Obongjayar alumia o caminho para a frente

[TEXTO] Miguel Santos [FOTO] James Pearson-Howes

Como descrever a música de Obongjayar? É uma tarefa árdua que recai sobre todos os melómanos que tropecem neste artista emergente, apenas rivalizada pela dificuldade em soletrar o seu nome. O artista nascido Steven Umoh constrói música de uma maneira característica e fresca, decididamente sua. Nesta procura constante de categorização, há artistas que na sua engenhosa qualidade desafiam todo e qualquer rótulo. E Obongjayar desvia-se de etiquetas com uma destreza musical cativante. 

Esse ecletismo está certamente relacionado com a parca cultura musical a que foi exposto. Nascido na Nigéria e criado pela avó, os primeiros estímulos musicais surgiram de bootlegs de hip hop e CDs enviados pela mãe, que emigrou para o Reino Unido para escapar às garras do pai abusivo e violento de Umoh. Estes reduzidos estímulos sonoros conferiram-lhe uma liberdade na maneira como aborda a música. A sua entrega caminha livremente pela spoken word e a palavra cantada, rodeada por instrumentais característicos que bebem de géneros como o afrobeat, o hip hop e o trip hop. 

Mas a vocação musical de Obongjayar só foi definitivamente encontrada ao emigrar para o Reino Unido e abraçar as suas raízes. Comecemos pelo seu talento mais óbvio: a sua voz, apresentada em toda a sua especificidade no seu EP de estreia, Home, e custa a acreditar que estamos a ouvir um jovem de 20 e poucos anos. A sua rouquidão sábia contrasta os seus anos de idade, que parecem abranger milénios tal é a pujança da sua voz, cantada ou proferida, com um distinto sotaque nigeriano. Mas apesar desse pormenor, nota-se que absorve influência dos seus “conterrâneos” britânicos: há uma teatralidade inerente à música e à poesia de Umoh que por vezes lembra a cadência de Benjamin Clementine. 



Apesar da sua entrega experiente, Obongjayar está a dar os seus primeiros passos na música. Depois de Home em 2016 nos mostrar um curto espectro das suas valências, foi em 2017 com Bassey que ficou claro a sua capacidade e a facilidade com que a sua voz se adapta aos instrumentais que Umoh cuidadosamente escolhe para a acompanhar. Em “Set Alight” alterna entre a poesia declamada e um refrão clamoroso, e o canto espiritual e distintivamente tribal da potente “Endless” mostra um artista em pleno contacto com as suas raízes. Já “Spaceman” é mais esparsa e soturna, há qualquer coisa de King Krule na entrega do artista e na batida que o circunda. É nesta volubilidade sonora que reside a prova de que Bassey é um sincero showcase da versatilidade de Obongjayar.

Mas além de ser um espelho da ambição musical de Obongjayar, Bassey foi a chave para abrir portas na indústria musical. Os hip hop heads certamente estão familiarizados com o seu tom rouco e profético que se ouve no álbum mais recente de Danny Brown, uknowhatimsayin¿, mas Umoh já colaborou também com Everything Is Recorded, alter-ego de Richard Russell, o homem por trás da mítica editora independente XL Recordings: a música de Umoh impressionou o homem responsável por descobrir Adele, e convidou-o para aparecer no disco lançado em 2018. A sua lista de participações é extensa e imponente, tendo colaborado ainda com Wiki (“Elixir“), Yussef Dayes (“Scum“), Kojey Radical (“Super Human“), Joe Armon-Jones (“Self Love“) ou Moses Boyd (“2 Far Gone“).

Chegamos ao ano de 2020 e com o início da década somos prendados com nova música de Umoh. Which Way is Forward? é o EP que lançou no início de Fevereiro e é um projecto que responde prontamente à pergunta que o titula: é através da sua música que Obongjayar faz o seu caminho e que segue em frente. Este projecto é menos experimental que Bassey, e é claramente destinado a um público e alcance maiores. Há mais metodologia na criação de músicas infecciosas como o single “Still Sun” ou a introspectiva “Carry Come Carry Go”, que não esquece que é por vezes na pista de dança que atingimos a catarse. Mas a voz continua a ser o centro da equação, seja em “10K” e o seu início que está mesmo a pedir para ser usado como sample num futuro próximo ou na festiva “God’s Own Children”, uma celebração pintalgada de blues e soul daquilo que nos une. O nome Obongjayar tem uma origem interessante: Obong significa rei ou Deus e Jayar vem de Junior, visto que o artista tem o nome do pai. Ainda que esta junção seja feita de contrastes, é algo que assenta perfeitamente a Umoh: há qualquer coisa de muito espiritual na sua música e especialmente na sua voz, uma capacidade de transcender o terreno e almejar esperançosamente o etéreo. Há uma inocência juvenil intrínseca à maneira como o faz, uma ingenuidade de um pregador que está agora a escrever as suas primeiras lições. Voltemos ao início deste texto para o terminar, relembrando a pergunta com que começou: como descrever a música de Obongjayar? É boa, e o resto seja o que Deus quiser.


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