Após publicarmos um ensaio sobre Opressionismo, o terceiro e último capítulo da trilogia de O Dread Que Matou Golias, damos continuidade à semana de Holly Hood como editor honorário do Rimas e Batidas. Desta vez, o rapper e produtor da Linha da Azambuja selecciona os momentos-chave ao longo desta década de carreira e os principais lugares que moldaram esta tríade de discos.
Continuamos em contagem decrescente para o concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no próximo sábado, 14 de Março. Ainda há bilhetes para assistir ao espectáculo.
[Os momentos que definiram a década]
Há momentos de impacto imediato, como “Qualquer Boda”, feita no Natal de 2015 e lançada sem aviso prévio a 1 de Janeiro de 2016. O impacto foi grande e confirmou, logo cedo, que a sonoridade tinha qualquer coisa de própria para acrescentar à cena.
Há momentos de afirmação pública, como a apresentação de O Dread Que Matou Golias no MEO Sudoeste, por ter sido o primeiro concerto em nome próprio e num festival tão emblemático para o rap nacional.
Há momentos que funcionam como choque de realidade e de escala, como tocar com DJ Premier no Seven (Algarve) — o dia em que houve contacto direto com uma lenda mundial do hip hop — e estar no backstage com os Wu-Tang Clan no Super Bock Super Rock, naquele que foi o meu último concerto, com a oportunidade de ver ao vivo e estar de perto com várias lendas da cultura.
Há momentos de construção estética, como o videoclipe de “Miúda”, marcante pela primeira experiência a filmar em película (16mm); e momentos de bastidores que parecem ficção, como o videoclipe de “Fácil”, que ficou associado à história de uma viagem sem travões a caminho da rodagem.
Há momentos em que a música mostra impacto físico e não apenas simbólico, como quando o drop de “Cobras e Ratazanas” rebentou as janelas de um cineteatro — um episódio quase surreal, mas memorável.
Há também momentos íntimos que mudam uma pessoa de forma silenciosa, como ver a primeira tatuagem com uma rima minha. A partir daí, as palavras deixam de ser “minhas” — passam a viver no corpo e na história de outra pessoa. E há momentos de contexto cultural, como a participação n’A História do Hip Hop Tuga [na MEO Arena], marcante por atuar em frente a tanta gente e ao lado de alguns dos maiores nomes da cena — uma experiência que reforça a noção de pertença.
[Os lugares que moldaram a trilogia — a geografia também escreve]
Estúdio da Superbad
Mais do que um estúdio, é uma oficina. É o sítio onde a música deixa de ser impulso e passa a ser construção: repetir takes, testar ideias, cortar excessos, afinar detalhes. Foi ali que muito do universo da trilogia ganhou forma real — não só no som, mas também na exigência com que cada faixa foi sendo trabalhada até “ficar de pé”.
Casa dos pais (Linha da Azambuja)
É o lugar de origem no sentido mais fundo: não só onde cresci, mas onde se formou a minha forma de olhar para o mundo. O contexto, o ambiente e os códigos dessa fase ficaram inscritos na escrita muito antes de existir uma “personagem” ou uma carreira. No videoclipe da “Daddy”, há também cenas gravadas nesta casa, precisamente para criar essa ligação directa ao lugar de origem e à base emocional de onde tudo parte.
Casa actual (Olivais, Lisboa)
Tem um peso diferente: já não é a fase de formação, é a fase adulta. Outras responsabilidades, outras pressões, outras perguntas — e um tipo de solidão mais complexa. É também a “selva” a que se refere em “Quem Dá Costas É Presa” e serve de cenário nos dois últimos videoclipes, ligando directamente o espaço físico ao imaginário desta fase da trilogia.
Associação Musical do Catujal
Foi um ponto de encontro essencial nos primeiros anos: o lugar onde se mandavam muitas das primeiras rimas, se testava presença e se aprendia a medir energia. A técnica ainda estava a crescer, mas a fome já era grande. Mais do que “cenário”, foi um espaço de prática, convivência e afirmação inicial.