Noite Príncipe x Boiler Room: Lisboa a dançar a sua própria batida

 

[FOTOS] Ricardo Miguel Vieira

 

Uma e quarenta da madrugada. São as horas que leio no telemóvel enquanto aguardo que o segurança à entrada do Musicbox dê o reconfortante okay para entrar no cantinho de espectáculos refugiado no túnel da rua cor-de-rosa do Cais do Sodré. Saí há pouco do concerto dos Mobb Deep e ainda estou embriagado com o assombroso ambiente street rap que se viveu no Santiago Alquimista, desligando-me do espaço e tempo em que me encontro. “‘Bora”, lá me indica o homem da porta da entrada. Desfaço-me do primeiro obstáculo e fixo-me então no vidro circular e transparente da porta que se abre em definitivo para o salão dos espectáculos. E eis que sinto levar uma injecção de adrenalina que me assoma o corpo e me restabelece noutra realidade. “Brutal”, espanta-se atrás de mim um amigo que me acompanha. “Estás a ver bem aquilo? Tu filma já isto”, vocifero impávido. Gente a dançar sem preconceitos, soltura física em silhuetas contornadas a strobbing lights, brancos e negros numa comunhão enfeitiçante, uma batida frenética que logo me desperta. É a Noite Príncipe que hoje chega ao mundo inteiro via Boiler Room e o mundo está certamente a dançar com Lisboa.

Desfaço-me do último obstáculo e já estou misturado entre o público. O Musicbox ainda não está nos limites da capacidade, mas há muitos corpos colados entre si numa dança que nos une em agitações temperadas a África. Os DJs – vejo o Nunex e Famifox a tomar conta dos acontecimentos – estão separados do público apenas por uma mesa onde se encontra toda a parafernália de manipulação sonora. Atrás destes, no palco onde habitualmente actuam os artistas em concerto, está gente, muita gente, braços nos ar, cânticos aqui e ali. São eles que puxam pelo restante povo, são eles que estabelecem o ritmo da dança.


noite_principe_boiler_room_2015_3_rmvieiraDJ Marfox e DJ Nunex


Após a actuação de Nunex e Famifox é a vez do colectivo Blacksea Não Maya – DJs Perigoso, Noronha e Kolt – em modo roda-bota-fora na mesa de mistura, ouvidos e sensibilidades em sintonia e o povo atrás dos seus argumentos. E que argumentos são esses? Afrohouse? “Correcção, eu não diria que isto é afrohouse, isso vem da África do Sul e isto é de Lisboa”, diz-me firmemente a jovem de 18 anos Nídia Minaj uns minutos depois do seu set. “Isto é batida de Lisboa”. No fundo, este é o som que está gravar o nome da capital portuguesa nos livros de história de música. Tal como o techno de Detroit e o house Chicago são muitas vezes citados paredes-meias com as produções dentro do género (influenciando mesmo o aparecimento do kuduro em Angola), a “batida de Lisboa” – que mais não é do que a “música do gueto, muita gente não sabe, mas isto é música do gueto”, sublinhará também mais tarde Nunex – já é uma revolução planetária cuja teia se estende ao universo multifacetado da electrónica e da global dance music.


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“Eu não diria que isto é afrohouse, isso vem da África do Sul e isto é de Lisboa. Isto é batida de Lisboa.”
Nídia Minaj


Lá atrás, nos bastidores, cuja sala dos artistas não é um quadrado nem um triângulo regular, cruzo-me com Marfox, visivelmente entusiasmado com toda a festa e ambiente, ainda para mais em transmissão directa para os quatro cantos do globo. “Isto é música, isto é paixão, isto é amor.” Isto é uma celebração que o DJ e produtor da Quinta do Mocho ajudou a semear, em Portugal e no exterior. E se recuar ainda na raiz destes sons, tenho então a dizer que está aqui a meu lado o DJ Nervoso, também da Quinta do Mocho. Conta-se que terá sido ele o pioneiro na transformação das sonoridades de influência luso-africana nestes beats potentes que se disseminaram pela periferia de Lisboa; disparo revolucionário que primeiro ecoou em festas no bairro, onde Nervoso rodava repetidos loops durante duas horas, sem sinais de abrandamento entre os presentes nessas míticas celebrações.

Saio do backstage, onde também estava o britânico Jim da Just Jam a gravar um documentário. No exterior vejo cada vez mais gente na pista de dança e, com as horas a avançar, são mais e mais os que entram no Musicbox. DJ Maboku está no leme dos graves electrónicos e dos recortes tribalescos, seguindo-se Marfox com Nervoso (dupla histórica, portanto) e o encerramento com Puto Anderson e DJ NinOo. A noite arrasta-se até às primeira refracções do Sol. Lisboa a acordar com a sua própria batida.

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Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.