Um ano depois de Tudo Ao Contrário, Mura regressou com o prometido segundo volume do projecto: com mais faixas, apenas beats originais e uma coesão que fez com que assumisse esta sequela como um álbum e não como uma mixtape.
Editado a 15 de Janeiro, Tudo Ao Contrário Vol. 2 inclui participações de Maze, Sir Scratch, TNT, Kulpado, J.Cap, Praso, Nero, Pibxis, MLK Mau Aluno, BRAIN DA 6ENIOU$, João Pestana, Vácuo, E.Se, Lazy, NAZona, Johny Malibz, Dwalla, UEST., Fidas, Buba Pastorícia, RCLME, Cevas e Ja Yl’ Son. Todos os beats foram produzidos pelo próprio Mura, excepto quatro instrumentais que recebeu de Raze, Crate Diggs, ODm_ e de sebaztiao (que se estreia oficialmente como produtor, sendo mais conhecido como realizador, videógrafo e fotógrafo).
No sábado, 7 de Fevereiro, junta-se ao comparsa Vácuo para uma actuação conjunta na Academia Dramática Familiar 1 de Novembro de 1898, em Lisboa, num evento que tem Pibxis como grande anfitrião e onde irão interpretar faixas de diferentes projectos.
Em entrevista ao Rimas e Batidas, Mura fala sobre o processo de construção deste segundo volume, antecipa o terceiro Tudo Ao Contrário, deixa a porta aberta enquanto produtor e assume-se cada vez mais como um impulsionador indispensável desta cultura.
Quando falámos no ano passado sobre o primeiro volume de Tudo Ao Contrário, já dizias que estavas a pensar em sequelas. Mas este segundo volume acabou por ter mais faixas e só com beats originais.
Eu já queria puxar algum pessoal do meu meio que conhecesse bem e que cresci a ouvir. A minha ideia até era ter mais, seriam 30 faixas com mais de 50 artistas. Mas se calhar era demasiada fruta, então decidi dividir o projecto e daí ter 15 faixas. O terceiro volume há-de ser a continuação, a minha cena agora é continuar com este festival de pessoas. Neste queria dar uma prenda à minha zona, daí fazer tantas referências ao Laranjeiro. Puxei várias pessoas de lá, de Almada, claro que também fui buscar pessoal ao Porto… Puxar os OGs, os mais novos, e fazer um mix de pessoas para demonstrar o talento.
E como foi a escolha de quem é que iria entrar em cada faixa?
Até foi fácil, porque gajos como o Kulpado, o MLK, o TNT, já têm muitos anos disto e são camaleónicos. Têm muita escola de escrita e encaixam muito bem em qualquer beat. Acho que com os OGs foi logo à primeira, se calhar também acertei nos beats certos.
Mandaste um beat específico para cada um?
Sim! “Tenho este beat e via-te aqui.” E depois é aquela ansiedade da resposta, se gostou ou não gostou, mas por acaso correu sempre bem. E ainda bem porque a maioria dos beats são meus [risos]. Mas foi mesmo pela cena de: vejo este rapper, com esta voz e esta vibe, aqui. E sou honesto, queria fazer um bocado de DJ Khaled e juntar feats de que ninguém está à espera. Acho que falta muito isso hoje em dia, o pessoal não arrisca muito em fazer sons com pessoas fora do círculo deles. E acho que isso é incrível porque é um som que pode ser muito bom e tu não estás à espera, que foi o que acabou por acontecer. E de toda esta partilha, depois conheces mais pessoas e outras coisas podem acontecer a nível musical. É algo que tentei fazer e que estou a continuar para o terceiro volume, arriscar para que o pessoal nunca saiba o que esperar de quem vai estar comigo. Como, por exemplo, juntar o E.Se com o Praso. Ou pôr o Ja YI’ Son, um gajo do reggae, num beat do sebaztiao. Ninguém está à espera de ouvir um beat do sebaztiao, que é um gajo do vídeo. Ou seja, queria trazer estas surpresas. “Então este gajo também faz isto?” “Este gajo está a rimar com aquele?” Também o “Warup”, com o Pibxis e o J.Cap, era algo que o Pibxis já queria há muito e foi mais um risco na bucket list dele. A mim também me dá uma certa felicidade, estou a dar isto aos meus tropas, é quase passar um testemunho. E depois, se calhar, ficam amigos e podem fazer mais coisas entre eles. É para isso que o rap funciona.
E a tua própria bucket list também está a encurtar.
É, está. Daqui a nada sou o gajo com mais feats em Portugal [risos].
Com este ritmo de vários volumes, para lá caminhas. E de certeza que tens aí boas surpresas para o terceiro volume.
Sim, o volume 3 está praticamente a meio. Se bem me lembro, faltam umas cinco faixas. Mas ainda vou ouvir de novo, tentar ter umas coisas diferentes. Acho que aumentei um bocado a fasquia neste, a nível de produção, acho que fiz uma coisa coesa. E fico feliz porque foi tudo feito por mim, tirando os beats do Crate Diggs, do sebaztiao, do Raze e do ODm_. Sem ser o Crate Diggs, com quem já tinha colaborado, eram todos produtores com quem queria trabalhar, já tínhamos apalavrado fazer projectos mais tarde. Agora surgiu a oportunidade, “estou a fechar o projecto, manda-me o que tens”. E não mudaria ninguém naquela tracklist, principalmente fiquei feliz porque deram-lhe todos bué. Os rappers trouxeram letras incríveis, surpreenderam-me, no words mesmo.
E ao mesmo tempo que conseguiste essa coesão e qualidade sonora, também tem um certo espírito de mixtape, de muitos convidados e de um certo estilo livre. Conseguiste de alguma forma manter o espírito do primeiro volume, mas elevando o projecto.
Sim, e dei por mim a pensar se iria chamar a isto uma mixtape, porque não tem nenhum beat da net, não tem nenhum DJ a mixar… “Eh pá, isto está a soar-me a álbum, mais vale assumir que é um álbum.” Não é que o volume 3 não possa sair mais num formato de mixtape, mas achei que este estava demasiado bom para ser uma mixtape.
Também são termos que valem o que valem hoje em dia, não é? Chamar mixtape ou não. Seja como for, conseguiste manter o espírito, com muitos convidados.
E é uma cena rara, corrige-me se estou errado, mas não me lembro de muitos rappers que juntaram tanta gente. Lembro-me de muitos DJs e producers que o fizeram, mas rappers, tirando as mixtapes do Regula… Acho que o hip hop em Portugal está um bocado num nevoeiro, o pessoal tem de começar a limpar e ver que só fazemos coisas boas juntos. Eu percebi muito isso. Até para os projectos terem sucesso, acho que não consegues fazer nada sozinho. O pessoal tem de arriscar e juntar-se mais, fazer mais estas coisas. Com o pessoal da zona deles, da linha deles, da outra linha, da Margem Sul, do Norte. Percebes? E há muitos rappers da Covilhã, mano. Há muitos rappers, sei lá, de Abrantes, do Alentejo, do Algarve. E parece que a gente se cola sempre aos mesmos sítios. Enquanto rapper, enquanto produtor, também quero dar voz a mais gente, pessoal com quem acabo por falar por causa da música. As redes também tornam a comunicação mais fácil e depois é conhecer as pessoas. Depois de um concerto ou outro, a gente dá-se, cria-se ali uma amizade e vamos fazer som. Porque eu sempre vi isto assim. A música é fazer som com amigos. E o resto é o resto. É mais o que a gente deixa do que o que a gente leva. É mais por aí, deixar um legacy.
Claro, e é curioso porque começaste por dizer que este trabalho também era uma prenda para o Laranjeiro, mas além de alargares muito o espectro de convidados também estás a falar da vontade de colaborar com pessoas de sítios bem distantes.
E se calhar falta… No fundo, não há nada para que essa collab não aconteça. É só uma questão de alguém tomar a iniciativa. Se fores bom, se tiveres as mesmas visões que eu, se estiveres no mesmo meio que eu, why not? Eu não quero propriamente fazer um som para passar na rádio… Até se calhar faço o dia àquela pessoa e essa pessoa vai-me fazer o dia a mim porque fizemos um grande som. E vou estar a ouvir aquele som durante um mês e é esse feeling que quero, ir à procura disso. E estes projectos têm-me dado isso e fazem-me sentir que tenho de dar o meu melhor, porque estou a dar faixas a pessoas diversas, e sinto que cada vez mais estou a chegar ao meu melhor por causa disso, porque sinto a pressão. Vou mandar um beat ao Maze, ao Kulpado… Tenho de lhe dar bacano [risos], tenho de mandar um grande beat e isso força-me a elevar a fasquia. Se me abancasse e ficasse mais à espera que alguém me arranjasse as coisas, não sei se tinha esta estaleca toda. Mas isso é algo que eu sempre procurei. Ir à procura — “isto para mim não chega, quero mais.” Acho que o truque é esse.
E, neste caso, enviavas o beat já com o teu verso?
Sim, já com o verso. Porque se não acabava por demorar mais. No máximo não mandava o refrão e fazia depois, mas mandei sempre a sixteen. Porque acho que isso também os motiva — “o gajo está a rimar bacano, agora vou ter de rimar mais que o boy”. É a competição saudável, que faz parte e eu adoro isso. É isso que me faz ser melhor. E quando fiz os EPs não estava tão maduro, acho que não tinha estaleca para isto tudo, ainda não tinha feito propriamente estrada, não estava muito aware. E agora acho que era o momento certo: se ninguém está a fazer isto, porque é que não hei-de fazer? Dou-me bem com tanta gente, falo com tanta gente, porque é que não hei-de fazer isto? O pessoal também é boa onda, então ‘bora fazer. E sempre que explicava a ideia ao pessoal, de que provavelmente iriam rimar com outras pessoas, que talvez não conhecessem, e toda a gente dizia: “Grande cena, já não acontece há bué”. Foi tudo muito orgânico e depois foi só ficar em casa a misturar as coisas, mudar uma coisinha ou outra num beat.
E sempre que ouvias a participação de alguém, devia dar-te motivação para continuares.
Esquece, estava com a miúda ou os tropas: “Recebi agora a faixa, queres ouvir? Que cena, estou mesmo a fazer isto”. É quase um sonho, muitos são pessoas que cresci a ouvir. Estava a ver os Morangos com Açúcar, a ouvir o “Brilhantes Diamantes”, o Maze foi um dos primeiros concertos que vi e tive o prazer de fechar uma faixa com ele… Qualquer uma destas pessoas inspirou-me, incluindo aqueles com quem cresci, como o Malibz e o Crate Diggs; e os OGs que me acolheram no meio desta cultura. Sinto-me um privilegiado.
Para o fim, reservaste uma faixa só tua, suponho que para terminares o projecto com um cunho mais pessoal.
Acho que é a faixa mais actual, onde estou mais agora. A “Sentir é Tudo” já estava a meter de parte porque estava a pensar num álbum, achava que era demasiado knowledgeable, mas como no final concluí que isto era um álbum, vou acabar em grande com uma faixa minha onde fiz também um poema em voz-off. Não trouxe o José de Arriaga, o meu alter-ego, foi o Mura a dar… E tenho ficado surpreendido pela forma como o disco está a ser recebido, um grande obrigado a todos os que andam a ouvir, não esperava mesmo. Acho que o truque é lançares um filho para a net e não meteres expectativas, mas o pessoal do hip hop tem-me dado aquele praise e mesmo nas plataformas estou a sentir que está a rodar bem. Arrisco dizer que é o meu melhor lançamento, em pouco tempo está a ter um boom fixe e fico contente com isso também.
Se olharmos para os teus últimos cinco anos, lançaste muitos projectos, tanto a solo como em colaboração, tal como através da Godsize Records. Quais são os planos daqui para a frente?
Agora estou mais a solo, acho que durante muito tempo andei a não pensar muito nas coisas como eu queria, então agora estou a precisar de ir no meu caminho — e o volume 2 acabou por ser o marco disso. Agora vou começar a fazer as coisas mais como quero e ir pelo meu feeling enquanto artista. Preciso disso, de sentir a liberdade de arriscar e de não ligar muito a opiniões.
E, como se nota, isso não impede que faças muitas colaborações.
Exacto, e gosto de ser aquele rapper que trabalha com produtores. Eventualmente, este ano, e isso já está apalavrado, vou trabalhar com alguns produtores, tal como fiz com o Keso e o Stereossauro. Quero continuar essa jornada, ser quase um Boldy James [risos]. Também falta muito isso em Portugal. Há demasiados rappers, demasiados produtores, e não me importo de ser um deles.
E, tendo em conta que neste disco assumiste um papel preponderante como produtor, também gostavas de produzir um EP para outro rapper?
Adorava, já estou a começar a ter mais pessoas a pedir-me beats, o que é óptimo. Acho que agora abri essa porta: “Ah, ok, o Mura é produtor.” Porque eu nunca assumi muito isso, tinha um bocado de receio, mas depois comecei a produzir para mim, as coisas saíram bem, porque é que hei-de ter medo de produzir para outros? Era uma cena que gostava de fazer, um projecto com um rapper que me puxasse verdadeiramente, ou eventualmente lançar uma beat tape. Mas gostava daquela coisa de me adaptar e fazer beats para aquela pessoa, quero fazê-lo porque também ganho muito com isso. E, sim, cada vez mais me considero não só rapper, mas também produtor, estou de braços abertos. Portanto, quem quiser [risos].
Claro, é algo que te amadurece musicalmente, e os projectos com o Keso e o Stereossauro também te devem ter dado essa bagagem.
Estar em estúdio com essas duas pessoas foi uma bagagem que levo para a vida enquanto músico. São dois aliens no seu mundo, no bom sentido, cada um diferente à sua maneira mas os dois impecáveis. O Stereo é mais a surpresa: “Como é que lhe entrego algo e depois sai um som completamente diferente?” É um génio. O Keso é um génio da escrita e um gajo com quem adoro estar em estúdio. Gravei nove faixas com ele num dia, foi uma coisa que nunca tinha feito, mas estava muito à vontade.
Portanto, estás mais focado nestes projectos em que podes ter mais controlo criativo do que em trabalhos mais colectivos como PACTO, etc.
Quer dizer, PACTO é uma coisa a que vou estar vinculado e não vou sair… Tal como este disco me permitiu sair da toca, PACTO tem isso. São os meus melhores amigos. Também é outra coisa que falta no rap tuga, não é? Discos assim. São todos meus irmãos, conhecem-me melhor do que qualquer pessoa. Nós nem vemos a música como o nosso foco ali. Se for preciso, falamos todos os dias e gravar som nem é um dos principais temas. É isso que prezo mais, são mesmo os meus amigos. Por isso, eventualmente faremos mais um álbum, que já está falado, mas nas calmas e à nossa maneira. É disso que gosto neles. E este último concerto que demos deu para sentir que nunca tinha tido uma banda assim, nunca tinha estado com tantas pessoas em palco. É uma energia completamente diferente. Estou muito mais à vontade. Diverti-me muito mais. Não senti tanta pressão. E é uma coisa que quero guardar. Acho que faz bem porque não há nada disso aqui. PACTO é uma coisa para ficar e tem de ficar. Cada um dá o seu melhor. Se estiver podre, a gente diz: “Mano, estás bué podre, melhora isso” [risos].
Cada um tem o seu estilo diferente, também é isso que é interessante.
Depois é isso, cada um tem a sua imagem, o seu estilo, ninguém copia ninguém, soa tudo bué diferente. Para mim é um poço de inspiração. E sinto-me feliz por sermos um grupo grande, por estar a lutar por esse nicho.
Em várias frentes, não é?
Mano, eu quero morrer e deixar o máximo de merdas possíveis, a missão é essa. Já sei que não vou ficar milionário com isto, não estamos nos Estados Unidos, o que posso deixar é uma marca boa, orgulhar os meus e a mim próprio. Dar sempre o meu melhor e isso também puxa o pessoal para fazer coisas, não é? Esse papel às vezes também é importante, é quase ser um impulsionador.
Quase não, acho que é mesmo.
Sim, ainda não me caiu a ficha.