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No escritório de Vilão, o “CEO” da ASTROrecords

[ENTREVISTA/FOTOS] Bruno Martins

 

No quarto andar de um prédio em Alcântara, o quartel-general da editora ASTROrecords, Vilão abre a sua página de Facebook e carrega numa janela de chat com Holly. Ali, naquele pequeno quadrado, está uma troca de ficheiros entre o produtor das Caldas da Rainha e o rapper lisboeta. “Ele mandou-me este beat e eu fiquei maluco. E já gravei umas rimas.” Carrega no play e ali, de repente, do nada, está o esboço de uma faixa que, de certeza, haverá de aparecer e fazer-se ouvir por aí em breve, provavelmente “numa faixa solta”.

Para quem vive longe destes terrenos da produção musical, tudo se assemelha a um processo estranho, quase onírico: sentimo-nos como garotos boquiabertos a olhar para um coelho a sair de uma cartola. “Mas onde é que isto estava? De onde é que isto vem?”. Estar neste quarto andar de um prédio antigo em Alcântara a ouvir uma música que vai existir daqui a uns tempos ou estar nos estúdios Electric Lady, em Greenwich Village de Nova Iorque, exactamente o mesmo sentimento de surpresa. O espanto seria sempre igual. “Alguns dos meus amigos que não estão ligados ao hip hop ficam muito impressionados, porque não conseguem perceber como é que uma rima pode encaixar num instrumental”, sorri Vilão. Acrescentamos nós: “Sabes quando estás a olhar para um mágico a fazer truques de cartas e te pões a pensar: ‘Como é que aquele gajo faz aquilo?’ É o que acontece neste caso.” Mas a verdade é que a aparente facilidade com que o ilusionista faz magia é a mesma com que um MC rima.

Esta é uma história que se repete em muitas casas, em muitas salas e em muitos estúdios de gravação. E Gonçalo Domingues, que se apresenta em discos e em palcos como Vilão, é um dos muitos “ilusionistas” da praça. No dia 1 de Novembro editou o seu primeiro disco, Mau da Fita, um trabalho que era esperado há muito tempo: já o vimos a aparecer em diversas ocasiões, em várias faixas de colaborações. Até agora, o CEO, como os colegas da ASTROrecords lhe chamam, tinha estado dedicado a outras questões mais logísticas da editora. Além disso, como confessa, não encontrava sentido em “estar a lançar logo um disco de estalo: há que criar um nome, sustentar a cena antes de lançar música para rua, se não ninguém vai ouvir e toda a gente faz música para ser ouvida”.

A porta de entrada do prédio antigo que se situa mesmo por baixo da Ponte 25 de Abril é-nos aberta por uma vizinha de Gonçalo Domingues. Um velho caniche, deitado no fim do primeiro lanço de escadas, olha e abana a cauda à procura de atenção à medida que galgamos as velhas escadas de madeira até ao último andar. Vilão abre-nos a porta e saúda-nos simpaticamente. Pensámos que o íamos encontrar agarrado ao microfone a ensaiar para o concerto de sábado, dia 9 de Janeiro, que vai fazer no primeiro Dentro da Caixa que marca o arranque das noites Rimas e Batidas no Musicbox, em Lisboa. Ao invés disso, o rapper está sozinho nesta casa com três quartos que acolhe todas as actividades da editora que aqui fundou “há quatro ou cinco anos”.

“Basicamente, este andar onde estamos foi uma prenda da minha avó. Ela é dona deste prédio e disponibilizou-me este último andar para eu fazer o que eu quisesse. Tinha eu os meus 17 ou 18 anos. Tive essa liberdade cedo e acabo por ter a minha independência toda aqui”, explica-nos. É uma independência muito confortável. Aqui todos estão em casa, até o próprio Vilão que tem o seu próprio quarto, apesar de morar com a mãe cinco andares mais abaixo. Mesmo em dias de casa cheia, os vizinhos não chateiam com o barulho, o que faz com que este seja um local de sonho para um grupo de amigos: uma sala grande com televisão, internet, estantes com discos, microfones; uma cozinha; casa de banho com vista para o rio Tejo e um quarto com um beliche “para a malta crashar” quando quiser – vulgo, quando as noites se prolongam até ser dia. “O pessoal começou a vir para aqui muito cedo, porque este era “O” spot para bebedeiras, jogar consola e trazer miúdas”, confessa. Daqui, destas tertúlias da juventude, começou a desenhar-se uma ideia de um colectivo que está a fazer-se notar muito no hip hop nacional.

 


Há seis ou sete anos, tinhas uns 18 ou 19 anos, esta casa era apenas um sítio para os amigos se encontrarem. A ASTROrecords surgiu no decurso disso mesmo. Mas, primeiro que tudo, conta-nos como é que surgiu a tua ligação ao hip hop.

A música surge por uma série de eventos na minha vida: a minha ligação inicial à cultura do hip hop vem do graffiti. Comecei a pintar com 15 ou 16 anos – os primeiros tags talvez tenham sido aos 14. Fui-me juntando com mais malta que pintava e a música era a nossa banda sonora. E era o que ouvia desde puto! Até te mostro os CD: Sam The Kid, Dr. Dre, Sean Price… cenas mais antigas.

Mas consegues perceber porque é que te encantaste com o género do hip hop e não outro género qualquer?

Não sei. Mas eu já ouvi de tudo. Se calhar a minha relação com a cultura hip hop é mais natural – não foi escolhida. Talvez também por influência das pessoas com quem me rodeia.

No teu caso, falar de hip hop não é, definitivamente, falar só de música, até porque a ligação à cultura começa nas latas de spray.

E mesmo nessa altura não estava a representar nada! Estava apenas a pintar porque me dava prazer. Por acaso essa é uma das variantes do hip hop!

Como é que te apercebeste que para lá dos tags e dos graffitis também tinhas vontade de escrever rimas?

Também foi surgindo naturalmente, com o ir apontando piadas nos cadernos. Como comecei a pintar cedo, andava sempre com sketchbook onde estavam os desenhos que ia fazendo. Estava tudo gatafunhado com desenhos, palavras que me ia lembrando, números de telefone… andava sempre com um caderno. É um hábito que ainda tenho – aliás, hoje passou tudo para o iPhone. Até devia ter um caderno à parte para ir apontando as merdas que aponto no iPhone.

No meio disso tudo, vamos parar a um disco – uns bons anos à frente. A malta da ASTROrecords chama-te “CEO”, mas acabaste por lançar o teu disco só muito depois de teres editado vários outros álbuns, EP e mixtapes.

O ProfJam lançou primeiro, o Mike El Nite lançou depois, o Vácuo também… foi essa a ordem de eventos.

Não lançaste o teu disco porque estiveste mais ligado ao lado logístico da ASTROrecords?

Não sei, mas se calhar pode ter passado por aí, porque todos esses materiais – The Big Banger Theory [ProfJam], Rusga Para Concerto em G Menor [Mike El Nite] e Evacuação Obrigatória [Vácuo] – foi tudo gravado aqui e tudo gravado por mim. Só depois desses trabalhos estarem concluídos é que poderia dedicar-me a uma coisa minha. Estávamos a criar buzz. E não me fazia sentido estar a lançar logo um disco de estalo: há que criar um nome, sustentar a cena antes de lançar música para rua, se não ninguém vai ouvir e toda a gente faz música para ser ouvida.

Mas Mau da Fita não nasce de rajada: até é uma espécie de compilação daquilo que tem vindo a criar sem editar.

Um bocadinho. Quem me convenceu a fazer o disco foi o Nélson [Monteiro] – o nosso manager, roadie, o “faz-tudo” da ASTRO (só não faz música). Eu estava a querer lançar faixa-a-faixa, mas ele que apertou comigo. O álbum começou a ser pensado, escrito e produzido, no Verão de 2014. É dessa altura vem a ideia do álbum, apesar de já ter muitas coisas escritas e apontadas. Depois foi juntar as coisas que queria, tirar as que não queria e também escrever coisas novas.

Foi aí que nasceu a ideia do Mau da Fita? Há algum conceito por trás do disco?

Mau da Fita não tem nenhum significado especial enquanto título, é mais uma espécie de “aka”: Vilão, o Mau da Fita. Sem parecer muito pretensioso, sabia que para um disco resultar tinha que ter certas faixas e houve algumas que foram escritas porque sabia que ia fazer um disco. Por exemplo: “Acasos”, com o Bispo e Harold, é um tema que fala de noite e miúdas… gosto de escrever sobre isso, mas, na minha óptica faz sentido apenas em disco! A faixa “X”, sobre a ex-namorada, faz sentido também num disco, se calhar como faixa isolada não.

Achas que um tema tão íntimo e pessoal como esse não te apresenta e representa na totalidade enquanto rapper?

É isso mesmo. Fugia àquilo que eu quero mostrar enquanto MC. Faz sentido num bolo, mas como fatia não.

Em termos de sonoridades, escolhas de instrumentais e produtores, o que é que procuravas? O que é que te fez abanar?

Fui pelo meu gosto. Nem interessava se a faixa anterior tinha alguma coisa a ver com a próxima. Importava que eu gostasse. Os produtores que convidei foram METAMVDNESS, Holly, King Kong, Ghost Wavvves, RichardBeats ou Retarded Temaki. E o [DJ] Ride que faz um scratch [na faixa que dá nome ao disco]. É tudo malta que conheço, tirando o RetardedTemaki – que conheci através do [Mike El] Nite.

Mesmo tendo uma grande diversidade sonora, parece-me que há uma grande ligação da tua parte aos clássicos do rap, aos recursos estilísticos da Golden Era: os instrumentais feitos com os teclados Rhodes ou guitarras eléctricas limpas, por exemplo.

Sim, mas não escolho os instrumentais por me sentir ligado de alguma forma: escolho porque me transmitem qualquer coisa. Há faixas mais clássicas, como dizes, mas também há mais new school – mais trap. Já me disseram isso várias vezes, que preferem ouvir-me mais em boom bap do que em trap.


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A ASTROrecords assenta os seus princípios num verdadeiro espírito corporativo e de colectividade. Trabalham juntos, criam juntos, vão aos concertos uns dos outros… Juntos são mais fortes?

Sem dúvida. A base disto tudo é a nossa amizade. Já todos estávamos a criar os nossos projectos individuais antes de sermos colectivo, mas já havia uma relação de amizade. Apoiamo-nos todos de forma artística, na medida em que todos ouvimos opiniões e sempre que algum de nós precisa de uma “mãozinha” nós damos.

E o pessoal da ASTRO também vai estar contigo no sábado no Musicbox, nesta noite Dentro da Caixa do Rimas e Batidas?

Vai estar o [Mike El] Nite como DJ, como tem estado. Depois depende: anda sempre tudo a fazer mil e uma coisas, anda tudo em época de exames… a malta vai estar, mas ainda não sei quem!

Como estás a preparar este concerto?

Preparo tudo aqui na sala ao lado, que é a sala de ensaio: puxamos as colunas para lá, os microfones, o Mike vai mexendo nuns pratinhos e vamos ensaiando. Vou fazer uma coisa similar ao live que tenho feito mais recentemente: toco as músicas de que o pessoal gosta do Mau da Fita, mas não só. Toco outras antigas, também.

E conta-nos lá, agora como CEO da ASTROrecords: como estamos em termos de business? As coisas estão a correr bem, tanto para ti como para a editora?

O feedback tem sido óptimo. Nem temos muita malta a falar de nós. Vamos passando à margem dos haters… Os concertos, para nós, tem sido tudo: vendemos CDs e chegamos a mais público. Temos tido muitos convites, de Norte a Sul – tanto individuais como para o colectivo. É fixe porque mesmo que seja a solo, a malta carrega sempre a bandeira da ASTROrecords – nem que seja com a t-shirt vestida.


 

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O que é que representa a ASTROrecords hoje para a cultura hip hop em Portugal? Que bandeira é essa de que falas?

É difícil de dizer. Como o ditado, “não se explica, sente-se”. Cada um há-de ter a sua visão, apesar de eu achar que deve confluir e ir dar ao mesmo.

Sentes que pode ser a representação de uma nova geração? Mesmo tendo malta que vem de sítios como Massamá ou de Vila Franca de Xira, a ASTROrecords nasce nos subúrbios, não cresce nos guetos, não fala dos dramas sociais de bairros, até porque desenvolve-se no centro da cidade.

Talvez seja por aí: a diferença talvez venha da mensagem, que não bate nos clichés do hip hop… Visto de fora é outra análise.

Não criticam as polícias ou políticas, mas falam das dificuldades de uma qualquer pessoa que vive nos dias de hoje, que tem de trabalhar de manhã, estudar à noite e ainda ter pouco dinheiro para viver à tarde. E não são só vocês – há outros colectivos a fazer o mesmo noutros sítios do país.

São retratos de uma geração. Nunca tinha pensado nisso dessa forma, mas faz-me sentido. Nós falamos do que nos preocupa, das nossas ambições, daquilo que nos move. Falamos daquilo que nos rodeia e não daquilo que é suposto falar! Também somos um bocadinho desbocados – às vezes falamos um bocadinho demais, mas faz parte!

E no futuro? Há coisas novas na calha. Há um projecto a nascer com o King Kong?

Ainda é cedo para falar, porque está tudo a arrancar. Mas a ideia é fazer um EP de seis faixas, só eu e ele. O King Kong é um animal: tudo o que ele faz é muito bom! Tem um groove muito diferente – foi ele que produziu a faixa “Controlo” do Mau da Fita.

Como é que se conheceram?

Estávamos a treinar no mesmo ginásio e não nos conhecíamos. Ele mandou-me uma mensagem a perguntar se não era eu que estava lá nesse ginásio. Nem conhecia a cara dele. No dia seguinte começámos a falar e treinar juntos e surgiu uma conexão bacana. E pronto, vai sair o EP.

Para quando?

Não sei mesmo! Ainda não temos nada, a não ser a ideia. Estou a trabalhar de manhã; a estudar produção e criação musical à noite; e à tarde é a namorada, estúdio, ensaios… Acho que nunca estive tão ocupado!

 

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