uma coisa estranha, não sei. Essa distância que a arquitectura cria. Vou ver como é que lido com isso. Em termos de set, vou melhorar aquilo que tenho feito. Também sinto que, a cada mês que passa e a cada concerto que passa, estou a chegar a pessoas diferentes. Por isso não estou muito preocupado em alterar completamente o set de concerto para concerto. É mais uma coisa de melhorar. E estou bué feliz com o que estamos a fazer. Sou eu e a Camila a soltar os beats, a minha DJ.

Tens alguma surpresa na manga? Algum tema novo?

Talvez, talvez, talvez. Tu é que o disseste! [risos]

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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