Odete: “Eu quero poder sentir que tenho espaço para falhar e experimentar”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Lisboeta Italiano

Meio ano após o seu último EP, está novamente aberta a época de Odete. Imbuída das suas vivências noctívagas, munida de uma autêntica “caixa de ferramentas” que firmou por arqueologia própria, senhora de um “playground” que cada vez mais pode ser sinónimo de todo o mundo da electrónica. Não é por pouco que o seu nome reside nas bocas dessa dimensão: desde a revista Fact até à produtora Ariel Zetina, as flechas da aclamação atravessam tanto os seus portentosos mixes como uma obra em nome próprio, em que deposita cada vez mais de si.

Para já, despede-se da experiência táctil e combativa, da textura com propósito e propriedade de Matrafona. A tentativa de arquivar e conectar nesse projecto suspende-se agora para uma meditação centrada em si mesma: a fascinante Amarração que apresenta em parceria com a Troublemaker Records e a Rotten \ Fresh é ainda subversiva, se mais ponderada na sua incisão (ainda havendo, contudo, os clássicos sons de espadas afiadas). Mas é um fascínio sem vínculo este “unbinding spell” — palavras de Odete para descrever o seu novo EP.

O Rimas e Batidas conversou com a artista multidisciplinar afim de fazer a ponte entre Matrafona e o novo disco, percebendo como uma produtora de crivo inalienável negocia o poder no processo criativo — e lida com a pressão e a expectativa numa fase de reconhecimento crescente.



Na capa do teu projecto anterior, o textural e frenético Matrafona, inseria-lo na tua procura de linguagem que unisse uma “comunidade desagregada”. O título do sucessor, Amarração — que já era antecipado pela faixa “Início de Amarração” — parece sugerir uma continuação fortificada dessa tentativa. Sentiste algum progresso com esse primeiro esforço? O que esperas atingir com este?

No Matrafona, eu estava preocupada com usar a música para agregar samples, sons, melodias, que compusessem uma espécie de micro-arquivo de uma comunidade LGBT ao longo da história. Samples de drag queens a falar, títulos que remetessem para símbolos e experiências minhas enquanto rapariga trans, melodias de lira, sons de polícias, ou seja, sons que de alguma maneira eu sentia que compunham uma paisagem sonora do que seria uma identidade LGBT trans-histórica.

Neste EP, Amarração, eu tentei sair de uma procura através da história e do arquivo para tentar algo através da fantasia. A minha intenção era conseguir criar músicas que fossem, de alguma maneira, mini mundos fantásticos onde a minha dor pudesse existir fora de mim, quase como se a projectasse em mini fantasias de 3 minutos. Daí que o meu processo de composição tenha partido de samples figurativos como o som de uma espada, o som de água a correr e coisas assim, para que no conjunto eles formassem um micro-universo onde eu pudesse encerrar uma experiência minha. A procura de linguagem do Matrafona, que era essencialmente histórica, transformou-se aqui numa procura de um mundo para mim onde a minha voz ganha espaço e passa a existir da mesma maneira que todos os outros elementos da música. A linguagem deixa de ser o ponto fulcral.

Aquando da edição do Matrafona, falavas do teu trabalho de dia como algo aprisionador — consegues navegar isso hoje de outra forma ou a arte continua a ser a tua libertação substancial?

Quando fiz o Amarração ainda trabalhava num full-time horrível, quase sem tempo nenhum para fazer música. Contudo, quando acabei o EP, consegui sair desse emprego e dedicar-me a descansar e só ao meu trabalho artístico (graças a gigs e trabalhos que me pagam o dia a dia). Acho que navegar (como dizes) um day job e fazer música é uma coisa quase anti-climática, porque o nível de cansaço é tão grande que deixas de perceber seja o que for. Não sei bem como consegui fazê-lo, mas creio que estava num ponto de dor tão grande e de necessidade de contar a minha versão de uma situação sufocante que acabei por me dedicar a este EP apesar do tempo inexistente. Acho que não conseguir falar com palavras, frases, expressões — sei lá, com linguagem como ela é entendida normalmente –, acabou por me ajudar a insistir na música enquanto trabalhava.

O que é que aprendeste com esse último projecto que transferiste para a concepção deste novo disco?

Aprendi coisas técnicas que ainda não tinha descoberto mas, sobretudo, aprendi a usar a minha voz. Sinto que este EP é um trabalho de transição, onde sinto que descobri formas de usar a voz e formas de compor autobiográficas que ainda não estavam presentes (ou se estavam, estavam de maneira apontada, rascunhada). Aprendi também (ou melhor, re-aprendi) que a dor é um alimento demasiado forte para o trabalho criativo e que queria saber controlar melhor. Às vezes ela toma demasiado conta da minha vontade e gostava que a minha música fosse para além da expressão da dor e do trauma. Não que ache isso inferior, mas sim porque eu tenho sonhos e vontades de existir que não são só baseadas numa experiência negativa da vida.

Quando surgiu a ideia de editar o Amarração como um misto de originais e remisturas?

Não sei bem se essa ideia surgiu de mim! O Diogo, da Rotten \\ Fresh, sugeriu-me lançar uma cassete e avisou-me de que [esse formato] poderia ter dois lados (A e B) e sugeriu convidar pessoas para um remix. Quando soube a quantidade de tempo que cada lado tinha, quanto fita era, fiquei com vontade de usar o material físico de maneira mais eficaz. Ou seja, usar toda a fita. Como sabia que também não ia conseguir 40 ou 45 minutos sozinha, acabei por pensar em pessoas cujo trabalho já me tocou ou já foi importante para mim em algum ponto da minha vida.

Não consegui convidar toda a gente que queria, porque algumas já tinham feito remixes para o meu EP anterior como a Stasya ou o Gyur, então convidei pessoas com quem ainda não tivesse lançado nada. Quis não só que estas pessoas fossem artistas que trabalham directamente com as suas experiências, mas também que têm uma experimentação a nível sonoro que sinto que deve ser mais reconhecida.

Da última vez que te entrevistámos, a propósito do último EP, mostravas-te interessada em materializá-lo de forma visual. Acabas de lançar o vídeo para a “First, It Takes Your Words”; como foi lançares-te a essa ideia?

Fazer este vídeo foi um acordo entre mim e a Campos Campos, que o dirigiu com uma equipa de pessoas incríveis. Foi uma coisa que demorou algum tempo, em termos de debater ideias e arranjar materiais e datas. A coisa mais estranha e nova foi ter alguém que estava a fazer algo para mim e com a qual tinha que lidar. Habitualmente, faço tudo sozinha, mas desta vez tinha uma outra pessoa com ideias e vontades que tinham que conversar com as minhas também.

Encontrar este ponto entre eu e ela foi o mais difícil, porque tanto eu como ela ainda estávamos presas em ideias muito fixas do que queríamos, ligadas aos nossos próprios passados e às nossas comunidades. Ela do cinema, eu da música e da performance. Contudo, creio que no final conseguimos encontrar um equilíbrio entre a necessidade de narrativa e a estética dela, e o meu caos não narrativo e a minha sede de fantasia.

Actuaste na suspension de 24 de maio com Dakoi, Stasya e a “mãe” da cena electrónica em Chicago, a Ariel Zetina. Entrevistei-a em antecipação da festa e ela confessou-me que estava “obcecada” com a tua música. Além disso, foste destacada pelo Bandcamp no início do ano, a Fact já te elogiou bastante; para cimentar tudo isto, constaste num painel seleccionado pelo MIL para falar dos sons emergentes de Lisboa — onde te vi a esgrimires argumentos com o José Moura, da Príncipe Discos. O que significa isso para ti?

AI. EU NÃO SEI. Eu ainda estou a processar estas coisas todas e há uma dimensão de visibilidade que eu sinto que tenho agora que me deixa assustada. Eu comecei a fazer música pelo prazer e por aquilo que acabava por descobrir de mim através dos mixes e da produção, mas agora… sinto que há expectativas, que as pessoas acham que sabem aquilo que faço, que as pessoas falam do que eu fiz e vou fazer e é tudo muito stressante.

Eu quero poder sentir que tenho espaço para falhar e experimentar como sempre tive e espero que esta pressão que sinto não me tire a vontade de arriscar e de procurar de mil e uma maneiras como produzir e mixar. Porque sinto que também é esse o meu papel: questionar a tradição estabelecida do clubbing, provocar o que é considerado bom mixing, largar o gear aceitável, dar pensamento musical à club culture. Sinto que isso é o que pessoas trans all over the world estão a fazer. Claro que estas coisas todas que me acontecem deixam-me alegre e contente de que haja feedback e relação com o meu trabalho, mas estou longe de estar satisfeita. Todos estes “sucessos” dão-me medo. Não quero suceder sozinha, sem todos xs outrxs artistas incríveis que trabalham imenso e que estão ao meu lado e também não me quero perder in the way.

Na angariação de fundos para a Aurora Pinho, que teve lugar no 25 de Abril no Anjos70, concluíste um set arrasador com a “Yung Rapunxel” da Azealia Banks. De que forma tem evoluído a tua performance? 

Acho que tem evoluído a nível técnico e isso afecta também a minha selecção musical. Tenho sempre tentado descobrir maneiras diferentes de mixar, por exemplo, e isso acaba por influenciar que músicas procuro e quais passo. Por exemplo, comecei no Virtual DJ, depois Traktor, depois 2 CDJs, depois 3 CDJs, e agora sinto que só consigo fazer o que quero com o Ableton. Mas cada set exige coisas especificas dependo do que quero mixar e de como quero também actuar e explorar. Mas acho que me tenho cada vez mais aproximado de uma noção de djaying que se aproxima mais da produção e do remix.

Não sei bem… sinto que para responder a esta pergunta precisava de me ver mais de fora e acho que não consigo. Há, contudo, uma pessoa que mudou para sempre a minha noção de um set: Kelman Duran. Sinto que o que ele faz é mesmo revolucionário e despretensioso. Ele faz os sets no Ableton e soam a coisas que não têm nada a ver com um set “comum”.

Como tem sido a tua relação com a Troublemaker Records e a Rotten \ Fresh?

Eu conheço algumas das pessoas da Troublemaker Records há já alguns anos e tenho acompanhado o crescimento delas, que tem de alguma maneira acompanhado o meu. Começámos a estar mais juntos e passámos por coisas que acabaram por nos unir e senti que este release devia ser lançado também por eles, ainda que tenha sido uma proposta da Rotten \\ Fresh. Fazia-me sentido estas narrativas e experiências que estava a contar serem lançadas por uma label que me é tão querida e em cujo projecto acredito a 100%. Ness, Herlander, Killian, Phoebe, são artistas que trabalham imenso e cuja música é as genuine and beautiful as they are. Se calhar genuína é uma palavra demasiado simples e performativa para descrever o que a label faz: eles estão a mudar Lisboa e estão a mudar-se a eles mesmos constantemente. São provocados e provocam com um brilho raro. Não se limitam a cantar ou produzir: they create worlds.

Quanto à Rotten \ Fresh: não tinha nenhuma relação com a label antes mas depois de eles me proporem lançar com eles acabei por investigar quem fazia parte e os eventos e é algo que, ainda que seja bastante boy centered, tem uma qualidade que fazia falta nesta cidade. São pessoas que vão longe em termos de musica electrónica e que continuamente tentam desenvolver uma identidade musical que não é fixa, de todo. E o facto de ser mesmo humildes e acessíveis faz com que me dê esperança. Como a Troublemaker, eles unem qualidade musical com uma qualidade humana que me deixa mesmo feliz. E espero que este release seja o início de muito mais coisas com eles! 


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