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Os estranhos sonhos de Paul White

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

 

A progressão tem sido geométrica: três beats em XXX, cinco em Old e agora dez dos quinze que se incluem em Atrocity Exhibition. Alexandre Ribeiro cuidou de explicar que a mais recente criação de Danny Brown é forte candidata ao título de álbum do ano e boa parte desse mérito pode e deve ser repartido com Paul White, produtor britânico que tem conquistado espaço na discografia do excêntrico rapper americano por razões muito óbvias: a construção da persona oblíqua de Danny Brown ao longo de aplaudidos registos como os já citados XXX (2011) e Old (2013) levou-o a procurar diferentes arquitectos que lhe pudessem criar espaços alternativos para as suas palavras habitarem e White revelou-se capaz de assumir a tarefa de evitar as estradas mais percorridas no mapa do hip hop contemporâneo oferecendo a Brown diferentes espaços para as suas deambulações poéticas. O culminar dessa relação é Atrocity Exhibition, um álbum que, explicou o rapper, foi informado por audições de bandas como Talking Heads, System of a Down (!!) ou Joy Division.

Paul White assinou outras duas colaborações recentes: já em 2016 dividiu com Open Mike Eagle os créditos de Hella Personal Film Festival e o ano passado lançou o projecto Golden Rules que reparte com o rapper da Flórida Eric Biddines. Em ambos os casos parece haver um perfil sonoro muito claro: em Hella Personal… são os anos 70 que se estenderam entre Wild Man Fischer, os krautrockers Kraan e as toneladas de vinil anónimo carregados de excessos rock ou detritos da era dourada dos singer-songwriters que hoje preenchem as caixas de saldos nas lojas de discos usados; já em Golden Ticket, o lançamento do ano passado que marcou a estreia da dupla Golden Rules, parecem ser os registos mais soul dos anos 80 a alimentar o sampler de Paul White, o que até bate certo com o tratamento dado a I Got The Melody dos Odyssey na participação do produtor britânico na série Rhythm Roulette da Mass Appeal: era definitivamente para esse tipo de texturas que White estava mais voltado em 2015.

 



Não será por isso mesmo de estranhar que Paul White possa ter seguido à risca um briefing estético de Danny Brown antes de embarcar no seu mais recente projecto: é que Atrocity Exhibition está longe de soar como o resultado de uma mera aquisição de beats por catálogo, um “estou a pensar gravar novo álbum, mostra-me lá o que é que tens aí”. A solidez sonora do álbum aponta mais para um trabalho realizado depois de comunicadas coordenadas emocionais e balizas estéticas o que vai de encontro ao que parece ser o método de trabalho de Paul White, um produtor que mais do que o factor de familiaridade procura em cada sample que usa o seu ADN sónico, as texturas que podem abrigar-se sob as notas.

Outra marca do carácter distinto da música criada por Paul White parece ser a sua capacidade de sobrevoar tendências momentâneas e de construir uma linguagem própria que não é nem boom bap, nem wonky, nem trap ou futurista. E isso consegue-se graças a um particular método de trabalho. White sampla, claro, mas não é um digger da estirpe de DJ Shadow ou Madlib e na sua obra encontram-se sobretudo ecos do passado mais visível e documentado e acessível em qualquer loja que ainda reserve espaço para vinil usado – nos seus beats há samples de Jimi Hendrix e Pat Metheny, de Vangelis, 10CC, Peter Gabriel, Van Der Graaf Generator ou King Crimson: o que poderia muito bem ser a típica lista de nomes cujos discos se encontram em qualquer uma das inúmeras lojas de caridade que povoam as high streets dos arredores de Londres. Ou seja, parece que mais do que samplar um determinado som ou groove, um determinado músico ou produtor do passado, como tão bem fazem os diggers atrás citados, White prefere samplar a personalidade de uma determinada era, a sonoridade de certas correntes: as multipistas dos anos 70, o ar dos estúdios do início dos anos 80, a grandiloquência do prog, a sofisticação acetinada da soul dos anos 80, o carácter angular do kraut ou a dimensão multicolorida do psicadelismo.

E depois, a isto, White adiciona o facto de ser um músico com razoáveis capacidades, capaz de integrar os seus teclados ou pormenores percussivos ou até mesmo a sua voz nas suas criações (algo muito presente em Shaker Notes, o seu último trabalho a solo, lançado em 2014 na R&S). À Passion of the Weiss, na sequência do lançamento de Shaker Notes, White admitiu que o seu sonho passa por fazer música equivalente à dos discos que se vão atravessando à frente do seu sampler: “Parte da minha personalidade leva-me a querer evoluir e experimentar e mudar, nunca me instalar, tentar sempre coisas novas novas novas! Por isso um outro sonho entrou na minha cabeça há muito tempo! O novo sonho passou a ser fazer música como a dos discos que eu estava a samplar!”

 



Paul White estreou-se em 2009 com The Strange Dreams of Paul White, álbum que incluía o tema “The Uprising of the Insane” que é bem capaz de ter dado uma ideia ou duas a Kanye West que um ano depois também decidiu samplar os King Crimson em “Power”. Tanto Strange Dreams como Sounds From The Skylight, ambos editados pela One-Handed Music em 2009, apresentaram ao mundo a novidade de uma postura sonora diferente, um produtor que não temia o lado mais excessivo do rock na hora de samplar e que tinha aprendido um par de importantes lições nas suas audições de rock psicadélico, nomeadamente ao nível da espacialização dos sons na mistura.

Essas lições foram aplicadas de forma perfeita em Paul White & The Purple Brain, álbum que foi lançado em 2010 em conjunto pela Now Again (que então era ainda um selo com ligação à Stones Throw, comandado por Egon) e pela One-Handed Music. Plenamente psicadélico, este trabalho baseia-se largamente na abordagem de White à obra gravada de S.T. Mikael, um obscuro multi-instrumentista sueco que desde 1989 lançou uma série de álbuns psicadélicos na sua própria Xotic Mind Productions. Egon descreveu Purple Brain como um trabalho “intrigante” que resultava da “imaginação fértil” de um produtor que à sua disposição tinha apenas “um sampler e um par de brinquedos”. O álbum acaba por ser uma obra prima moderna de psicadelismo electrónico, um exercício de descoberta a partir das margens mais longínquas do hip hop que se encaixou de forma perfeita na agenda esotérica da Now Again de Egon que à época já incluía no seu generoso catálogo entradas para a memória exótica dos Stark Reality ou para o funk laboratorial dos Heliocentrics de Malcolm Catto.

 



Esse álbum, curiosamente, abriu a música de Paul White ao universo dos rappers: como resultado directo do input de Egon, a edição em vinil de Purple Brain incluía um 12″ extra com uma versão alternativa do tema “Ancient Treasure” com Guilty Simpson a encaixar-se de forma perfeita num labirinto psicadélico de riffs de guitarra.

Essa foi a chave que abriu a porta para todo um mundo novo de possibilidades que o produtor levou ao limite em Rapping With Paul White, álbum de 2011 que contava com a colaboração de rappers como Guilty Simpson, Homeboy Sandman, Marv Won ou… Danny Brown. Em entrevista à Bonafide, White explicou como tudo aconteceu: “Obviamente que quis contar com o Guilty depois de ter feito o tema “Ancient Treasures” do álbum Purple Brain com ele. A ligação nesse tema veio através do Egon na Now Again e depois através do Guilty conheci melhor o House Shoes com quem já tinha contactado um pouco antes. Isso levou à ligação com Danny Brown e Marv Won e depois encontrámos o Homeboy Sandman e o Moe Pope, e foram ambos incríveis também. Claro que também quis ter alguns rappers britânicos e isso levou-me até ao Tranqill e ao Jehst”.

Como sempre acontece nestes álbuns em que os rappers provavelmente estão a pagar com raps alguns beats pedidos para os seus próprios álbuns, os MCs não são propriamente a parte forte da equação e felizmente há uma versão digital instrumental que permite comprovar o crescimento de White, claramente influenciado aqui pelo trabalho de Madlib (a sua relação com Egon e com a Stones Throw certamente que lhe valeu uns quantos promos que foram estudados com afinco), mantendo o lado psicadélico das produções, mas abrindo também a sua lista de recursos na programação a uma ética pós-Dilla manifestada nalguns arranjos mais soluçantes, menos comprometidos com o rigor métrico, mais “livres”.

 



Desde então, Paul White tem trabalhado afincadamente. Em 2011 deu início à sua relação estreita com Danny Brown, mas também tem vindo a construir uma prolífica proximidade com Homeboy Sandman tendo contribuído com beats para os eps Chimera de 2012, White Sands de 2014, para a Tour Tape de 2015 e para o recente álbum Kindness For Weakness no qual divide espaço nos créditos com outros produtores como Jonwayne, Edan, Eric Lau, RJD2 ou Large Professor.

Mas é o período pós Shaker Notes que tem garantido maior visibilidade a White: além dos já mencionados projectos colaborativos (Golden Rules, Open Mike Eagle), o produtor britânico tem beats em trabalhos de Diamond District e Red Pill (ambos da Mello Music Group) ou Jamie Woon (assina “Thunder” em “Making Time” do ano passado), sinal claro de que a sua reputação começa a espalhar-se.

Com a previsível inclusão de Atrocity Exhibition nas listas de melhores álbuns do ano virá inevitavelmente uma maior atenção para o trabalho de Paul White que poderá muito bem ver a sua cotação subir de forma considerável na bolsa de valores dos melhores produtores contemporâneos de hip hop. A sua discografia já tem lastro suficiente para justificar esse novo estatuto e está pejada de amostras de um talento que parece não ter parado de crescer nos últimos sete anos. Tendo em conta a quantidade de entradas na sua discografia fica-se até com a sensação de que Paul White já anda cá há muito mais tempo – essa é, aliás, uma característica típica dos sonhos, a distorção das medidas de espaço e de tempo. Mas neste caso não há dúvidas: Paul White editou sete álbuns em sete anos e produziu para pelos menos outros tantos. Porque, como dizia o nosso poeta, o homem sonha e a obra nasce. E Paul White parece ainda não ter aberto os olhos…

 


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