NERVE deu o isco e o Musicbox mordeu

[TEXTO] João Marques [FOTOS] Beatriz Santos

Que NERVE é um rapper diferente isso já se sabe: a forma como joga com a semântica e a sintaxe metem-no numa plataforma à parte no panorama do rap português, mas não necessariamente acima nem abaixo de ninguém – simplesmente ao lado. E se em disco Tiago Gonçalves se apresenta como “um sacana nervoso”, no palco disfarça muito bem. Ele deu o isco e o Musicbox, no Cais do Sodré, mordeu.

As portas abriram tarde, mas já havia uma fila bem antes das 23 horas que se estendia até à intersecção mais próxima da rua Cor-de-Rosa. O espaço estava esgotado em mais uma noite de hip hop, hoje um pouco mais obscuro e alternativo que o costume.

Notwan entrou em palco para dar música a uma casa já mais que composta. Quando acabou o espaço estava cheio e pronto a receber NERVE. A cooperação entre os dois é já conhecida de projectos como Trabalho & Conhaque’ ou ‘A Vida Não Presta & Ninguém Merece a Tua Confiança’ e por isso quem fez o aquecimento ficou para fazer também a festa atrás da mesa de mistura. “Sobe aí, ó lenda”. E NERVE subiu pronto a declamar “Lenda”, ao jeito do álbum, com uma métrica própria.

 



Que nem um “Monstro Social”, NERVE socializou um pouco com o público, que cantava sem problema o ” falso” refrão. A terceira do alinhamento manteve-se dentro do álbum de 2015: “Conhaque” é uma das que o público mais gosta e notou-se na maneira como a recebeu. De copo numa mão e cigarro na outra, a plateia ia recitando as partes que sabia. Um verso aqui, outro acolá, e fazia-se a canção cantada por várias bocas espalhadas pelos cantos da sala. A situação só se invertia quando de cima do palco NERVE ordenava “agora vocês”, e a malta cá em baixo obedecia ao megalomaníaco.

As próximas duas foram um salto atrás no tempo e na cronologia da obra. Foram duas seguidas de Água do Bongo, a homónima e “Pobre de Mim” que se escutaram apenas na boca dos mais fiéis seguidores. Os restantes abanavam a mão como é procedimento padrão em eventos do género.

Mas o momento provavelmente mais aguardado estava quase a chegar e ninguém fazia ideia. Depois de duas músicas do EP esperava-se talvez algo de Eu Não Das Palavras Troco a Ordem, que acabou por ficar de fora para desfeita de alguns membros do público. NERVE pediu uma luz vermelha para introduzir Auto-Sabotagem mas deram-lhe uma branca. “É o outro botão”, dirigiu do microfone para a cabine por cima do bar até lhe darem o vermelho da capa do álbum que ele próprio desenhou. E entrou-se pela porta da frente no EP mais recente com “Deserto”. Seguiu-se a ordem das faixas do álbum com “uma carta de amor” que é “Plâncton” e o “Chibo” fez-se ouvir mesmo antes do momento alto da noite. Notwan saiu de trás da mesa e pegou no instrumento tal como o fez na versão de estúdio. Incrível como uma música secundária salta para a linha da frente com uma excelente interpretação ao vivo, e é difícil encontrar melhor exemplo disso mesmo. O solo de saxofone que Notwan arrancou a custo de perder o fôlego, sob as luzes de tonalidade vermelha, transportaram-nos para outro sítio que não um showcase de rap, e certamente captou os olhos e ouvidos de quem tenha sido arrastado para o Musicbox sem saber ao que vinha.

 



Depois veio uma música “dedicada a uma cadela”, segundo as palavras do próprio NERVE. “Simone” foi a próxima na lista e fez cumprir o alinhamento do EP que acabava com um anúncio enganador: “vamos agora para a última faixa”. Ao que acrescentou, entre risos, “eles acham que eu estou a brincar”, mas não estava. Era mesmo a última de Auto-Sabotagem, mas o concerto prolongou-se por mais três depois de “Breu” em tom de encore.

Saiu durante dois ou três minutos, tempo menos que o suficiente para causar o suspense, mas o que se queria era ouvir música. E foi música que NERVE deu ao Musicbox, e das mais antecipadas com as duas últimas gravações do artista a serem tocadas ao vivo depois de mais uma de Trabalho e Conhaque – “Subtítulo”. Quase no fim, pediu a Notwan para dizer à plateia que ele “não estava ok” durante “Lápide” e despediu-se pouco depois com uma inédita colaboração com Stereossauro que será incluída no álbum Bairro da Ponte, a sair no início de 2019.

 


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