NOS Alive’19 – Dia 2: na borda até transbordar

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sara Falcão

“Quem quer ver Drake em Portugal?” Pode parecer uma maneira um pouco estranha de começar um texto sobre a edição deste ano de um festival que ainda nem terminou, mas, depois do que vimos no Palco NOS Clubbing, torna-se praticamente obrigatório reflectir sobre a pergunta que Duarte Figueira, mais conhecido por Duda, fez depois de DJ Dadda causar um pequeno terramoto com “God’s Plan”.

A actuação de um dos homens fortes da Bridgetown serviu como barómetro para perceber o que está em voga: reacções histéricas a temas de Wet Bed Gang e Travis Scott, mas também às entradas em cena de Richie Campbell, Slow J, Kappa Jotta ou Mishlawi (ver um membro do público com um bordado de System of a Down na mochila a meter a mão na cabeça quando o autor de Solitaire apareceu em palco é relevador por si só). De louvar também a aposta (e o risco que isso acarreta) de colocar Minguito, Yuri NR5 e Mad perante pessoas que não conheciam o seu trabalho (a excepção foi um pequeno grupo na linha da frente), uma oportunidade para os jovens entrarem num ambiente que não os recebeu de braços abertos, mas que também não os rejeitou.

Estes momentos acabaram por dar força à ideia de que a selecção da agência e editora para a programação deste palco (falando mais concretamente de artistas e horários) foi pensada ao milímetro. Para além das escolhas óbvias de Carla Prata, Plutonio, Trace Nova ou DJ Dadda, o convite enviado a Dillaz (que se “cruzou” com Vampire Weekend e, mesmo assim, tinha pessoas para lá dos limites da “tenda” a cantar as suas músicas) e SAINt JHN foi bem entregue. E reza a lenda que um rapper luso-moçambicano do Bairro da Cruz Vermelha ombreou, em termos de público, com um grupo americano de rock que já tem uma estatueta dos GRAMMYs no currículo.



E depois de Nubai Soundsystem, Lé Vie, Trace Nova e Carla Prata, o autor de Preto & Vermelho (disco que, segundo nos revelou o rapper no backstage, já tem o sucessor praticamente fechado) demonstrou que não se acomoda à sombra dos hits (aliás, todo o alinhamento é composto por hits) e apresentou um sólido espectáculo a pender fortemente para o rock (ninguém se incomodaria com menos solos de guitarra, mas isso é apenas um pormenor), que teve direito a recepção efusiva de um público heterogéneo.

Em termos de performance individual, Plutonio estará certamente perto da sua melhor forma, rimando e cantando sem mostrar sinais de grande esforço nas duas tarefas. Ouviu-se “África Minha”, tema dedicado às suas raízes, “3AM”, “Dramas & Dilemas”, “Manda Vir Mais um Copo”, “Não Vales Nada”, “Última Vez”, “Iminente”, canção de Papillon com a sua participação, “1 de Abril”, “Meu Deus” e, claro, o mega sucesso “Cafeína”, que causou a maior explosão de energia.



Da mesma linha, a de Cascais, Dillaz, um dos nomes mais sonantes do rap português, subiu a palco com os habituais Spliff, Zeca e Vulto para, tal como o seu antecessor, exibir banger atrás de banger: “1100 Cegonhas”, por exemplo, faz tremer qualquer estrutura — ontem não foi diferente — e músicas como “O Clima” e “Mo Boy” mantêm a mesma impetuosidade de sempre.

Tanto Plutonio como Dillaz encaixariam perfeitamente no palco principal, isto se falássemos numa programação orientada para hip hop e r&b, algo que pareceu tangível depois da aposta em The Weeknd em 2017, mas que nos anos seguintes não teve continuidade, voltando-se novamente para a nostalgia em detrimento da novidade e da pertinência.