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Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 15/06/2022

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #99: Shabaka / Tumi Mogorosi / Nduduzo Makhathini

Ilustração: Carlos Quitério
Publicado a: 15/06/2022

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Shabaka] Afrikan Culture / Impulse

Talvez se compreenda a perda do apelido Hutchings à mesma luz que levou, noutros tempos, artistas como LeRoi Jones a trocarem de nome – o controverso poeta, escritor e activista adoptou o nome Amiri Baraka por volta de 1967, ecoando então os libertários e revolucionários tempos de combate pelos direitos dos negros na América. Eliminar apelidos “ocidentais” significa sacudir as grilhetas coloniais. Afrikan Culture, a mais recente criação do músico que bem conhecemos de projectos como The Comet is Coming, Sons of Kemet ou Shabaka and the Ancestors, soa, certamente, como uma reflexão sobre toda essa problemática.

Não foi apenas o apelido Hutchings que Shabaka deixou de lado neste projecto: não há por aqui sinais do seu poderoso saxofone tenor e mesmo o seu igualmente frequente clarinete cede a maior parte do espaço disponível neste Afrikan Culture à flauta japonesa shakuhachi. Apesar deste ser um rigoroso registo a solo de Shabaka, com o outro único crédito a ser entregue ao produtor Dilip Harris, escutam-se por aqui ainda algumas contribuições de Kadialy Kouyate na kora, Alina Bzhezhinska na harpa e de Dave Okumu na bateria, que não se entende se são samples recolhidos em sessões prévias ou contributos directos para este projecto. Okumo tem amplo trabalho de estúdio realizado em projectos de Chelsea Carmichael ou Jessie Ware, por exemplo, ao passo que a harpa de Bzhezhinska já se fez ouvir em temas de Kamaal Williams ou até de Alex Attias. Já o korista Kouyate tem deixado marca em registos de Greentea Peng ou Beatrice Dillon. Gente experiente, portanto.

Mas o centro (e as margens, na verdade) de Afrikan Culture está (ou estão…), definitivamente, entregue(s) a Shabaka. Trata-se de um disco muito mais contemplativo do que o que se tem escutado na feérica produção do saxofonista. O título da primeira peça, “Black Meditation”, serve igualmente para classificar de forma clara o que aqui se escuta. Uma cuidada tapeçaria de sons que Shabaka urdiu em multi-pistas, cruzando diferentes flautas e clarinete, com pontuais enquadramentos harmónicos proporcionados pela harpa, kora e “thumb piano” e ainda delicadas percussões. Nalguns títulos – além do já mencionado “Black Meditation”, há ainda peças como “Ital is Vital” ou “Ritual Awakening” – pode ler-se uma busca de raízes culturais distantes, mas outros – “Call It a European paradox” ou “The dimension of subtle awareness” – pressente-se também um questionamento fundo: Shabaka entende que esta é uma meditação sobre a sua própria identidade.

“Explore Inner Space”, a mais longa peça do EP com quase 6 minutos e meio de duração, é a única também em que a manipulação electrónica é mais evidente: o tema nasce do sopro acústico de Shabaka, mas cedo essa dimensão é envolvida por um drone que soa a gravação escutada em sentido inverso e sobre a qual arpégios electrificados diversificados vão construindo uma densa teia que suporta a “viagem” do solista. 

Em 1965, o clarinetista Tony Scott lançou em Music For Zen Meditation And Other Joys a sua propria meditação, com acompanhamento de koto, um antepassado directo do exercício que Shabaka agora apresenta ao mundo. Música para abrir portais interiores e para nos recentrar no essencial. O último tema de Afrikan Culture tem por título “Rebirth”. Talvez seja isso que o músico britânico aqui busca. Um renascimento, já consciente da sua mais funda identidade, da ligação às suas mais ancestrais origens.



[Tumi Mogorosi] “The Fall”, “Sometimes I Feel Like a Motherless Child” / Mushroom Hour Half Hour-New Soil

Tumi Mogorosi é o baterista dos Ancestors (grupo liderado por Shabaka Hutchings) e também dos The Wretched, pojecto que contribuiu para o excelente retrato do jazz contemporâneo na África do Sul que é a compilação Indaba Is, lançada pela Brownswood de Gilles Peterson em 2021. Mogorosi prepara a edição em Julho próximo (e aqui voltaremos, quando tal acontecer) de Group Theory: Black Music, trabalho que resulta de composições próprias e de contribuições de um alargado conjunto de músicos. Para já, conhecem-se dois singles.

“The Fall” é uma dramática peça conduzida pela propulsiva bateria de Mogorosi, mas onde um grave coro surge em destaque, abrindo ainda espaço para um fantástico solo de guitarra eléctrica de Reza Khota. “Comecei num coro”, explica em comunicado Tumi, reflectindo sobre o poder das vozes negras. “Há esta ideia de massa, de um grupo de pessoas reunidas, que tem uma implicação política. E a voz lírica tem tanto uma presença, como uma capacidade de gritar, uma capacidade de afectar. O grupo instrumental pode sustentar a intensidade desse efeito, e o coro pode ir além da improvisação, em direcção a melodias comunitárias das quais todos podem fazer parte”. É esse, de facto, o extraordinário poder deste “The Fall”. 

O mais recente single que antecipa Group Theory: Black Music é composto por duas versões do clássico gospel “Sometimes I Feel Like a Motherless Child”: na primeira brilha Siyabonga Mthembu, do grupo The Brother Moves On (e igualmente dos Ancestors), um poderoso tenor cuja voz se apresenta com funda dignidade a evocar o grande barítono de Paul Robeson. Diz Mthembu: “Isto é muito diferente para uma criança que é criada por uma única mãe. Muitas vezes estamos concentrados na ausência de paternidade baseada no óbvio, e não em como o capitalismo às vezes nos deixa sem pais, especialmente se eles se tornam pais solteiros e nos vemos obrigados a educar a nós mesmos”.

Na segunda versão, o plano principal é entregue à vocalista Gabi Motuba, que carrega a peça – com arranjo diferenciado – noutra direcção, talvez um pouco menos solene, mas mais emotiva ainda, se tal for possível. Explica ela sobre o tema em que a sua voz é rodeada por uma arrepiante moldura coral: “Fala de ter esperança entre muitos que se sentiram desesperados durante muito tempo, a encarnação de um verdadeiro crente como o verdadeiro acto de bravura na constante procura de um caminho melhor”. Música muito séria, portanto, e uma vez mais em busca das mais fundas ligações com a história. E a deixar claramente a fasquia alta para o álbum que aí vem.



[Nduduzo Makhathini] In The Spirit of Ntu / Blue Note Africa

No seu segundo álbum para a Blue Note, In The Spirit of Ntu, Nduduzo Makhathini, outro dos músicos dos Ancestors, efectua uma espécie de síntese de tudo o que tem vindo a explorar ao longo da sua carreira. O facto de marcar a estreia da etiqueta Blue Note Africa – sinal claríssimo de como a histórica editora reconhece a vitalidade da cena africana contemporânea – é em si mesmo significativo: reconhece-se desta forma em Makhathini uma vigorosa força que tem impelido o novo jazz do continente negro em direcção ao futuro.

A banda que o acompanha aqui inclui o saxofonista Linda Sikhakhane, o trompetista Robin Fassie Kock, o vibrafonista Dylan Tabisher, o baixista Stephen de Souza, o percussionista Gontse Makhene e o baterista Dane Paris, uma sólida formação capaz de insuflar vibração, urgência e sofisticação nas peças que compôs. “Estou a lidar com estas ideias cosmológicas como uma forma de situar o jazz no nosso contexto”, explica o pianista. “Editei Modes of Communication: Letters From The Underworlds usando a carta como metáfora para os sons que vêm do submundo. Anteriormente, eu tinha lançado Listening to The Ground que encorajava esta ideia da escuta como conhecimento. In The Spirit of Ntu vive nesse paradigma de ouvir as coisas que emergem do chão. Ntu é uma antiga filosofia africana da qual deriva a ideia de Ubuntu. Ubuntu diz: ‘Eu sou porque tu és’. É uma profunda invocação da colectividade”.

Essa ideia de comunhão, de unidade comunitária, atravessa esta música que soa tão física e vital, quanto espiritual e cósmica. Mais do que de extraordinários contributos individuais – embora os solos de músicos como Linda Sikhakhane ou Robin Fassie Kock sejam entusiasmantes, tanto técnica como emocionalmente – este álbum vive da bela dos arranjos, onde as vozes também assumem pontualmente lugar de destaque. É no piano do líder, no entanto, que se aloja o centro desta música: Nduduzo é um pianista exploratório e intrigante na forma como se encaixa nas composições: “Nyonini Le?” é um bom exemplo, não apenas quando rodeia o saxofone de Linda, mas também na formas como o ecoa em angulares uníssonos.

Se outro sinal fosse necessário para convencer alguém de como a palavra “Africa” faz pleno sentido à frente das palavras “Blue” e “Note”, este álbum seria mais do que suficiente. O passado de África levou ao nascimento do jazz. O seu presente é uma das garantias de que terá igualmente um grande futuro.  

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