Danny Brown // uknowhatimsayin¿

[TEXTO] Miguel Santos 

Em Setembro de 2017, Danny Brown apresentou-se renovado ao público: os seus dentes lascados, uma imagem de marca do rapper, foram substituídos por bonitas fileiras de pérolas brancas. Esta mudança estética teve um impacto muito além do aspecto do artista nascido Daniel Sewell — surgiu quase um ano depois do caótico e inventivo Atrocity Exhibition, o melhor e mais experimental projecto de Brown — e funcionou igualmente como uma metáfora para uma mudança estilística na sua música, que culminou em uknowhatimsayin¿, o mais recente álbum do nativo de Detroit. 

Torna-se claro desde o início que este trabalho vai ser diferente. “Change Up” arranca o álbum de maneira soturna, instaura um ambiente de reflexão com uma bateria irrequieta e uma entrega mais recatada mas a mesma destreza lírica (“Lost in the streets, found on the beat”). Mas é “Best Life”, o fenomenal segundo single, que denota mais esta mudança. Este tema produzido por Q-Tip — o produtor-executivo do disco e certamente crucial nesta mudança de rumo de Brown — é uma lufada de ar fresco na tracklist e uma escolha atípica para este artista, que não impede que a batida leve e alegre o faça descurar os deveres de escrita: Brown mostra uma entrega crua e versos que contam a história da sua vida, que entra agora no seu melhor capítulo. 

A entrega “louca” e voraz que caracteriza grande parte da sua carreira perde algum do seu ímpeto neste novo projecto mas há réstias do passado recente em temas como a confrontadora “Savage Nomad” ou “Belly of the Beast”, uma trip psicadélica ao seu estilo com um refrão revelador do convidado Obongjayar. Mas é em “Negro Spiritual” que isso mais se nota. Em duas estrofes separadas por um refrão rouco e de tom derrotista de JPEGMAFIA, Danny Brown mostra-se ameaçador e veloz em perfeita sintonia com a batida produzida por Flying Lotus e Thundercat. Temas assim asseguram-nos que ainda que a música de Brown esteja em constante evolução, a sua faceta imprevisível e fugaz continuará sempre presente. 



Mas apesar da mudança sónica, a qualidade das habilidades de Brown continua a transparecer fielmente: “Dirty Laundry” é um grande exemplo disso. A batida é simples mas bastante eficaz, com uma guitarra distorcida e teclas “tontas” e jocosas que espelham as barras do rapper, que conta algumas das suas conquistas sexuais com um grande storytelling e humor à mistura. E não é a única instância: em “3 Tearz” vemo-lo sério e com uma entrega mais sobranceira e, ao lado dos  Run The Jewels, mostra o seu desprezo perante o infortúnio. E em “Theme Song”, ao som de um violino arrepiante, Brown insurge-se calmamente contra todos os chicos-espertos do mundo.

Aos 38 anos de idade, Danny Brown lança um álbum mais ponderado, algo praticamente inédito na sua discografia. Não é tão experimental e ambicioso como o que o precedeu e deixou algum do espalhafato para trás. Mas esse abrandamento não é negativo, pelo contrário, e traduz-se em material mais sóbrio e focado, com menos devaneios à mistura — e o rapper continua a ser um dos mais únicos e singulares artistas no mundo das rimas.

“Bought a nightmare, sold a dream” ouvíamo-lo dizer há uns anos. E ainda que esta etapa do sonho seja mais terrena e discreta, certamente que nunca será dispensável.


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