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Fotografia: Sebastião Santana

Uma questão de coragem e timing.

Niles Mavis: “Samplar músicos como o Prince é um challenge que me dá pica”

Fotografia: Sebastião Santana

Diamond Cut já está disponível. O DJ Nel’Assassin regressa à personagem Niles Mavis e assina nove faixas instrumentais que são inspiradas pela música pop negra dos anos 80.

Uma espécie de estágio entre discos. O mais recente alter-ego criado pelo Alfaiate do hip hop nacional foi desvendado em 2016 com a edição do álbum homónimo Niles Mavis. Agora, com um novo LP de originais na mira para 2021, o veterano DJ e produtor vai preparando a pista com uma mixtape que recupera as memórias musicais da sua infância. Há Gladys Knight, Prince, Midnight Star ou Billy Ocean na base para estes temas, criados com o propósito de homenagear a filha, o movimento turntablism e a cena clubbing.

Em conversa com o ReB, Nel abordou a concepção deste trabalho, a vontade de o levar para o palco e para o formato físico, bem como a criação de uma nova editora (a CMF Recordings) e os planos que o irão levar até ao segundo álbum enquanto Niles Mavis.



Da última vez que falámos tu tinhas-me avançado com essa ideia de novo material de Niles Mavis em 2020. Esta questão do isolamento social veio apressar as coisas ou tu já andavas a compor por essa altura?

Já andava a trabalhar neste disco há uns tempos. Fui fazendo. Fui moldando o disco na minha cabeça. O primeiro tema foi o “Diamond Cut”, que dá nome ao disco, e tem um sample do Prince, do “Diamonds And Pearls”, que é uma música que eu já queria samplar antes mas tive de encontrar a coragem e o mindset certos para isso. Porque eu respeito bué… Para mim, músicos como o Prince são o expoente máximo da cena. Ou como o D’Angelo, Stevie Wonder… São o expoente máximo da música. Samplar isso é um challenge, percebes? Esse challenge deu-me pica. E esse tema, “Diamond Cut”, é uma homenagem à minha filha. Eu pensei, “não tenho uma música para a minha filha ainda e se eu morrer não lhe vou deixar isso”. Então agarrei no tema e fiz isso.

É engraçado. Sendo assim arrisco-me a dizer que esse título terá dois significados, porque na minha cabeça associo instantaneamente “Diamond Cut” ao riscar da agulha do gira-discos no vinil.

Ya. É isso mesmo. Estava a tentar encontrar uma forma de ligar essas duas coisas. Porque às vezes também pode ser informação a mais. Mas claro que a dedicatória à minha filha vem em primeiro lugar. É uma cena especial.

Estavas a falar-me da necessidade de ter o mindset certo para abordar samples desse calibre. Isso é uma ideia que eu creio que se aplica ao álbum todo, porque há aqui muita música pop negra misturada. Há um peso maior inerente ao processo de samplar uma faixa que faz parte do cancioneiro de quase todos nós, comparando com um som que possas sacar de um disco que praticamente ninguém conhece? Ou seja, sentes que tiveste de dar mais de ti para, de alguma forma, camuflar a música para que a associação ao original fosse menos perceptível?

Exactamente. Todo o álbum foi um challenge. E tudo o que é challenge, eu sempre gostei. É algo que puxa por ti. Aliás, o scratch é isso, né? O scratch é uma constante procura de aperfeiçoamento, de procura por sons novos, de trazer novas técnicas. Isso é um challenge. E depois, sinceramente, a música pop negra é boa, man. Principalmente a dos anos 80. É boa! Isso ajuda também.

Além da homenagem ao scratch e à tua filha no título, tens ainda a sonoridade, a tal pop negra dos anos 80, que provavelmente é a tua vénia às influências musicais que tiveste durante a tua infância. Muitas das coisas que samplaste aqui devem vir, provavelmente, dos discos que os teus pais te metiam a ouvir.

Sim, fizeram parte do meu crescimento. A maioria deles é bem possível que os tenha conhecido graças à colecção dos meus pais.

E como tens um contacto constante com o vinil por seres DJ, também fizeste questão de ir mesmo aos discos sacar os samples ou a Internet deu uma ajuda nesse campo?

Nem sempre. Há coisas que não consegui encontrar. Aliás, até consegui encontrar mas era o próprio disco que já estava muito danificado do uso e do tempo. Às vezes é fixe ter aquele ruído do vinil. Mas neste caso eram coisas já demasiado danificadas para usar nesse sentido.

Eu, por acaso, não tenho ideia de como é que tu costumas trabalhar a tua vertente de produtor. És um mais um gajo de computador e softwares ou não és grande adepto da cena digital e usas, sei lá, uma MPC ou um outro sequenciador?

Eu gosto de misturar as coisas. O meu formato enquanto producer abrange teclados, MPC 1000. Mas também funciono com o Ableton Live. Eu gosto de misturar tudo.

Todas as faixas que escolheste para o disco passaram por todo esse tratamento?

Não. O “Diamond Cut”, por exemplo, é só MPC. Há outras feitas só no Ableton.

E tudo à base de samples ou também tocaste aqui algumas coisas?

As faixas foram feitas cada uma com o seu sample. Fui buscar vários elementos do sample base. O que eu queria mesmo com este disco era poder dar a conhecer às pessoas o meu próprio twist a determinada faixa. Tipo criar versões das músicas, mais viradas para o hip hop, para o DJing e para o club, com a ajuda dos drums. É funky shit.

Este lançamento não tem nada a ver com a Assassin Records, pois não? Estás a edita-lo de forma totalmente independente, como já tinhas feito no primeiro disco?

A Assassin Records é uma label estritamente de rap.

Apanhei um post teu no Instagram em que falavas deste Diamond Cut como uma “primeira colecção” de novo material de Niles Mavis. Tens aí mais planos para breve que queiras antecipar?

Tenho, claro. Isto é tipo uma viagem. Tenho o primeiro disco, homónimo. Este faz parte da viagem mas é mais uma espécie de mixtape. Isto serve de ponte entre o Niles Mavis e o próximo que está para vir, que eu já considero mesmo um disco de originais, digamos assim.

Já tens ideia de quando sai? Queres revelar o título?

O primeiro single do próximo disco sai no final deste ano. O disco sai em 2021, mas estou a pensar promove-lo com três singles. Ainda não tenho ideia das datas mas quero lançar mais do que um single este ano.

Este Diamond Cut vai ter edição física?

Quero ter edição física deles todos. A intenção é criar uma label, que se vai chamar CMF Recordings. É por lá que vou lançar os discos todos e todo o dinheiro que eu angariar as vendas vai ser canalizado para vinil e merch. Ou seja, criar mais bases para a editora poder lançar outros projectos e ajudar outros músicos. A intenção é essa. Utilizar as armas que eu tenho não só comigo mas também para ajudar outros músicos de alguma maneira.

Essa sigla CMF remete para o quê, já agora?

Eu não quero revelar isso já. Mas basicamente a explicação para isso vai estar nos meus primeiros dois singles do próximo álbum. Fica em aberto. Eu quero é que as pessoas depois vão à procura e decifrem a cena.

Neste momento já temos o circuito dos concertos a regressar, a pouco e pouco, à normalidade. Tu tens planos para apresentar o Diamond Cut ao vivo? Ou, quem sabe, através de um live stream, como tem sido a moda agora, que tu até já fazias de certa forma nas tuas rotinas de DJ.

Estou a planear fazer coisas live também. Mas quero fazer coisas com mais estrutura. Sem ser um simples live em casa. Quero captar o live como se fosse um concerto. Se puder ter plateia, melhor para mim.

É algo que não está, então, fechado.

Ya. Estou a ter ideias. A minha banda está sempre comigo e nós… Isto é tipo uma rave. Chegas a um sítio, ligas-te ao PA e estás pronto para tocar. Funciona assim. Mas eu quero estimular o people para outras coisas também. Mas sem dúvida que quero levar isto para o live.


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