Nova Batida’19 – Dia 2: a surpresa chama-se Jordan Rakei

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Matt Eachus

Talvez por ser sábado e o Nova Batida ter um público não-português enquanto principal alvo, a afluência de festivaleiros ao recito demorou a notar-se. A temperatura em Lisboa convidava claramente a um dia de praia, e não há mal nenhum em querer aproveitar os últimos raios de sol do Verão de 2019. Se o corpo sai a ganhar com uma taxa de bronze acrescida, os ouvidos bem podem reclamar de terem perdido o melhor momento musical do dia. Depois de termos apontado para o “nascimento de uma estrela” aquando a sua passagem pelo EDP Cool Jazz’18, ontem pudemos confirmar todo o potencial que lhe havíamos creditado há um ano: senhoras e senhores, eis Jordan Rakei a encantar no palco indoor do LX Factory.

Por norma, selo Ninja Tune não engana, e ontem pudemos voltar a comprová-lo. O músico neozelandês foi descoberto pela editora londrina há um par de anos e a ligação tem gerado números significativos. Além dos singles, Jordan Rakei já conta com dois discos editados pela discográfica que “guarda” obras de gente como Amon Tobi, Jon Hopkins, Bonobo ou Roots Manuva, sendo Origin a sua obra mais recente, lançada em Junho deste ano, e, claro, figura central da sua nova passagem pelo nosso país.

Rakei apresentou-se no Nova Batida no formato de quinteto, levando consigo elementos para a percussão, bateria, baixo e guitarra, este último instrumento também envergado pelo próprio band leader aquando da sua entrada em palco. A musicalidade esteve sempre na ordem do alinhamento, com quase todas as faixas tocadas a parecerem uma só, não nos deixando nunca perder o fio de toda aquela narrativa, salvo as raras excepções em que o cantor e multi-instrumentista fez questão de parar o som para se dirigir ao seu público.

Podem até nunca terem dado por vocês a percorrer o catálogo que o jovem músico tem esculpido durante estes dois anos de ligação à Ninja Tune, os mais produtivos de sempre da sua carreira. Mas se seguem o A COLORS SHOW — nos dias que correm, como não? — já se cruzaram certamente com a recriação de “Wildflower”, canção que marcou um ponto de viragem no concerto de ontem. Rakei pousou a guitarra com a qual entrou em palco e agarrou-se aos teclados sem nunca mais os largar. A sua voz, essa esteve sempre no ponto, com os falsetes a conjugar na perfeição com as camadas soul e funk que estão bem patentes no seu percurso.

Foram poucos os que assistiram ao momento mas o barulho em tom de aprovação vindo do público contou como se a sala estivesse com mais do que o dobro da lotação real. Na despedida, a única sensação que nos invadiu a cabeça foi a de que embora fosse difícil bater o alinhamento do primeiro dia do festival, o arranque da nossa segunda missão no Nova Batida mostrava-se promissor. E até o bar ajudou desta vez, apresentando um serviço muito mais eficiente do que na tarde/noite anterior, não esquecendo que haviam também menos bocas a implorar por refrescos.



Ânimos lá bem em cima e entra o veterano Talib Kweli em cena. Não por falta de catálogo em nome próprio, o autor de discos como Quality ou Eardrum optou por não virar todas as atenções para o seu trabalho mas sim para a cultura hip hop na sua globalidade. Numa época em que tanto se discutem os valores desta cultura, o rapper do Bronx ajudou o público a compreender um pouco melhor acerca da cronologia que acompanha o género, aproveitando os seus 60 minutos em palco para homenagear a cultura reggae e soundsystem jamaicana e muitos dos nomes mais importantes da história do hip hop, com J. Dilla, Mos Def, Gangstarr, Wu-Tang Clan ou A Tribe Called Quest à cabeça, pedindo ao seu companheiro em palco, o DJ Spinselect, para passar alguns dos temas que mais se destacaram nas carreiras dos artistas mencionados e, por vezes, aproveitando até a boleia das rimas dos seus colegas de profissão para colar alguns dos seus próprios versos por cima das “sobras” instrumentais. “Hot Thing”, “Traveling Light” ou “Chips” foram algumas das poucas faixas originais que escolheu para o alinhamento, curiosamente todas elas produto de colaborações com outros nomes sonantes da indústria.

Adoraríamos ter a oportunidade de voltar a ver os Jungle em versão banda, mas tal não estava destinado para acontecer no palco do Nova Batida. O projecto musical inglês regressou a Lisboa, mas desta vez para actuar no formato DJ set, já o relógio marcava as 22 horas e a plateia do LX Factory ia ficando cada vez mais composta. Antes de subirem até Viana do Castelo — hoje há nova dose no hotel Feel Viana — os Jungle abençoaram o evento com uma sessão de música house bastante uplifting, com os mesmos condimentos que dão vida às músicas da banda sempre bastante presentes nas escolhas dos temas de outros artistas — afinal a electrónica, a soul, o funk e a disco sempre conseguiram encontrar-se por inúmeras vezes na história da evolução do som. Músicas criadas por gente como Klangkuenstler, MD X-Spress, Front Page ou Sam Goes To Tokyo foram algumas das selecções que nos ficaram na memória.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira