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Fotografia: Sebastião Santana

O histórico DJ celebra 20 anos de carreira amanhã no B.Leza, em Lisboa, e sobe ao Hard Club, no Porto, no final do mês.

Nel’Assassin: “Falta o risco. O people tem de riscar e arriscar mais”

Fotografia: Sebastião Santana

Os MCs e os produtores podem até dominar por completo os quadros da nação hip hop em Portugal mas a proporção de DJs em actividade nos dias que correm não é de todo um número assim tão baixo. Menos mediáticos, é verdade, é tarefa fácil e rápida nomearmos duas ou três mãos cheias deles. Difícil será encontrar um com um currículo tão longo e rico como o de Nelson Duarte, mais conhecido como Nel’Assassin, Sr. Alfaiate ou Niles Mavis.

Os anos que se passaram desde a estreia atrás dos pratos já não lhe permitem identificar de forma certeira a longevidade da sua carreira mas uma coisa é certa: são mais de 20 anos a “arranhar vinil”. Dada a incerteza da memória, a celebração da marca redonda foi sendo posta de lado mas acontece já a partir de amanhã, com o “assassino” a dar uma aula de turntablism no B.Leza, em Lisboa, com a ajuda de uma turma luxuosa de MCs convidados — Sagaz, Landim, Phoenix RDC, Harold, Each, Tom, Nameless, Birro, Ruas, Brain da 6eniou$ e Family Complow são os nomes que dão outro peso ao cartaz do evento. No dia 28 deste mês, a dose repete-se no Hard Club, Porto. O trajecto de Nel’Assassin está ligado ao aparecimento dos Micro, grupo que divide com Sagaz e D-Mars e que, segundo confidenciou ao Rimas e Batidas, está na iminência de nos apresentar algumas novidades. Nestes mais de 20 anos de percurso, o histórico DJ de hip hop já foi campeão nacional na modalidade do turntablism, alimentou o formato da compilação/mixtape e até produziu os seus próprios instrumentais, como aconteceu no mais recente 4.0, que inaugurou a sua editora Assassin Records.

[Os números “a sério”]
“Tenho cerca de 23, 24 [anos de carreira]… Mas como não celebrei os 20 anos… Eu acho que 20 anos é mais importante do que 10 ou 30, na minha óptica. No meu pensamento, 20 anos é a marca mais importante para um artista. Por isso eu não podia deixar de o fazer. É esse o motivo desta festa.”
[O início da cultura turntablism em Portugal]
“O meu irmão é praticamente o primeiro DJ a fazer cuts em Portugal. O chamado baby scratch. É o scratch old school, porque era feito com mesas da mistura que não tinham crossfader. O meu irmão era, na altura do Rapublica, não [vou] estar a dizer que era o mais importante mas era certamente um dos gajos mais importantes no hip hop em Portugal. Ele levava a cena para a frente. Arriscava. Era um bocado mais atrevido. Tinhas o Jaws T, a Yen Sung, mais um ou outro que eu agora não me estou a lembrar. Essas pessoas foram o ‘sol’ da cena. A raiz do scratch em Portugal.”
[Os primeiros passos da carreira]
“O bicho começa através dele. Ele próprio puxou-me para me ensinar a mixar música e a fazer essas cenas todas. Eu como comecei a mixar música mais ou menos no mesmo tempo de Micro. Eu começo a levar a cena mais a sério, em ’97, por aí. O meu início começa com Micro mas eu juntava-me com o meu irmão e ele levava-me para jams de mistura com o Wise, o writer, que também era DJ. Juntávamos-nos e eu ganhei esse bicho. Eles perderam… É mesmo assim que tem de se dizer: eles perderam a pica. Eu não perdi a pica de misturar mas misturar já era uma cena… Já o fazia bem mas queria o next level. Tinha de ter o next level. O next level foi sempre o scratch, que eu via em tapes VHS e que muito raramente chegavam [cá a Portugal]. Eu não dizia a mais ninguém, mas dizia para mim, “eu vou fazer isto. Sei que isto é muito difícil mas eu vou fazer isto”. Até era um gozo, quando as pessoas falavam de turntablism, de cenas que eles nos States já eram mais evoluídos — X-Ecutioners, Q-Bert, Invisibl Skratch Piklz, Mix Master Mike… Tu vias aquilo e era mesmo impossível. Principalmente por ser há 20 anos. Não tens material, não tens uma série de coisas. Mas eu dizia sempre para mim, “eu vou fazer isto”. Disse ao meu irmão, “eu vou fazer isto. Eu vou levar a cena para a frente. Vocês pararam mas eu não vou parar.”


[A evolução do turntablism em Portugal]
“Não é uma questão fácil. Houve realmente uma evolução. Claro que houve uma evolução. E até considerável. Surgiu people… Não vou dizer que surgiu muita gente. Porque o turntablism é como se estivesses a tocar um instrumento. Tu não agarras numa guitarra e começas a tocar e passado um ano ou dois és o maior. Isso não acontece. Ou numa bateria. Passado um ano ou dois és o maior? Não. Isso não é real. O que é que eu quero dizer com isto? Há gajos muito bons aí a fazer cenas. Os Scratchers Anónimos estão aí a fazer um trabalho incrível, que é manter a chama das battles vivas entre o pessoal do scratch. Mas também sinto que existem lacunas para preencher, que antes não haviam. Antes havia campeonatos de tudo. Os campeonatos de rotina, de sete minutos, em que tu inseres a tua criatividade. Vais buscar um disco da Amália e misturas com um beat, fazes um cut. As rotinas trazem esse tipo de criatividade. Como hoje em dia não existem esses campeonatos de rotinas, acho que esse buraco tem de ser preenchido. É uma cena muito rica e traz bué sumo à cena. Quando não há, há ali aquela seca. Mas os Scratchers Anónimos estão a fazer um bom trabalho. O Stereossauro e o Ride são muito bons também. E o people do Porto, man… Ando aí entusiasmado com para aí uns cinco gajos. No Porto eles têm aquela dica deles e um gajo respeita mesmo bué. Eles suam a camisola, no matter what. E não interessa se é de Braga ou doutro lado, eles vão sempre juntar-se. Por exemplo, na altura dos campeonatos, eles vinham todos juntos, estás a ver? É uma cena bué bonita de ver.”
[As lacunas do presente]
“Falta o risco. Literalmente. O people tem de riscar e arriscar mais. A música de hoje vive de números e o turntablism não é uma cena de números. Tem de haver audácia. Não é uma cena fixe eu olhar e “porque é que fui só eu este ano a fazer uma compilação com cuts? Porquê, man?” Não pode ser. É uma cena que não te dá números e se calhar não vende muito e as pessoas perdem a vontade. A música também é uma cena de coragem. Para tocar um instrumento tu também precisas de ter coragem. As pessoas pensam que não, mas na música não é só receber. Também tens de dar um pouco de ti.”
[Como um peixe dentro de água]
“Eu realmente amo isto. Não só o scratch mas qualquer outra coisa que faça. Desde início que sempre me multipliquei e meti na cabeça que… quando comecei, mixei e aperfeiçoei isso. Chega a uma certa altura e “venha o next step“. Scratch. No scratch já estou a dominar, então next step. Beats. Já domino? Next step. Eu sou sempre assim. Não me contento só com uma cena. Eu tive de me multiplicar. Não me cego pela ambição mas tenho a minha própria ambição. Eu tenho coisas a provar a mim mesmo. Tudo dentro desta área eu tenho de saber, porque é a minha cena. Eu respeito aquele gajo que só faz uma cena mas é incrível nisso. Só que eu adoro aprender.”
[Assassin Records e o conceito de curadoria]
“A Assassin Records é outro next step. Isso surge de uma necessidade de aprender mais também. Se o universo do indie não está sólido, quantas mais labels e iniciativas se juntarem à causa, mais sólido tudo fica. E, basicamente, toda a gente que participou na 4.0 está de alguma forma associada à label. Até porque hoje em dia é muito fácil tu chegares ao contacto com os outros artistas. Depois há também a cena da união. O meu objectivo é que nestas duas datas, no backstage, eu possa apanhar o Phoenix a falar com o Tom, o Harold com o Each. Eu já acabo por fazer curadoria nas pistas de dança com os meus sets e a Assassin Records é mais uma extensão disso.”
[Edições para 2020]
“Tenho cenas minhas para editar. Este ano queria mesmo meter coisas na rua. Não quero revelar muito para já mas é basicamente Niles Mavis stuff. O Sagaz está com um disco. Micro está a preparar uma cena. Estou a falar com o Tom para fazer dicas. Também estou a falar com os ORTEUM para fazer dicas. Estou a falar com o Deau… Pá, bué coisas.”
[O movimento hip hop em Portugal]
“Está bom por um lado, mau por outro. Porquê? Está bom porque já é uma indústria — já existe numbers, dinheiro para subsistir e sustentar certos mecanismos. Mas está também precoce em certas coisas — há pouca gente com um mindset parecido com o meu, de querer mais do que só um hit na televisão. Acho que esse lado mau está a precisar de ter… Está a precisar de love, boy. Acho que é love. Love. Love. Os números estão a ofuscar bué people e o people está a esquecer-se do mais importante: love!”


[Underground]
“No underground, o love é o que sustenta a cena! É de lá que surge tudo. Anderson .Paak, Kendrick Lamar… Toda a gente vem do underground. O underground é que dá o próximo hit. O próximo hit da televisão vai ser de um gajo que vem do underground.”
[Na playlist do Assassin]
“Griselda! Boy… Também ando a ouvir Foreign Beggars, UK… O último disco deles é mesmo incrível. Little Brother. O último álbum deles ficou… Ficou, man! Tipo, eu meti a tocar uma vez e nunca mais consegui tirar aquilo, fogo. É muita coisa. Da tuga tenho andado mais pelo Tom, os ORTEUM… Tenho ouvido bué Tom e ORTEUM. Também ando em cima de algumas cenas de trap, mas faço o meu filtro, estás a ver? Os nomes ainda não decoro… Não me está a vir nenhum à cabeça. Mas tudo o que tenha demasiado auto-tune não vai colar fixe comigo, porque é uma frequência que o meu ouvido não curte. Se calhar o Freddie Gibbs, por só ter metido ali um bocadinho. Mas o beat também é do Madlib… É um conjunto de uma cena toda. Agora quando tu vives só do auto-tune… Tiras o auto-tune e não és ninguém? Isso não é artist shit.”
[Break Ya Neck]
“Nós fizemos a primeira e correu bem. Estamos a solidificar a cena behind closed doors. Solidificar, planear. Ter um plano muito mais extenso que não passe apenas por uma data apenas. Temos tema para as próximas quatro edições. Temos que estar bué sólidos e organizados. Tudo o que começa precisa sempre de bases, de olear. Isso é o mais difícil. Até já podíamos ter feito outra festa mas não fizemos, por causa do sítio ou por acharmos que seria precipitado. Às vezes não vale mesmo a pena dar um tiro no pé. Esperas e depois fazes uma cena mesmo proper.”
[Duplo evento de celebração dos 20 anos de carreira]
“Não vai ter o mesmo alinhamento nas duas datas. Há nomes que vão sempre comigo, mas há outros que trabalham e têm as suas próprias datas… Vou tentar levar o máximo daquele people que está sempre comigo e que quer estar comigo e fazer cenas. E, sinceramente, eu também não quero muito repetir o mesmo show. Até porque o palco nem é o mesmo, a cidade não é a mesma. Quero tratar os show de maneira diferente. Mas ambos vão contar com muitos cuts, certamente.”

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