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Texto: Vera Brito
Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 25/04/2019

O artista norte-americano apresentou ontem o seu mais recente disco.

Panda Bear na Culturgest: Buoys em alta fidelidade

Texto: Vera Brito
Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 25/04/2019

São quase nove da noite e a fila para entrar na Culturgest ainda é longa, sala cheia para Panda Bear que em Lisboa joga sempre em casa, desde que há alguns anos trocou a cosmopolita Nova Iorque pela capital portuguesa, também ela cada vez mais vibrante e atraente para todos aqueles que são ávidos de uma cultura capaz de cruzar correntes e tribos que em outros contextos seriam improváveis aliados, conseguindo manter (por enquanto) uma dimensão quase familiar, onde todos se conhecem e as colaborações surgem com naturalidade. Buoys, novo disco de Panda Bear editado em Fevereiro e o motivo da reunião desta noite (as muitas caras familiares pelo público, os amigos que se cumprimentam e o ambiente intimista que a Culturgest oferece, fazem com que a noite pareça um encontro de velhos conhecidos há muito aguardado), pode não ter influências óbvias desta pluralidade de Lisboa, continuando a ser um trabalho pela voz muito própria de Noah Lennox, mas marca o começo de um capítulo artístico diferente para o músico e, certamente, as suas vivências por cá terão desempenhado um papel importante.

Há uma crueza, uma simplicidade até, que não deve ser confundida com facilidade (não existe nada ao acaso nas composições de Panda Bear), no som aquoso de compasso lento de Buoys, que nos desacelera a vida abrindo espaço à contemplação e reflexão. O músico de Baltimore deu-nos um disco em que menos é mais, com pausas para respirar ou, se preferirem, bóias a que nos podemos agarrar e assim descansar das correntes fortes dos dias, flutuando de olhos postos na imensidão do céu. Talvez por isso ontem tivéssemos ido para o seu concerto com a perspectiva de navegar por águas calmas, quem sabe até, vê-lo desenhar drones hipnóticos na guitarra, recordando-nos o concerto de celebração de Sung Tongs do Verão passado.

Cedo se percebeu que a noite seria afinal pulsante, com toda a produção de luzes estroboscópicas e vídeos projectados nos três ecrãs instalados em palco, que proporcionaram muitas vezes verdadeiros momentos de devaneio alucinogénico, complementando a música de Panda Bear na perfeição, com todas as faixas que ouvimos de Buoys a soarem muito mais audazes ao vivo do que em disco. Sabemos bem que a forma como a maior parte de nós hoje em dia consome música não é a melhor, muitas vezes a partir de headphones de fraca qualidade, possivelmente a partir de streams também eles de qualidade reduzida, ainda com todo o barulho de fundo do local de trabalho, dos transportes públicos e de todos os espaços por onde nos movemos. Buoys, em especial, não deveria ser apreciado assim e ontem o bom som da sala permitiu-nos ouvi-lo de outra maneira, com renovada atenção. Fizemos até as pazes com o gotejar de “Dolphin” que em disco nos tinha deixado de pé atrás, mas que ontem ressoou por todo o auditório sintonizando-nos com estes dias de chuva. “Token” pareceu-nos ser a música que mais ganhou ao vivo, não deixando nem um espaço por preencher, foi verdadeiramente catártica e no final só queríamos poder carregar no replay.

Oportunidade única também para ouvir quase na íntegra A Day with the Homies, EP que saiu no início do ano passado apenas em edição física. “Nod to the Folks” e “Part of the Math” deixaram-nos com muita vontade de levantar da cadeira para nos entregarmos à pista de dança. “Comfy in Nautica” foi outro dos momentos mais especiais, como é sempre qualquer música de Person Pitch (parece mentira, mas já tem mais de uma década…), com o seu jogo de harmonias vocais e com as palavras: “try to remember always, always to have a good time, good time” que irão repetir-se infinitamente como um mantra na nossa cabeça. Este é aliás um dos efeitos que as letras de Panda Bear provocam: diversos fragmentos de ideias para cada um de nós agarrar e levar consigo.

Sozinho atrás da sua mesa de sintetizadores, samplers e outros gadgets que nos escapam, Noah Lennox é um performer discreto, completamente absorto na sua arte que, para além das palavras cantadas, não precisa de outras para comunicar com o seu público, que ontem procurava por espaços para conseguir aplaudi-lo, sem perturbar o alinhamento de 13 músicas que se seguiram sem interrupções e que contou ainda com uma novidade: “Playing the Long Game”, surgida nos concertos deste ano, traz-nos um lado sensual à música de Panda Bear que ainda não tínhamos ouvido (esperemos que seja editada o quanto antes).

Despedida sem encores, com visita a Tomboy, “Last Night at the Jetty” encerrou em forma de testemunho: “I don’t want to describe something that I’m not, I don’t want to hide the hopes that I have, I want to enjoy what’s meant to enjoy” e de Panda Bear esperamos sempre esta liberdade artística, para continuarmos a ser surpreendidos com discos que não se repetem, com concertos que trazem sempre algo de diferente. Que nunca deixe de construir mundos extraordinários e que nos permita habitá-los sempre que quisermos.


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