Não há volta a dar: Migos e o triunfo da cultura

[TEXTO] Moisés Regalado [FOTO] Rony Alwin

A consolidação definitiva, sem que houvesse volta a dar, começou apenas em 2017, com Culture, segundo álbum do trio de Atlanta — em 2016 tinham editado aquela que viria a ser a sua última mixtape, Y.R.N. 2, numa espécie de despedida do circuito underground. Dito isto, chega a parecer que tudo começou há pouco tempo, apesar da memória colectiva dizer o contrário, ou não fosse este um dos mais activos e influentes grupos da última década. O movimento trap já tem barba rija e os Migos até são, a par de Gucci Mane, o nome mais universalmente acarinhado pelos fãs; afinal, “Versace” ainda é um daqueles temas inabaláveis, e todos sabemos da importância de Drake para o início da lenda, no já distante ano de 2013.

Deste lado do Atlântico, a história não terá sido bem assim. Corria precisamente 2013 quando Y.R.N. (terceira mixtape do grupo e primeira com o carimbo Quality Control) serviu de início para uma história que continua a ser escrita. Também por cá, o site DatPiff, responsável pelo alojamento de Young Rich Niggas, figurava entre os mais populares serviços de streaming e não tardou para que os ecos da revolução atravessassem o oceano, aproveitando a boleia do YouTube e do sucesso de “Bando” ou “Hannah Montana”. Mas poucos foram aqueles que souberam interpretar os sinais da mudança, anunciada a boa voz pelas opiniões da Pitchfork ou da Rolling Stone. E ainda não seria aí que os Migos e a sua “trap music” tomariam de assalto a cena portuguesa.

De há dois anos para cá, torna-se difícil contar as inúmeras referências feitas a Quavo, Offset e Takeoff nas páginas da imprensa nacional, especializada ou não nestas lides da música hip hop, e assim se percebe que os rapazes de Atlanta cheguem a Portugal, dois anos depois, como estrelas à escala global, a exemplo de tantas outras que no passado aqui vieram esgotar recintos. Sendo verdade que o sucesso caseiro, dentro das terras do Tio Sam, é condição essencial para que os Migos ou outros artistas atinjam o tal reconhecimento internacional, também é válido afirmar que o mundo só se conquista definitivamente ultrapassando fronteiras.



Em Portugal, mesmo que o reconhecimento colectivo nos aponte 2017 como ano de mudança, já havia quem os quisesse receber antes disso. Mostram-nos os arquivos online que a primeira notícia sobre os Migos terá sido avançada pelo Correio da Manhã em Março de 2015, a propósito do tema “One Time”, seguindo-se um breve mas importante período em que a história, que crescia a olhos vistos, só seria acompanhada pela prata da casa. Em Outubro de 2015, o recém-nascido Rimas e Batidas avançava a data de lançamento do projecto Migos Thuggin, que viria a unir Migos a Young Thug; em 2016, um ano depois de abrir portas enquanto site, também o Rap Notícias dava conta da actividade gerada pela turma da Geórgia, em grupo ou a solo, ao lado de A$AP Ferg, Rae Sremmurd, Post Malone ou Travis Scott.

Sem nunca esquecer que plataformas como o Rimas e Batidas ou o Rap Notícias são, além de agentes divulgadores, um reflexo daquilo que o público vai consumindo e ditando, uma coisa será certa: o point of no return desta escalada vertiginosa, agora acompanhada pelo ouvintes de Portugal, chegaria então com a edição de Culture, no dia 27 de Janeiro de 2017. De lá saíram temas como “T-Shirt”, “Bad and Boujee”, “Get Right Witcha” ou “Slippery”, e daí para a frente passou a ser normal discutir, dissecar e, antes de mais, ouvir a música dos Migos, agora tão incontornáveis como qualquer ícone pop desta vida. Claro que o sucesso imediato chegou à boleia de um leque de sonoridades e recursos técnicos extremamente afinados, mas tudo isso eram características que os acompanhavam desde pelo menos 2013, quando os autores de Y.R.N. pareciam destinados a habitar uma cultura paralela.

O que mudou, então, com a chegada de Culture? Para lá do mérito e do hustle, tão importantes no trio de Atlanta como as dicas ou os flows, talvez nem seja ousadia pensar que as portas do (nosso) mercado pop, pequenina parcela dessa globalidade que bafeja os Migos, só se abriram definitivamente quando o (nosso) movimento hip hop, que até há pouco se encontrava despido de canais informativos e trocas regulares de informação, aceitou Quavo, Takeoff e Offset como dignos representantes. Por isso, falar em Migos não é falar numa febre passageira ou numa minoria, nem é, por mais que os registos não contem a história toda, dar voz a um fenómeno recente. Goste-se ou não da música, aprecie-se ou não a estética, falar de Migos é, sobretudo, falar na vitória daquilo a que chamamos cultura. 


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