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Os sons que mais rodei em 2015 por Nuno Afonso

[TEXTO] Nuno Afonso [FOTO] Direitos Reservados

 

Observando as habituais listas de fim de ano que proliferam nesta época, surge a sensação de que perdi muitos discos e artistas ao longo destes últimos 12 meses. De qualquer modo, 2015 foi um ano de escuta relativamente atípica onde o papel da escuta integral de discos quase se equivaleu ao acompanhamento regular de podcasts, rádios online e mixes – cada vez mais uma fonte inesgotável de saber. Entre os regressos aguardados de Cooly G, James Ferraro ou Cannibal Ox, e a novidade dos trabalhos de Lotic, Jlin ou Dawn Richard, segue então o flashback em jeito de balanço com 10 dos meus favoritos momentos musicais do ano.

 


 

[CANNIBAL OX] Blade Of The Ronin
(I.G.C Records, 2015)

2015 ficou marcado pelo regresso dos icónicos Vast Aire e Vordul Mega. Uma longa espera de 14  anos que muito fez fantasiar por esse momento. A maior das questões seria porventura saber como pegar nas pistas deixadas pela obra-prima Cold Vein – e lidar com todas as expectativas criadas pelo tempo. Neste sentido, o comeback de Cannibal Ox é uma autêntica lição de classe e estilo, sem reinvenções forçadas. Demonstram porque eram e são uma força criativa ímpar, mestres na criação de um rap espacial situado algures entre um beco de uma cidade sem fim e um misterioso céu estrelado. Essenciais como sempre.

 


 

[COOLY G]Armz House EP
(Hyperdub, 2015)

Felizmente um nome cada menos periférico e mais presente nos espaços que interessa. Cooly G tem eregido um estatuto com a discrição e assertividade próprias de quem não quer conquistar o mundo num dia. Ao invés, vai demonstrando importantes passos na criação de uma identidade já exemplar na Hyperdub e parece não cessar de experimentar novos horizontes. Armz House trouxe cinco faixas assumidamente entregues ao clubbing, num misto techno e UK garage, já distante do alvorecer meloso de Playin’ Me. Foi um disco constante nas minhas escutas deste 2015 e serviu de aquecimento caseiro pré-festivo em diversas ocasiões. Poderá ser para a maioria um ponto menor neste balanço anual, mas por aqui bateu forte e bem, como convém.

 


 

[JLIN] Dark Energy
(Planet Mu, 2015)

Outra figura feminina que marcou o ano, muito à custa de uma implosão sonora chamada Dark Energy. Jerrilynn Patton conseguiu, como ninguém nestes últimos meses, alargar as fronteiras do footwork/juke para planos pouco previsíveis. Acima de tudo, a marca de Jlin surge na liberdade de movimentos e ideias sob um clima de tensão que nos convida também a especular sobre o que estamos na realidade a escutar. Em maio dediquei umas linhas sobre este disco e sete meses depois tenho a acrescentar que

hoje em dia soa ainda mais radioactivo. De resto, a imagem da capa é revelatória do seu conteúdo.

 


 

[JAMES FERRARO] Skid Row
(Break World, 2015)

Perante uma discografia tão extensa e ramificada como é a de Ferraro, não deixa de ser admirável como continua a encontrar motivos para nos agarrar às suas incursões pelo imaginário da cultura pop. Num registo quase constante, entrega a cada álbum um cenário exacto e irreproduzível. Skid Row é um retrato distorcido de paranóia e decadência urbana . Embora conceptualmente localizado na downtown de Los Angeles, esta revelou-se a banda sonora ideal para passeios de bicicleta nocturnos pela Avenida Almirante Reis.

 


 

[LOTIC] Agitations
(Janus, 2015)

Período intenso, de progressiva explosão, para o produtor texano a residir em Berlim. Com a mixtape Agitations demonstrou porque tem vindo a dominar  um território ainda desconhecido, muito para lá das referências mundanas ao techno ou ao industrial. Uma continuidade luxuosa do pequeno colosso que representa o EP Heterocetera. Naturalmente caótico, electrizante e sugestivo, Lotic é um sabotador da electrónica actual. A ele devo também um valente sobressalto a meio da noite quando surge, de modo aleatório, no meu iPod quando o cérebro já se tinha desligado. Susto do ano, portanto.

 


 

[DAWN RICHARD] “Swim Free”
(Blackheart, Our Dawn Entertainment, 2015)

Num disco amplamente surpreendente como é Blackheart, este tema poderá não ser a escolha mais óbvia, mas de alguma forma foi ganhando um lugar muito especial. Neste que é um dos momentos mais introespectivos do álbum, a melancolia e sensualidade parecem balançar lado a lado até ao surgimento do encanto melódico da kalimba. Aconchegante, sonhador e capaz de nos levar a mergulhar a esse mar de liberdade prometida por Dawn Richard.

 


 

[NIAGARA] “Arruda”
(Ímpar, Príncipe Discos, 2015)

Muito provavelmente o meu banger preferido nestes últimos meses. Rodou intensamente em casa e ritmou infinitamente as minhas caminhadas rotineiras nos auscultadores. Rolou também em, pelo menos, duas pistas de dança lisboeta onde tive a honra de comandar os beats. O motivo da escolha é o mais ilustrativo possível: cinco minutos de uma cascata de água fresca de côco vista com óculos 3D. Está lá tudo. É um prazer e uma honra ser abençoado com cada novidade dos Niagara. Faz tempo que já o era, mas depois disto o sentimento de admiração parece não ter quaisquer limites. Um dos nomes fundamentais de 2015, se me perguntarem.

 


 

[VINCE STAPLES] “Summertime”
(Summertime ’06, Def Jam, 2015)

Um álbum relativamente consensual neste ano que agora termina e com diversas justificações para tal. No entanto, é chegando à última faixa (do primeiro de um duplo álbum) que a adrenalina arrefece. Quase como que um suspiro (ou último respiro), o tom confessional de Staples no tema “Summertime” surge adornado pela produção imaculada do wonderboy Clams Casino. De facto não poderia existir mais ninguém para acompanhar este blues balsâmico e desolador, mantendo uma doçura inexplicável do início ao fim. “This could be forever, baby“, ecoa ainda e sempre.

 


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[KNOW WAVE]

Porque escutar música não implica apenas pegar num disco, também o universo das mixes e das rádios é um meio fundamental para conhecer e partilhar novidades ou antiguidades em jeito de descoberta. 2015 foi o ano em que me cruzei com a Know Wave, rádio online a transmitir desde uma cave da galeria OHWOW, em Nova Iorque. Um formato livre onde quase tudo – ou mesmo tudo – pode acontecer em estúdio (recordo alguns momentos de puro caos, entre batidas infernais e entrevistas alucinadas). Rap, grime, techno e outras frentes sonoras são o prato forte da ementa, mas também há espaço para funk avariado, declamação de poesia trashy e mesclas de sons incatalogáveis. Experimentação pura, diversão máxima. Para eles e para nós, claro.

 


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[RÁDIO QUÂNTICA]

Mas também por cá se assistiu ao nascimento de uma plataforma online com espírito semelhante. A Rádio Quântica encontra-se a transmitir há pouco mais de um mês mas já conquistou um público cativo. Com emissão ininterrupta e rodedos de alguma da nata de produtores e DJs nacionais, são vários os programas que actualmente têm espaço na Quântica. Muita gente talentosa, muita música refrescante e uma entrega apaixonada fazem deste projecto um porto seguro para qualquer melómano.

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