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O espirito de J Dilla Dentro Da Caixa

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Nuno Costa/Midnight Madness Crew

 

Em condições normais, sempre que perdemos um ente querido dentro do seio da nossa família há uma consequente aproximação dos membros que ficaram em terra e o viram partir. Reatam-se laços e aqueles que já existem tornam-se mais fortes. Procuramos conforto uns nos outros e lembramos, de forma saudável, os momentos marcantes protagonizados por quem nos abandonou. Ontem uma grande família uniu-se para celebrar um dos expoentes máximos da cultura do hip hop: J Dilla. Lendário produtor de Detroit que nos deixou há já uma década – e parece que foi ainda ontem. O Musicbox rapidamente se encheu de gente de todas as idades para recordar aquele que foi em vida um dos produtores mais amados do hip hop, que cedo se tornou numa figura inspiradora pelo tipo de som e técnicas de corte e costura que desenvolveu no seio da música electrónica experimental, que recorre à montagem de samples fora do comum em cima das bases do hip hop.

Outro dos motivos para termos estado todos reunidos ontem foi também o anuncio oficial da segunda edição do Festival Rimas e Batidas que se vai realizar naquela mesma casa nos dias 19 e 20 de Abril – data em que a nossa publicação digital comemora o seu primeiro ano de vida.

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Cheguei ao Musicbox perto das 21:30, já Darksunn estava de volta do seu portátil a seleccionar uma mistura de batidas modernas que muito beberam do génio de J Dilla. No peito, Darksunn exibia, na sua t-shirt, um “A”, a representar Almada – zona que também se rendeu aos feitos de Dilla e apareceu em bom peso para reviver os clássicos de um dos mestres desta nobre arte do hip hop.

As primeiras coisas que faço ao chegar a uma festa é pedir uma bebida e fumar um cigarro enquanto troco algumas palavras com os rostos já conhecidos da plateia. Ontem foi ligeiramente diferente: peguei numa água, enrolei o meu cigarro e rapidamente me desloquei para o núcleo da pista onde não estava ninguém. À minha frente tinha o Darksunn a disparar “Kitties” de Samiyam. Não podia rejeitar tal convite para me aproximar e bater o pé ao som de uma linha de baixo tão suja e desconcertante como esta. “Peço desculpa se não falei a alguém mas esta malha não me deixa indiferente”, pensei eu. Uma após a outra, não consegui desviar a minha atenção das granadas que o produtor da Monster Jinx atirava constantemente para a pista. Flying Lotus (também enquanto Captain Murphy), Earl Sweatshirt, Joey Bada$$ e Guilty Simpson – este último bastante concorrido durante o decorrer da noite dadas as suas parcerias com J Dilla.

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Perto do final da sua actuação, Rui Miguel Abreu pegou no microfone para falar um bocado com a audiência acerca de Jay Dee e eis que grandes noticias começaram a surgir da boca do fundador da marca Rimas e Batidas: O segundo Festival Rimas e Batidas, como já referi acima, irá decorrer nos dias 19 e 20 de Abril no Musicbox e o mote para este segundo grande evento é continuar a celebração em torno da figura icónica que é Dilla. Para que tal seja possível, conta-se com a ajuda da turma da Monster Jinx – que vai preparar uma actuação especial em torno do legado deixado pelo produtor de Detroit; Beware Jack irá orquestrar uma jam session de MPCs – a mítica drum machine da Akai que ficou imortalizada na produção de beats de Dilla; e há ainda Vhils que vai criar uma peça de serigrafia para ser leiloada, com os lucros a reverterem para a J Dilla Foundation. Depois de tantas noticias agradáveis chegou o bolo da comemoração – a substituir os donuts – onde se podia ler “J Dilla mudou as nossas vidas.”

DJ Player entrou em cena e rapidamente meteu o público a entrar na onda de Interludes, álbum de estreia do DJ/produtor que acompanha Deau nas suas actuações. Sequenciou e disparou samples ao vivo, trazendo um feeling mais orgânico ao seu trabalho – que pode ser ouvido e descarregado gratuitamente aqui.

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Navegámos durante cerca de uma hora por batidas mais carregadas e com um cunho bastante próprio de DJ Player. Depois disso, chegou a vez de mr mute e foi a partir daí que Dilla voltou em grande aos nossos ouvidos e nos fez balançar ao som de clássicos incontornáveis como “E=MC²”, “Lightworks” ou “The Questions”. O Musicbox estava praticamente cheio. Muito calor e uma enorme vontade por parte do público em continuar a festa. E ela continuou, em crescendo. Se as selecções de mute já estavam a ecoar forte na sala com umas pinceladas de scratch, Nel Assasin aka Sr. Alfaiate prometeu elevar ainda mais a fasquia quando assumiu o controlo das turntables. Clássicos… Clássicos em todo o lado. Dilla certamente estaria de olhos postos em Lisboa nesta noite, feliz com o carinho que todo aquele público lhe devotou.

A celebração acabou com uma enorme ovação do público após a tareia de scratch final que Nel Assassin nos deu. Ele que é um dos nomes incontornáveis do turntablism nacional. À meia noite e meia o som parou, mas por nós bem que podia continuar. A família do hip hop nacional é capaz de se juntar em massa para celebrar os grandes nomes desta cultura. J Dilla não será esquecido e esta é também uma noite que vai ficar na memória. Próxima paragem: segundo Festival Rimas e Batidas!

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