Mundu Nôbu Remix EP: uma nova viagem pela noite lisboeta

[TEXTO] Alexandra Oliveira Matos [FOTO] Midnight Madness

Com menos de um ano e depois de muitos palcos conquistados, Mundu Nôbu faz agora uma nova viagem. Desta feita pela noite lisboeta, viagem que se traduz num EP que, se fecharmos os olhos estando com auscultadores nos ouvidos, nos transporta para uma “Na Surra do B.leza, a ouvir o ‘Nôs Funaná’ do Branko e PEDRO, depois para o Musicbox para uma noite Crack a abrir a pista com o ‘Nôs Funaná’ do Glue e Here’s Johnny, e a seguir até ao Lux para entrar no mood da ‘Nova Lisboa’ recriada pelo Moullinex”, como sugere Dino D’Santiago. “Quando estivesse a amanhecer, ouviria no carro em repeat o balanço do ‘Sô Bô’ do PEDRO e do Mafama até chegar à Amadora”.

O “Nôs Funaná” com o toque dos dois elementos da Enchufada é mais antigo que o próprio álbum. “Fizemos para tocar nas Na Surra”, explica Branko que lançou o desafio ao PEDRO, que “num par de horas fez 80 por cento do remix”. Dino diz mesmo que havia a “necessidade de ter versões para o live” e que a ideia veio de Kalaf, produtor-executivo do disco. Depois desta primeira pedra, DJ Glue ainda foi convidado a tempo de entrar como bonus track na versão do álbum disponibilizada no iTunes. Para o dono de Goodies “esta remistura tinha de passar pelas mãos do Johnny para ele fazer a sua magia”. E assim foi. Com a intenção de “mostrar que o hip hop faz parte desta nova Lisboa”, Glue e Here’s Johnny quiseram “dar uma vibe mais bouncy e tornar o ‘Nôs Funaná’ num tema que qualquer DJ possa tocar numa noite de clubbing”, afirma.

Outros acasos felizes foram acontecendo para que se criassem estes quatro temas a partir de um mesmo LP, mas tão diferentes e preparados para tantos tipos de danças. “O desafio veio do Kalaf, que é um dos maiores engenheiros de pontes metafóricas que conheço”, descreve Luís Clara Gomes. Daí até ao “Nova Lisboa” que poderemos ouvir num set de Moullinex foi uma viagem no tempo. “Se a melancolia é um piscar de olhos à Lisboa antiga, as escalas arábicas em convivência com o crioulo num fundo house são-no à sua modernidade”, descreve. Pelo meio, as palavras de Dino funcionam “como um mantra”.

“Sô Bô” ganha pelo tarraxo de PEDRO e pelas palavras de Carlão e Pedro Mafama. PEDRO tentou “dar-lhe ali mais um pequeno boost de ritmo, para se sentir aquela tarola do universo tarraxo a mexer com a anca das pessoas”, explica. E frisa que o Carlão “acrescenta sempre coisas óptimas a qualquer música” e que Pedro Mafama foi o “pensar fora da caixa. “O Mafama inseriu sal na faixa que faz a diferença a qualquer pessoa que oiça a remistura”, sublinha, referindo uma linha tão relacionável como “’tou-me a sentir um carro tuning/ passei a vida toda rebaixado”. E Pedro Mafama confessa que “estava a precisar muito de dizer aquelas palavras”. Desafiado também por Kalaf, o músico diz ter “uma ligação emocional” com este som de Mundu Nôbu.

Todos se sentem parte desta Lisboa nova que Dino D’Santiago tem partilhado com o resto do mundo. Uma bandeira de retalhos, tal como este EP. “Se olharmos pra lá da gentrificação e das hordas de turistas, vemos uma Lisboa plural, heterogénea e com amor próprio”, acredita Moullinex. E, de resto, é “lindo ver como uma canção que nasce de uma forma, pode ganhar outros contornos estético-sonoros quando sai de outra fonte inspirada”, remata Dino.


Alexandra Oliveira Matos

Alexandra Oliveira Matos

Questionar é o verbo pelo qual orienta o olhar. Licenciada em jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, mestre em continuar a aprender.
Alexandra Oliveira Matos