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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #18: YANAGUI / Zeñel / Ossos D’Ouvido

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[YANAGUI] Underground Nature EP / Ed. de autor

Quando lhe é pedido que aponte no “mapa musical” a localização do material incluído em Underground Nature EP, YANAGUI (aka Gui Salgueiro, “arma secreta” usada em palco por muitos artistas, de Moullinex a Nenny ou Agir) começa por se confessar perdido, mas depois lá oferece algumas preciosas pistas para nos guiarem a audição: “Hum… não sei, acho que é urbana, essencialmente. Claro que ’tá sempre ligada ao hip hop instrumental, mas também não é uma típica beat tape em que ’tou só a mostrar os beats, aqui é como se fosse uma canção mas instrumental, e como também venho do background mais do jazz, da música improvisada e instrumental, consegui conciliar ambos, entre os beats de hip hop e a música instrumental, e fazer toda uma linha, como se fosse para alguém cantar. Por isso diria que tem uma sonoridade urbana, dentro do hip hop, do soul, r&b, mas não me considero um artista hip hop, ou um artista soul, ou r&b… Por acaso não sei bem como é que hei-de rotular isso, sou uma mistura”.

Uma mistura, sem dúvida, mas o que no momento de verbalizar a identidade musical na entrevista que concedeu a Vera Brito (aqui mesmo no ReB) pode parecer hesitação, quando se carrega no play deste seu trabalho de estreia a solo soa, ao invés, a absoluta certeza. Esta “mistura” com que Gui Salgueiro se descreve resulta, de facto, do cruzamento das coordenadas apontadas: do rigor rítmico do hip hop, em primeiro lugar, e do poder inventivo do jazz, em termos de discurso melódico e harmónico, logo depois. Mas essa tal mistura também revela, na forma como estão estruturadas cada uma das cinco peças do EP, conhecimento íntimo das dinâmicas clássicas da canção, tal como refinadas ao longo das décadas de história do r&b, de Aretha a D’Angelo.

Habituado a tocar em diferentes tipos de ensemble, Gui assume por aqui, no entanto, um registo mais solitário, sublinhando o lado de produtor, tal como entendido no contexto hip hop. E isso significa que assume a quase totalidade das despesas de execução musical no EP, embora tenha libertado espaço para o sax de SAM em “Take Your Time”, para o baixo de Gabriel Salles Silva e para a bateria de Ariel Rosa em “Underground Nature” e ainda para a voz de Raissa em “Keep On”. E é sobre cadências programadas com o swing próprio de quem aprendeu com Dilla, mas que também gosta de sentir atrás de si o pulso de um baterista real, que YANAGUI desfia o seu novelo de teclados, entrelaçando o cristal de Fender Rhodes com o néon de uma imaginária Keytar, como a que poderia usar em “Take Your Time”, lânguida canção para se escutar no deck de um igualmente imaginário iate enquanto o sol se põe nas curvas de alguém.

Sim, YANAGUI escutou o que importava escutar, de Thundercat a Dâm-Funk e do universo da Soulection ao que de novo gente como Kamaal Williams ou Yussef Dayes tem andado a criar, como aliás assumido na já mencionada entrevista, mas também se sente por aqui um nervo melódico muito próprio, quase sempre condizente com essa dolente ideia de sol e praia, de areias brancas e águas límpidas. Esse lado tropical carrega a bela “Underground Nature”, por exemplo, enquanto “Keep On” deixa entrever as maravilhas que poderá criar quando for chamado a embrulhar a alma de quem possa ter palavras reais para cantar – Raissa é mais um fantástico instrumento neste tema e não traz um poema na voz, mas percebe-se claramente para onde aponta YANAGUI. A despedida faz-se ao piano, com “Fly” a convidar a que se carregue de novo no play, mal o seu funk de cetim se esgota em menos de quatro minutos de puro luxo com sentido orquestral de enorme elegância. Mais, por favor.



[Zeñel] Extreme Sports / Ed. de autor

Zeñel são o baterista Zoe Pascal, o teclista Noah Stoneman e o trompetista e produtor Laurence Wilkins. Quando se juntaram em 2016 em Londres, os membros do trio eram adolescentes entre os 14 e os 16 anos, nada que os impedisse de espantar audiências em eventos como o Love Supreme Festival ou em lendárias salas como o Ronnie Scott’s onde se apresentaram como banda de suporte dos Ghost-Note. Em Março último, o trio estreou-se com este Extreme Sports, resultado de gravações ao vivo conduzidas no Total Refreshment Centre e no Abbey Road Institute entre finais de 2018 e inícios de 2019!

Zoe, Noah e Lawrence cresceram, portanto, no fértil terreno do jazz londrino que tantas outras sementes tem gerado. Zoe, por exemplo, integrou os Tomorrow’s Warriors antes de ingressar na universidade Guilldhall para o curso de jazz, verdadeiro viveiro de onde têm saído muitos dos músicos que agora se cruzam no muito povoado ecossistema jazz da capital britânica. Com skills apurados, apesar da tenra idade, o trio tem-se dedicado a provar ao vivo que é possível conciliar as linguagens do jazz que estudaram com os novos pulsares electrónicos que fazem vibrar as fundações londrinas. É aliás essa vibração que começa por se fazer ouvir, com o grave puxado para fazer estremecer woofers, em “Intro”, tema que funciona como a montra dos skills de cada um dos músicos: o trompete de Laurence que fura, assertivo, os graves fornecidos pela tecnologia comandada por Noah e o martelar sólido, carregado de nuances de tempo, de Zoe. Este tema, como todos os outros deste álbum de estreia, foi gravado ao vivo, no estúdio. Não há overdubs aqui: o que se escuta é o que o trio debita em directo, combinando instrumentos reais e as possibilidades oferecidas pela electrónica que é manipulada em tempo real.

Depois há uma exploração do leque de idiomas rítmicos que dominam a paisagem clubística de Londres: “Ewok Dance” não esconde a dívida para com o afrobeat; “Bubbleleaves” impõe à cabeça o mesmo balanço que tanto hip hop de recorte mais modernista provoca; “Zozo is Zozo/The Curse” carrega no peso dubstep com BPMs de pista; “Bi” é broken-beat de acentuado sotaque londrino; “Process Z” parece apostada em provar que o jazz tem lugar na rave, tal como a curiosa “Treehouse People” que apoia a sua dinâmica nos típicos breakdowns com que a EDM impõe o êxtase nos clubes.

Mas o mais interessante de Extreme Sports é o que se passa entre a vénia ao clube e a aplicação dos estudos, entre a electrónica e o jazz, ou seja, a vontade de combinar dois planos de existência distintos e até, como tantos julgam, opostos e incompatíveis. Noah Stoneman é um colorista hábil, que sabe bem traduzir os delírios cósmicos de Herbie Hancock para este presente e Laurence Wilkins é um solista que não teme carregar o seu trompete para territórios pouco explorados por esse instrumento, como se percebe logo no arranque de “Zozo…” ou na abertura de “Bi”, com os seus fraseados curtos a revelarem um ouvido sintonizado com o que o sampler fez ao jazz. Mas em “Process Z” o trompete já investe por outros tons discursivos, mais arrojados esteticamente, com o músico a revelar nervo e audácia, como compete a quem ainda olha os 30 como um horizonte distante. E tudo isto é carregado por um baterista que tem tanto músculo como nuance, que toca padrões complexos sem nunca perder de vista a ideia de repetição que associamos à música que é feita para dançar. Mas, como cuida de demonstrar em “Process Z”, por exemplo, Zoe é um músico que tanto fala linguagem de máquina como é capaz de se ligar à longa e nobre história de um instrumento que tendo-se organizado no jazz nunca esqueceu a sua origem africana.

Estes desportos extremos dos Zeñel hão-de, certamente, garantir-lhes um futuro entusiasmante! Ah, pormenor curioso: Zoe Pascal, o baterista, é português, a viver em Londres desde os seis anos.



[Ossos D’Ouvido] ASA NISI MASA / Watermelon Records

Os Ossos D’Ouvido são Diogo Lourenço (guitarra, theremin), João Massano (baixo, gutural) e Pedro Almeida (bateria, percussões). E são eles que se explicam e apresentam, nas notas que acompanham este primeiro trabalho de maior fôlego: “Asa Nisi Masa é um álbum instrumental composto por 8 faixas (6 temas longos, uma Introdução e um interlúdio) que constroem aquilo que consideramos ser a nossa esfera sonora envolta por todas as tangentes da ecléctica influência que fomos assimilando do Rock, do Jazz, da música improvisada e das sonoridades de vários cantos do mundo. São 8 temas originais, compostos pelos 3 membros da banda e conta com um convidado especial no trompete, Francisco Matos. A conceptualização estética da obra foi igualmente importante no processo criativo, e o design gráfico do álbum é de João Massano, baixista, que cria uma correspondência visual paralela às diversas dinâmicas sonoras”.

Feitas as apresentações, a primeira ideia que se impõe quando deixamos que os nossos ouvidos se percam no labirinto de ideias de que se faz o som do trio é a do óbvio prazer que estes músicos retiram da interacção, da comunhão de um mesmo espaço criativo e da exploração em conjunto das possibilidades que o desconhecido promete. É o que se escuta, por exemplo, em “Os Lobos Também Dançam”, fantasia com ecos das estepes mongóis pressentidos no gutural grave de João Massano, que oferece à guitarra de Diogo Lourenço a possibilidade de se espraiar de forma dolente por caminhos de óbvia inclinação psicadélica antes da entrada em cena de um melancólico solo de trompete processado com reverberação de catedral digital para que a sensação de atmosférica deslocação de tempo e espaço seja ainda mais pronunciada.

O tema-chave do álbum, no entanto, poderá muito bem ser “Dom Mántis”, uma espécie de manifesto identitário, que combina elementos estéticos diversos: as guitarras em reverse do início estão lá para nos dizerem de onde vem o espírito do trio, que se preocupa em carregar para dentro do seu som várias das marcas de estilo que associamos ao rock psicadélico, mas o baixo de João “Miroslav Pastorius” Massano depressa inscreve o tema nos terrenos do fusionismo jazzístico que nos anos 70 tão perto andou do lado mais progressivo do rock, com a figura circular da guitarra a ganhar a aposta hipnótica antes de explodir numa miríade de pontos de luz de que se faz o expansivo solo que parece destilar o som de mil heróis da guitarra.

O álbum fecha com outra tour de force, “Zinco”, a mais longa das derivas instrumentais aqui presentes, mais uma oportunidade para o trompete se espraiar em frases longas, atmosféricas e aveludadas. O tema arranca com uma toada algo cinemática, feita de uma cuidada gestão de tensão rítmica que não tarda a assumir um claro sotaque kraut. E o que volta a resultar claro é que o trio, expandido com a colaboração do trompetista Francisco Matos, conseguiu desenvolver uma orgânica química que se traduz no encaixe perfeito de cada um dos instrumentos num quadro maior. Percebe-se que os Ossos D’Ouvido traçam com regra e esquadro as molduras estruturantes dos temas, mas também não se esconde, nos solos e em passagens pontuais mais livres, que a invenção livre que deriva do improviso é mais do que bem vinda numa equação ampla e ambiciosa. Para ver em clube, ao vivo, com projecção de slides de óleo, sff.

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